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Estado de Minas

Autor e diretor de 'Felizes para sempre?' comentam cena de Paolla Oliveira

Equipe lamenta que atenção do público tenha ficado mais nos atributos da atriz do que na história contada


postado em 02/02/2015 14:03 / atualizado em 02/02/2015 16:23

(foto: Arte/Estado de Minas)
(foto: Arte/Estado de Minas)
Poupança, traseiro, nádegas, glúteos, buzanfa... bunda, por fim. Uma palavrinha com duas sílabas e cinco letras, dita por muitos de boca cheia, por outros, de uma maneira um tanto envergonhada. Pois a paixão nacional, para não fugir de seu maior clichê, voltou à carga de forma, digamos, incendiária.

A minissérie 'Felizes para sempre?', aposta da Rede Globo para este início de ano, estreou na segunda passada cheia de credenciais. Foi inspirada em uma série que marcou época ('Quem ama não mata', 1982). Foi realizada pela produtora de cinema mais badalada do país (a O2, de Fernando Meirelles, que assina a direção geral).

Ambientada em Brasília, traz à tona um tema que está na ordem do dia: financiamento de campanhas eleitorais em troca de obras do Estado que acaba gerando investigação da Polícia Federal. Isso sem falar de questões universais, pois são os relacionamentos amorosos o mote da história criada por Euclydes Marinho. Adultério, violência contra a mulher, paternidade, assassinato, está tudo lá.

Mas, no fim das contas, o que ficou foi a bunda. Uma única cena, de costas, com o derrière da atriz Paolla Oliveira, uma garota de programa que faz uma personagem secundária, “quebrou” a internet, para utilizar um termo associado a outra famosa, que fez o mesmo, só que em alcance mundial.

Em novembro passado, a americana Kim Kardashian e seu traseiro descomunal foram registrados por uma revista equilibrando (lá mesmo) uma taça de champanhe. Bastou para a “quebra” planetária da rede.

Paolla Oliveira, num passado recente bastante criticada pela falta de apelo como protagonista de folhetins globais, virou 'Felizes para sempre?' do avesso.

Nesta noite, quando a série volta à tela da Globo para sua última semana, um bom quinhão de telespectadores vai esperar por novas cenas sensuais da garota de programa Danny Bond. E esta etapa da trama reserva para a moça um romance homossexual.

Com a palavra, o criador da personagem, Euclydes Marinho: “Achei curioso (o alcance da repercussão), já que, como brasileiros, devíamos estar acostumados, num país que tem carnaval todos os anos”. Ainda que se orgulhe do sucesso da produção – “Não posso me queixar do sucesso da Paolla e seus belos atributos físicos. É sinal de que as pessoas estão assistindo” –, ele esperava mais do público – “É um pouco frustrante este ser o maior atrativo, pelo menos no mundinho das redes sociais”.

Já o diretor da cena, o cineasta Fernando Meirelles, vai além: “A imagem da Paolla se afastando em direção à janela do hotel entrou na série para que o Cláudio, personagem de Enrique Diaz, pudesse fazer uma piada cafajeste: ‘Linda a vista’ e depois ficar de quatro aos pés dela. Mas, se eu soubesse que aquela imagem, que dura menos que três segundos, teria a repercussão que teve, teria cortado da montagem. Nenhum moralismo nisso, é que me incomoda ver um trabalho de construção de personagem tão benfeito pela Paolla ser quase ofuscado por essa bobagem”.

Marinho nunca esperou que o paralelo da série com a vida real (Operação Lava-Jato) captasse a atenção do público. “Já sei que o público de minissérie não dá muita bola para críticas à realidade. Em 2012, escrevi algo muito mais contundente – a série 'O brado retumbante', sobre um político sem relevância que assume a presidência do país depois que o Presidente e seu vice morrem num acidente aéreo – que passou meio despercebido. Ali, só aparecia a bunda do presidente (Domingos Montagner)”, comenta, bem-humorado.

Meirelles, por sua vez, dá um conselho aos espectadores, nessa reta final da minissérie. “Recomendo olhar para os olhos da Paolla, para entenderem a atriz que ela é. Com o Cláudio, seu olhar diz uma coisa, ao olhar para a Marília (Maria Fernanda Cândido), tudo muda, sua postura corporal se altera e aparece o ‘Ricardão’, como brincávamos. Tudo vindo de dentro, naturalmente. Isso é uma atriz.”

