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Estado de Minas

Em entrevista, diretora de "52 Tuesdays" fala sobre os desafios do longa

Sophie Hyde conta como foi abordar um tema ainda considerado tabu, a mudança de sexo, e fala sobre o esquema de trabalho, já que filmavam apenas às terças-feiras


postado em 30/01/2015 18:21 / atualizado em 30/01/2015 18:54

(foto: bfi/reprodução)
(foto: bfi/reprodução)


Com sete prêmios na bagagem, incluindo melhor filme no Festival de Berlim e melhor direção no Sundance Film Festival, a diretora, roteirista e produtora Sophie Hyde encarou um desafio ao comandar o filme 52 Tuesdays — que tem exibição programada para hoje, às 23h, no Sundance Channel. Isso porque, além da película abordar um tema ainda considerado tabu, a mudança de sexo, foi a primeira vez que ela assumiu a direção de um longa-metragem. Hyde é conhecida por documentários premiados, como Life in Movement e Elephantiasis.

Em entrevista ao Correio, a Sophie contou como foi dirigir um elenco formado por atores não profissionais, gravar apenas às terças-feiras, além de mostrar o que pensa sobre os temas considerados tabus e como a arte pode ampliar as discussões sobre os assuntos na sociedade.

Existe uma razão específica para que assuntos como mudança de sexo estejam ganhando espaço e relevância nos filmes e nas séries?

De uma perspectiva pessoal, estou interessada em histórias sobre pessoas que não se subscrevem às regras que impomos a nós mesmos, a respeito de como devemos viver. Penso que gênero, em particular, é algo insuficiente enquanto ideia — a ideia binária de que um homem e uma mulher são vastamente diferentes entre si e que são feitos de peculiaridades e comportamentos. Nem sempre me insiro nessa visão. Creio que a nossa perspectiva sobre gênero é limitada. Acredito também que estou procurando por personagens e histórias sobre pessoas que tentam entender como elas podem ser elas mesmas, mesmo que essa ideia se altere — alguém que está com esse desafio explícito é atraente.

Cena de 52 Tuesdays
Cena de 52 Tuesdays


Como a senhora acha que aproximar do público a transição de gênero em um filme pode aumentar e melhorar as discussões sobre o assunto na sociedade?
Qualquer história que nos mostre a diversidade da experiência é um excelente passo para trazer a verdadeira empatia e o entendimento — mostrar um reconhecimento das similaridades e das diferenças de cada um, como uma chance de ver que nossas diferenças podem ser algo para celebrar, encorajar e se interessar. Histórias são um meio poderoso de considerar o que está presente em toda a nossa vida — desafiando essaa ideia que todos temos a mesma história, aquela que estamos acostumados a ouvir.

A senhora acredita que a arte, nas suas várias formas, pode mudar a visão da sociedade sobre temas que são considerados tabus?
Claro. A arte pode nos desafiar e provocar. No entanto, a arte e as histórias podem continuar a rearticular e a reforças ideias problemáticas. Muitas histórias fazem isso, reconfirmam mais e mais as mesmas ideias. A arte pode nos ajudar em nossas próprias vidas e como tratamos uns aos outros e, sim, nos provoca a considerar como pensamos e vivemos.

Por que apenas às terças-feiras e por que 52 terças-feiras? Há alguma relação entre esse período específico de um ano e o tempo que os personagens precisavam para viver o drama do filme?
O conceito das 52 terças-feiras veio do roteirista Matthew Cormack. A cada semana, as pessoas se encontravam e nos gravávamos somente às terças. Quando começamos a desenvolver a ideia, queríamos uma história que fosse contada por um ano por uma razão. Geralmente, falávamos sobre a "promessa da mudança" — que os personagens se apegavam a promessa da mudança, não que eles tinham que mudar. Sentimos que um ano foi o tempo no qual isso poderia ser examinado de forma genuína, não de forma sensacionalista. As mudanças de um ano são graduais, então você não as nota sempre enquanto estão ocorrendo e, às vezes, de repente, pode olhar para trás e ver como tudo se alterou. Para nós, o que foi tão interessante em fazer o filme foi o quanto nós, os atores e os personagens, mudamos emocionalmente durante um ano — mais do que fisicamente.



Como foi para você gravar em apenas um dia por semana durante todo o ano? Você percebeu uma diferença na sua relação com o filme no início e no fim?
Foi um prazer fazer um filme como esse. Tive a oportunidade de trabalhar de perto com novos atores no desenvolvimento dos personagens e discutir as ideias nos ensaios, calmamente e gentilmente, em vez de no set ou logo no começo das gravações. Isso nos permitiu escrever e reagir enquanto os personagens estavam juntos em cena ou à medida que as coisas ocorriam em nossas vidas. Foi também um grande desafio. Parecia que estávamos em uma maratona e que não havia descanso. Éramos um time pequeno, maravilhoso, mas o tempo todo ocupados. E estávamos sempre um pouco incertos de que dirigíamos uma história a partir da feitura dele mesmo. Mas, no geral, me sinto muito privilegiada de ter tido a chance de trabalhar dessa maneira e tentar algo que está fora dos modelos dos filmes que são feitos atualmente.

Como foi trabalhar com atores não profissionais? Você acha que isso aprimorou o filme?
Bem, eu acredito que cada um do elenco aprimorou o filme. Eu amei. Senti que estávamos no trabalho juntos e, embora várias vezes tenha sido muito difícil para eles e para mim, eu realmente senti que trouxeram uma única e atenuada qualidade nas performances. Também vi, como diretora, que nós conseguimos trabalhar da maneira que precisávamos, em vez de ser guiada por aquilo que as pessoas “usualmente” fazem.

Com informações de Mateus Vidigal

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