Jornal Correio Braziliense

Diversão e Arte

Mariana de Moraes lança terceiro disco com influências africanas

O primeiro talento artístico de Mariana de Moraes que aflorou foi o de atriz. Aos 15 anos, a filha do fotógrafo Pedro de Moraes e da modelo Vera Barreto Leite, foi convidada pelo cineasta Davi Neves para ser protagonista do filme Fulaninha, personagem que vivia o rito de passagem entre a adolescente e a mulher. Descoberta pelo Brasil, se tornou famosa bem jovem e passou a atuar com frequência em produções cinematográficas e televisivas.

Mas, o que mais Mariana queria era ser cantora. A música foi um ofício pelo qual se apaixonou ainda criança, quando costumeiramente, em reuniões na casa do avô Vinicius de Moraes, convivia com nomes destacados da MPB. Caetano Veloso e Gal Costa foram seus primeiros ídolos e referências. ;Com o Caetano aprendi muito sobre os sambistas da velha guarda. A voz de Gal me fez decidi pelo ofício de cantar;.

Só aos 24 anos é que Mariana passou a encarar a música profissionalmente. À época, a tia Suzana de Moraes a aconselhou a evitar incluir músicas de Vinicius em seu repertório, por considerar isso algo oportunista. Ela seguiu a orientação à risca e, em 1997, ao gravar A alegria continua, o primeiro disco, que dividiu com Elton Medeiros e Zé Renato não havia nada do Poetinha no repertório. O mesmo ocorreu nos CDs que lançou em 2001 e 2007.

Embora continuasse fazendo shows, a cantora ficou um bom tempo sem gravar. Isso só voltou a ocorrer há dois anos, durante o verão, quando se instalou por 15 dias, com músicos e produtores, no Coaxo do Sapo, estúdio que Guilherme Arantes mantém em sua pousada, em Barra do Jacuipe, no litoral norte da Bahia. Lá fez o registro das 13 músicas incluídas em Desejo, álbum recém-lançado pela Biscoito Fino.
A demora para a chegada do disco é explicada por Mariana: ;O Desejo é um projeto independente e, por isso, foi sendo feito sem muita pressa, mas também sem pressão e com total liberdade. Na realização, contei com o apoio de um amigo e mecenas que me possibilitou ter no estúdio comigo dois produtores e músicos excepcionais, nesta viagem pela vasta literatura musical brasileira e sua variedade de ritmos e estilos;.

Escolhas pessoais
Não foi aleatória a convocação de José Miguel Wisnik e Alê Siqueira para produzir esse ;disco de preto;, como define a cantora, diante da contribuição da cultura africana. O repertório é bem representativo do que foi proposto por ela, indo de Engomadinho, samba tradicional de Pedro Caetano e Claudionor Cruz, as músicas contemporâneas, como Morro amor (rara parceria de Caetano Veloso e Arnaldo Antunes), Motivos banais (Adriana Calcanhotto e Wali Salomão), Liberdade é bonita (Jorge Mautner e José Miguel Wisnik) e Veleiro azul (Luiz Melodia e Rubia Matos).

Todas foram escolhas pessoais de Mariana. Em outras das 13 faixas ela homenageia Gal e Brasília, ;uma cidade que vislumbro muito além da política;, ao recriar Flor do Cerrado (clássico com a assinatura de Caetano Veloso); e presta tributo ao avô, com Amor e lágrimas, uma pouco conhecida parceria dele com Cláudio Santoro, criador da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional. ;Com Amor e lágrimas quis promover o encontro da alta cultura com a cultura popular;. Nessa linha de pensamento deve-se ressaltar, também, a presença de Dorival Caymmi, autor de A mãe d;água e a menina, que conta com a participação do grupo vocal Ganhadeiras de Itapoã.

Mas a cantora também aceitou sugestões. O produtor e amigo Wisniki indicou Tabu, da cubana Margarita Lecuona, e a autoral Assum branco; enquanto Guilherme Arantes propôs Vai e vem, amor de carnaval, uma de suas parcerias com Nelson Motta. ;Admiro bastante Guilherme; e quando ele sugeriu essa canção topei gravar na hora;. Mariana diz que sempre teve implicância em relação a gêneros. ;Vivemos um tempo de intolerência e quis que Desejo tivesse como característica a diversidade;, explica.

Inicialmente, ela pensou em um trio para acompanhá-la nas gravações e convidou Guto Virti (baixo elétrico), Marcelo Miranda (violão de nylon, piano e flauta) e Mikael Muti (escaleta e hammond). O percussionista Marcelo Costa, porém, acabou se incorporando ao grupo. E houve, ainda, as participações mais que especiais dos saudosos Dominguinhos e Nelson Jacobina e de Lincoln Olivetti, Jessé Sadock, Sacha Ambach e Guilherme Arantes. ;Todo o processo foi muito bonito. Tivemos muita sorte de juntar tanta gente linda e talentosa nesse projeto;, afirma emocionada.