Jornal Correio Braziliense

Diversão e Arte

Anelis Assumpção critica a falta de espaços para artistas independentes

Filha de Itamar Assumpção, ícone da Vanguarda Paulista, acredita que não há incentivos do governo



Qual a sua percepção sobre aquele movimento? Qual diria ser a dimensão das influências na sua produção musical atual?

Não se tinha muita noção da Vanguarda quando ela estava sendo executada. Como todo momento ou expressão de força de significância, não era um teste, era simplesmente o presente. Não tenho lembranças do meu pai ou de alguém da época de dizer que eram vanguardistas. Ninguém tinha colocado dentro da música popular a expressão de vanguarda no Brasil. Eu me lembro de uma forma afetiva, disso nunca ser pro meu pai ;olha, agora sou vanguardista, e agora vou fazer música assim ou assado;. Ele sempre continou fazendo a música dele, da forma como achava que tinha acontecer. Vejo a dimensão do movimento para depois.

[SAIBAMAIS]Agora, embora ainda seja pouco consumido e valorizado, ele está sendo ainda um pouco dimensionado. A história da vanguarda abriu uma porta sem querer na cabeça das pessoas para assimilar o que lhe parece diferente, o que chega de outra forma. As pessoas falavam que o Itamar fazia uma música interessante intelectualmente, mas ele se sentia tolido. Na cabeça dele, ele era um compositor popular. Não vejo nenhuma composição do meu pai como de difícil acesso. Inteligente, talvez, seja a palavra. Sem querer, abriu-se um porta para que toda uma geração pudesse experimentar expressões tanto musicais, quanto poéticas e literais. Hoje, não tem ninguém fazendo uma coisa que seja totalmente previsível ; da estranheza, do diferente.

Acho que a principal dimensão da vanguarda talvez tenha sido isso, abrir uma fenda aí. A musica popular brasileira sempre teve elementos vanguardistas, elementos que diferenciam um formato de canção, a tropicália já havia feito isso, tom zé também já tinha feito, fora da fórmula. O Arrigo e o meu pai talvez tenham sido as pessoas mais significativas.

[VIDEO1]

Há muita música sendo produzida de forma independente hoje, mas o consumo, o fomento e incentivo a essa cena independente ainda pode ser considerado como restrito. Qual o seu pensamento a respeito desse tópico?
Discordo um pouco de você. Não acho que seja mais fácil, acho que democratizou, mas continua sendo bastante difícil e muito caro. O meu pai era uma pessoa que fazia exclusivamente isso, não trabalhava com mais nada. Ele tinha que fazer show, juntar dinheiro, pagar contas, e juntar dinheiro para fazer mais um disco. Continua igual. Ou o artista independente tem nesse processo de democratização bate com as leis de incentivo, editais, enfim. Mas tirando isso, continua bastante difícil, mas o consumo por outro lado, a forma de consumir, do artista independente chegar e formar um público é mais posiitivo. Antes, esses artistas, só tinham basicamente a rádio e o jornal impresso.

Hoje, com um clique, você dá um boost no Facebook e todo mundo vê. A internet tem esse mistério que é uma vitrine ao vivo. Em 10 anos que estou fazendo música, já tive oportunidade de me apresentar em muitos lugares. Meu pai, em 10 anos de carreira, não tinha conseguido chegar em tantos lugares. Temos uma facilidade, hoje, para produzir, mas continua sendo bastante caro. O que temos é um aumento; Tem muita gente fazendo música e colocando para jogo, para ser consumido, o que gera uma competição, numa arte que não deveria ter competição. Tudo mudou. Não existe espaço para subversão. A gente está num circulo muito fechado.

Cada um deve encontrar sua fórmula e tentar não ficar iludido com o que a virtualidade apresenta para gente como sucesso. A forma que essa música é consumida também é um pouco mais efêmera: baixa, ouve, cansa, apaga, baixa, ouve, cansa, apaga.

No que diz respeito aos espaços de música para a produção independente? Existe espaço para essa música não mainstream?
Existe muito pouco. Aqui em São Paulo existe o Sesc ; o lugar em que todos os artistas de conseguem se apresentar. A gente não pode depender disso. Em cidades que não tem o Sesc, o poder público tem que agir de alguma forma. Não tem muito espaço mesmo. Infelizmente, é muita gente, muito artistas para pouco espaço. Sinto falta de um espaço para ficar na faixa do meio. Aquele formato de mercado está ruindo, precisa o próprio artista perceber isso, se unir, entender o mercado, ver o que está acontecendo, ver mais pelo coletivo, a função social disso. O quanto a gente ficar nesse lugar de sempre ficar quietinha, não vamos conseguir nada. É um momento difícil da cena independente, uma fase delicada, mas com produções fantásticas.