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Correio Braziliense

Francis Hime lança álbum síntese de sua obra

Disco passeia por diversos ritmos, flerta com o erudito e com o popular e traz parceria inédita com Vinicius


postado em 04/02/2015 10:16

O músico Francis Hime, autor de 'Navega ilumina', primeiro disco de inéditas desde 'O tempo das palavras' (2009)
O músico Francis Hime, autor de 'Navega ilumina', primeiro disco de inéditas desde 'O tempo das palavras' (2009)
"Verdadeiro samba do crioulo doido”, diria Stanislaw Ponte Preta, autor da paródia que ironizava a obrigatoriedade de os sambas-enredo retratarem apenas fatos históricos, ao se deparar com o repertório de 'Navega ilumina', o novo disco de inéditas de Francis Hime desde o duplo 'O tempo das palavras', de 2009.

Com o objetivo de traçar um painel de sua obra, que vai do clássico ao popular, há dois anos o cantor, compositor e pianista carioca começou a montar o quebra-cabeça para harmonizar as 12 composições do projeto, viabilizado pelo Selo Sesc, de São Paulo.

O samba-enredo que batiza o disco, segundo Francis, foi o último a entrar no repertório, que nada mais é do que reflexo da diversidade musical brasileira. “É um privilégio para o compositor viver em um país de uma riqueza musical tão exuberante”, confessa já no encarte do CD, ao admitir que a presença de expressões musicais tão díspares, criativas e renovadas é um incentivo e estímulo para o músico criar sempre mais e mais.

Da seresta ('Amorosa') à fantasia para violino e orquestra ('Isabel'), passando pela canção, modinha, batuque e samba de todos os tipos, o compositor exercita a reconhecida facilidade em transitar entre o popular e o erudito, voltando a assinar música e letra ('Ilusão' e 'Mistério'), paralelamente às parcerias que não param de se renovar.

Que o diga 'Sessão da tarde', que marca a estreia do pai coruja com a filha Joana Hime. Ou 'Breu graal', em que Francis Hime volta a cruzar com o talento de Thiago Amud, com o qual estreou parceria em 'Doentia', de 2012, feita a seis mãos , ao lado de Guinga.

A crescente dobradinha com a mulher, Olivia Hime ('Amorosa', 'Canção noturna' e 'Canção apaixonada'), também está presente em 'Navega ilumina'. Assim como o trabalho com Geraldo Carneiro, com quem assina o samba-enredo que batiza o disco, parceiro mais constante depois de Chico Buarque, com quem fez clássicos como 'Atrás da porta', 'Trocando em miúdos', 'Meu caro amigo', 'Pivete' e 'Vai passar'.

A surpresa do novo disco do artista carioca fica por conta de 'Maria da Luz', o poema de Vinicius de Moraes que Francis encontrou no baú (e musicou), escrito na década de 1970 para o balé 'Polichinelo', do cineasta francês Jean Gabriel Albicocco, que acabou não realizado.

No papel encardido pelo tempo, o Poetinha recomendava que o poema fosse musicado pelo antigo parceiro, com quem fez pérolas como 'Sem mais adeus', 'Anoiteceu', 'A dor a mais' e 'Tereza sabe sambar'. Foi a partir da década de 1980, quando começou a trabalhar com a música de concerto, que Francis Hime, de 75 anos (50 dos quais dedicados à composição), diz ter percebido que não há distinção entre o erudito e o popular.

“Vi que a barreira existente, na verdade, era muito artificial”, justifica Francis, salientando que a diversidade da MPB contribui para o compositor não se ater a barreiras.

“No início, senti certa resistência de ambos os lados”, acrescenta, admitindo a existência de preconceito tanto no que diz respeito à música popular quando à erudita. Na trilha desbravada por mestres como Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim e Radamés Gnatalli, Francis Hime lembra que o que caracteriza a música de concerto é o desenvolvimento, pouco praticado na música popular.

Considerado pelo pesquisador Zuza Homem de Mello como um dos compositores harmônicos por excelência da canção brasileira, ao lado de Tom Jobim, Edu Lobo e Guinga, entre outros, Francis diz que, para ele, a harmonia é realmente a base de tudo.

“Sinto o desenvolvimento da melodia muito em função da harmonia”, explica o compositor, lembrando que o instrumento (o piano, no caso dele) nem sempre está presente no ato da criação.

“Hoje componho caminhando na Lagoa Rodrigo de Freitas, por exemplo. Outro dia, fiz um samba tomando sauna.” “A melodia vem do aperfeiçoamento, do burilamento”, lembra, ressaltando que o piano colaborou para ele atingir tal estágio.

“Chego a ver imagens das notas musicais, que são de certa forma ligadas no piano”, confessa Francis Hime, que, não por acaso, começou a estudar piano aos 6 anos.

Três perguntas para... Zuza Homem de Mello

No que Francis Hime se distingue de companheiros musicais como Tom Jobim, Carlos Lyra, Edu Lobo, Dori Caymmi, Marcos Valle, Ivan Lins e Guinga, entre outros, que você classifica como compositores harmônicos?

A cabeça criativa de todos eles funciona praticamente da mesma maneira. Concebem uma música a partir de uma célula que nasce meio a esmo e é desenvolvida com o caminho harmônico por meio do talento e da técnica. Por isso, ao contrário, Francis não se diferencia deles. Todos são excelentes compositores harmônicos com uma obra respeitável. Essa é a obra que dignifica a música popular brasileira, a que é admirada no mundo.

Pianista, arranjador, compositor (erudito e popular), cantor, letrista... Enfim, em que área Francis mais se sobressai? Por quê?
Como no time de compositores harmônicos, a composição é seu forte. Possivelmente porque tem mais experiência como compositor de canções. É onde Francis se sobressai. Não faço distinção entre música popular e clássica, expressão que prefiro em lugar do pretensioso e inadequado erudito. A distinção deve ser entre tema instrumental e canção.

Qual parceiro, em sua opinião, melhor se insere no reconhecido universo melódico do pianista-compositor?

Chico Buarque, com quem tem maior número de parcerias. Seu brilhante novo disco revela que Olivia (Hime) soube criar, em 'Amorosa' e 'Canção apaixonada', duas obras-primas, letras que atingem o ideal de uma canção, quando os versos e a melodia ficam amarrados como um conjunto indivisível.

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