‘Bundólogo’, Ziraldo critica curvas da atriz

Não há como tratar do tema sem humor. Que o diga o mais conhecido “bundólogo” brasileiro, o cartunista Ziraldo. “Aquela bunda não é para especialista. É um bundão. Bunda esteticamente bonita não é aquela; a da Paolla é tesuda.”

Na lista dele, que acredita já ter desenhado uns dois mil traseiros femininos, Brigitte Bardot ocupa lugar de destaque, bem como Enoli Lara, que entrou para a história como a primeira mulher a desfilar nua na Sapucaí. Isso num carnaval de quarto de século atrás.

O tema é tão caro a Ziraldo que até nome de revista ganhou. Lançada em 1999, a 'Bundas' tinha no slogan “Quem coloca a bunda em 'Caras' não coloca a cara na 'Bundas'” sua carta de intenções.

Crítica, irônica e independente, não durou mais do que um ano e meio. “Como o brasileiro adora uma bunda, achei que ia ser fácil. Mas não consegui nenhum anúncio”, relembra.

Até aqueles que estão longe da devoção de Ziraldo não se detêm diante do traseiro. Rodrigo Pederneiras já tinha 15 anos como coreógrafo do Grupo Corpo quando começou a pensar numa maneira de fazer uma dança brasileira.

“Naquela época, você escutava muito falar sobre dança brasileira, mas tudo o que via era uma dança trabalhada com música clássica com técnicas importadas”, diz Pederneiras.

Analisando as manifestações populares e religiosas do país, o coreógrafo percebeu que toda a movimentação partia da bacia. “O que significava que o brasileiro é um povo extremamente sensual.” Foi a partir do espetáculo 21 (1992) que Pederneiras incluiu o requebrado que se tornou marca da companhia mineira. Não houve uma montagem, desde então, que não trouxesse os movimentos característicos.

“Além de tudo, eu vivo num meio em que todo mundo faz muito exercício. Então, todos têm uma bunda linda. Trabalhamos com dezenas de compositores. Um deles, durante uma estreia, depois dos agradecimentos comigo em cima do palco, foi para trás, enquanto os bailarinos foram para a frente. Quando eles se abaixaram para agradecer, o compositor virou para mim e disse: ‘Que bundas são essas?!’”, ri hoje Pederneiras.

E ela é onipresente, como bem se lembra o antropólogo e artista visual Francilins Castilho Leal. “O mistério guardado em suas profundezas seria menos enigmático se não fosse sustentado por lindas pernas torneadas, assim como os pés de sambista, que traçam o majestoso caminho de um bumbum pelo mundo. Man Ray e suas bundinhas, somadas à opulência dos corpos africanos fotografada por Leni Riefensthal e potencializadas pela abundância que eclode na obra de Jan Saudek fazem o mundo da arte mais gozoso.”

Gingado

Na literatura
Cinco anos após a morte de Carlos Drummond de Andrade foi lançado 'O amor natural' (1992), que reúne sua obra érotica, então inédita. Sem nenhum traço da melancolia que marcou sua obra, Drummond dedicou quatro poemas ao traseiro feminino: “Coxas bundas coxas”; “A bunda, que engraçada”; “Bundamel, bundalis, bundacor, bundamor”; e “No mármore da tua bunda”.

No cinema
O cinema brasileiro fez vários bumbuns célebres, mas nenhum deles supera o de Paula Braun. Você pode até não se lembrar da atriz, mas se assistiu à comédia de humor negro 'O cheiro do ralo' (2006), de Heitor Dhalia, jamais vai esquecer da imagem que abre o longa e que enlouquece o personagem de Selton Mello. Depois do filme, a atriz ganhou o rótulo de “a bunda do cinema nacional”

Na música
Houve uma época em que a hoje balzaquiana axé music ganhou um subgênero: Bunda music foi o termo encontrado para determinar o que faziam É o Tchan! e congêneres. A bunda, aliás, nunca sofreu preconceito. Foi inspiração também para o rock ('O chiclete', do Ultraje a Rigor, aquele do refrão “bun bun bundão”); o funk (muito antes da Valesca, o gaúcho Edu K, precursor do funk carioca, cantava 'Popozuda rock’n’roll'); e a música popular (Rita Lee fez sua crítica na canção 'Pagu', com os versos “Nem toda feiticeira é corcunda/Nem toda brasileira é bunda”)

Cineastas reunidos na Mostra de Tiradentes comentam a polêmica

"Todo mundo tem bunda, pelo amor de Deus!"

