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Estado de Minas

Felizes para sempre levanta debate sobre representação de Brasília na tevê

A minissérie global dirigida por Fernando Meirelles estreia nesta segunda-feira


postado em 26/01/2015 08:05 / atualizado em 26/01/2015 15:03

Cena da minissérie global Felizes para sempre(foto: Zé Paulo Cardeal/Globo)
Cena da minissérie global Felizes para sempre (foto: Zé Paulo Cardeal/Globo)

Quando se pensa em uma obra audiovisual ambientada em Brasília, um turbilhão de clichês vêm à mente. Será uma ficção sobre política? Um documentário sobre a criação de Brasília? Uma série sobre o rock dos anos 1980? Em Felizes para sempre, releitura da minissérie Quem ama não mata (1982), que estreia nesta segunda-feira (26/1) na Globo, o diretor Fernando Meirelles usou a capital como pano de fundo para contar uma história sobre relacionamentos, fugindo dos estereótipos que permeiam a cidade e apresentando lugares até então pouco explorados na tevê nacional.

“A minissérie está impregnada da cidade. A maioria dos brasileiros conhece apenas as imagens da Esplanada e poderá se surpreender com a vida ao redor do Lago Paranoá, ao entrar numa superquadra e circular pelas avenidas da cidade. Brasília virou uma personagem da história. Se a percepção da cidade não mudar para os espectadores, ao menos para mim terá mudado e muito. Cheguei achando que a cidade tinha uma certa frieza e saí com a certeza de que além de ser a cidade mais bonita é o melhor lugar para se morar no Brasil”, relata Meirelles.

No começo, o escritor Euclydes Marinho, roteirista de ambas as versões da série, ficou um pouco resistente com a ideia de trocar Niterói, cidade em que a trama se passa originalmente, por Brasília. “Depois, acabei comprando a ideia e, hoje, tenho certeza de que foi um acerto. A minissérie está muito bonita”, elogia. “Apesar de eu ter usado o argumento de que, como a trama política da série envolve o Congresso e um ministério, seria interessante usar estes locais de verdade, minha opção de filmar em Brasília foi 100% estética”, revela Meirelles.

“Brasília é diferente em qualquer aspecto, não só como cenografia. A quantidade de céu e de horizonte talvez seja o que a torna distinta e os grandes vazios urbanos também. Eles refletem lindamente a alma solitária dos personagens. Usamos sempre a câmera baixa para explorar ao máximo o céu do Planalto e voamos livres com nossos drones pelo meio daqueles monumentos. Isso foi um prazer do tamanho da Esplanada”, conta o diretor, que, no meio da correria, ainda encontrou tempo para fazer aulas de squash e conviver um pouco com brasilienses que, segundo ele, foram muito abertos e receptivos.

Apesar de haver um viés político na história, relacionado ao financiamento de campanhas, o foco são as relações entre cinco casais — que envolvem desejo, mentira, ambição e traição — e um crime passional. Enquanto Marília (Maria Fernanda Cândido) luta para salvar o seu casamento com Cláudio (Enrique Diaz); Tânia (Adriana Esteves) esconde um terrível segredo do marido Hugo, (João Miguel); e Denise (Paolla Oliveira) leva uma vida dupla — de dia, faz faculdade de moda e, à noite, é uma garota de programa, atividade que esconde de sua namorada Daniela (Martha Nowill).

Para fazer a minissérie, Fernando Meirelles diz ter pesquisado obras rodadas em Brasília para ver como a cidade era representada, mas que não encontrou muitas referências. “Não sou nenhum especialista, mas minha sensação é que há poucos filmes que exploram o lugar, o que é surpreendente por se tratar de uma cidade tão extraordinária”, opina.

Outros olhares

O cineasta paulista José Eduardo Belmonte, formado em cinema pela Universidade de Brasília e autor de dois longas ambientados na capital (A concepção e Subterrâneos), acredita que a cidade possui temas incríveis a serem explorados, mas que, muitas vezes, o que acaba prevalecendo são os clichês e o seu lado alegórico. “Brasília suscita muitas questões subjetivas. A paisagem cria uma relação muito particular da cidade com o seu habitante. É uma cidade grande com aspectos provincianos. Nos meus filmes, procuro retratar o aspecto humano do lugar”, reflete Belmonte.

René Sampaio, que atualmente está trabalhando em uma ficção sobre a música Eduardo e Mônica, depois de ter estreado como diretor no longa Faroeste caboclo (2013), não acredita que fazer mais um filme inspirado em uma música da Legião Urbana reforce estereótipos sobre a capital. “É a mesma coisa que criticar um filme de samba feito no Rio de Janeiro. Há diversos temas e situações a serem explorados. Acho que qualquer um pode trazer um olhar diferente.”

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