O Estado de Minas ouviu profissionais do audiovisual reunidos na 18ª Mostra de Tiradentes, que terminou nesse sábado, sobre a explosão de interesse em torno da cena de Paolla Oliveira na minissérie Felizes para sempre?
Veja o que eles disseram:

FELIPE BARBOSA, diretor de 'Casa grande'
“Tento ficar longe disso. Tento evitar Facebook, ler jornal, cada vez  estou me excluindo desse mundo da mídia, porque não faz bem para o meu processo criativo. Já fui muito ligado ao jornalismo, à mídia, mas hoje em dia estou tentando me afastar, porque consume muito tempo do meu potencial criativo e gera muita revolta.

Vi a polêmica muito por alto. É muito baixo isso. Você deixar de falar da obra para falar de uma bunda. Todo mundo tem bunda, pelo amor de Deus!”.

ALEXANDRE CIOLETTI, ATOR DO FILME 'Teobaldo morto, Romeu exilado'
“Acho uma pena, porque são formadores de opinião. Esse é o grande problema, poderiam destacar coisas mais importantes. Acho que tem que conseguir outros mecanismos de poder levar o que é bacana ao público, e não a bunda da Paolla Oliveira. É complicado, mas é o que a gente vive hoje.

A gente vive em um mundo extremamente comercial, então as pessoas querem o tempo todo vender. A demanda hoje em dia infelizmente passa a ser isso. Acho que é um ciclo vicioso, as pessoas vão comprando, outros vão vendendo. Acho que o artista tem que cumprir a função de estar sempre nadando contra essa maré, de estar levando para o público o que realmente merece, que é a informação, o questionamento. É uma pena.

Às vezes, o próprio artista não sabe o que virá, não tem culpa. Na verdade, a gente passa a ser um fantoche dessa mídia que coloca o que quer, fala o que quer. É isso”.

RICARDO TARGINO, cineasta e ativista
“A primeira coisa que a gente tem de entender é que houve uma abertura. As redes sociais universalizaram o acesso e tem ali uma disputa simbólica. O Brasil não é para amadores, somos uma sociedade extremamente conservadora, patrimonialista, machista, racista, homofóbica e por aí vai.

Ao mesmo tempo que somos essa sociedade, somos um país que há 12 anos vive um processo de chamar atenção do mundo inteiro, porque fazemos uma das maiores mobilizações sociais que se tem notícia na história democrática.

Evidentemente tudo isso acontece na base da sociedade brasileira, promove choques culturais. Acho que a sociedade brasileira esta vivendo uma série de choques culturais, próprios do processo civilizatório que ela soberanamente vive.
Não acho que a bunda da Paolla seja algo ruim. Acho que é importante estar em evidência, porque assim nos reconhecemos, vemos as limitações e mutuamente nos transformamos. É uma ilusão achar que há apenas o aspecto ruim.

É obvio, majoritariamente, em uma sociedade com fluxos de comunciacao super-restritos como é essa, precisamos ainda democratizar os fluxos da comunicação, o acesso à cultura e melhorar o nível do debate crítico na sociedade.
É por isso que confio tanto no papel que a cultura pode desempenhar. Dizem que o Brasil precisa fazer um ajuste fiscal, mesmo em desacordo, eu sigo apostando nesse período que se abre agora, porque tenho certeza que será feito um ajuste cultural.

Há a determinação das forças vivas da cultura brasileira de transformar esses choques em um avanço civilizado.
As redes têm esse poder. Refletem exatamente como somos e o que somos.  Mas acho que esses embates são saudáveis. Igual à crise da água que nós vivemos agora. Sei que não é uma crise hídrica, é cultural. Lógico que a água é parte de uma crise maior. Da mesma forma que a bunda da Paolla não é só a bunda da Paolla, é uma ferida de uma sociedade que tem que avançar culturalmente”

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