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Estado de Minas

Documentário acompanha turnê comemorativa dos Los Hermanos

O material foi dirigido pela atriz Maria Ribeiro, principal fã do grupo


postado em 19/05/2015 14:08

Em filme
Em filme "claramente amoroso", a documentarista, escritora e atriz abre às janelas para a intimidade do grupo: destaque para show em Brasília (foto: Copacabana Filmes/Divulgação)

Rio de Janeiro, final da década de 1980. No rádio, Maria Ribeiro ouve Tempo perdido, do Legião Urbana. Os versos de Renato Russo laçaram a alma da jovem carioca. Maria, assim como o compositor brasiliense, sempre gostou de refletir sobre o tempo, sobre o peso das horas em seus dias. Alguns anos se passaram e, às voltas com as questões existenciais comuns a estudantes universitários, Ribeiro depara-se com o show de um animado quarteto nos corredores da PUC-RJ, onde estudava jornalismo.

Eram Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba fazendo um som que misturava ska, hardcore, indie rock e música brasileira. Nascia, ali, a relação entre Maria e o Los Hermanos, que ganhou um novo capítulo na última quinta-feira, quando entrou em cartaz o documentário Los hermanos — Esse é só o começo do fim da nossa vida.

Com 85 minutos de duração, o filme está em cartaz em 10 cidades do país, incluindo Brasília. A cidade ganhou importante projeção nas filmagens. Maria explica as razões: “É a capital do rock e o Los Hermanos herdou essa coisa catártica do Legião Urbana. No show de despedida da cidade, tocaram Tempo perdido. Me emocionei. Fiz questão de dedicar tempo relevante à Brasília porque é um dos momentos mais bonitos do filme. Aquele céu de fundo quando eles vão a Esplanada é muito simbólico”, relembra.


“A Legião e o LH foram as duas bandas que mais me marcaram, cujos discos me iluminam, me ajudam em diversos momentos da vida. Uma no início da minha adolescência e a outra, da vida adulta”, continua.

O longa terá exibições na quinta, no sábado e no domingo às 21h. “É uma maneira de me manter em cartaz com salas cheias sem competir com os Os Vingadores 2 e outros blockbusters. Ele tem a característica de filme-evento, as pessoas cantam junto no cinema. Tem sido incrível”, explica a documentarista, escritora e apresentadora.

Gratidão


Maria Ribeiro também assina o documentário Domingos, sobre a vida e obra de Domingos de Oliveira. Os filmes se assemelham no propósito: demonstrar gratidão. Desde que ouviu a banda pela primeira vez, a carioca compareceu em todos os shows possíveis. É uma “hermaníaca” assumida, como se definem alguns fãs.

Los hermanos — Esse é só o começo do fim da nossa vida foi gravado numa turnê do grupo em 2012, cinco anos depois de anunciarem pausa por tempo indeterminado. Não é um documentário no estilo biográfico, com depoimentos e entrevistas. A carioca baseou-se nos preceitos do cinema direto seguindo valiosos ensinamentos de João Moreira Salles, com quem teve aulas nos tempos de PUC-RJ. Maria não quis ser invasiva e faz-se quase invisível nas gravações.

Na película, as imagens se revezam entre as calorosas apresentações dos cariocas e registros íntimos, em que, por vezes, os retratos dos bastidores dão lugar à visões oníricas. É quando Camelo ou Amarante, que tem apreço pela sétima arte, gravam alguns planos-sequência focados em detalhes pessoais, como os pés um do outro. “Conforme ficaram mais à vontade com minha presença, eles pegaram a câmera e se integraram à equipe de filmagem”, conta Maria.

O longa capta momentos de intimidade da banda(foto: Copacabana Filmes/Divulgação)
O longa capta momentos de intimidade da banda (foto: Copacabana Filmes/Divulgação)

Em um dado momento, é possível imergir em momentos estritamente pessoais. Quando Camelo e Mallu, à época sua namorada, trocam carinhos entre um show e outro. Ou quando Amarante emociona-se ao dedicar O velho e o moço ao pai e nota que o patriarca está presente no show em Brasília. A música — ele havia dito anos antes — contava sobre a relação entre eles.

Maria garante que nada foi planejado. “Tudo o que apresentamos aconteceu sem roteiro. Não combinamos nada. Ocasiões que ponderava serem íntimas demais sequer foram gravadas. Em nenhum momento, abusei da confiança e do lugar que eles me permitiram entrar. Fiz um documentário sem perguntas polêmicas, um cinema direto”, diz.

Outro ponto alto da película é dar protagonismo a Bruno Medina e a Rodrigo Barba, dois integrantes do grupo que costumavam ser relegados a segundo plano. No documentário, ganham igual projeção. O primeiro, por admitir ser o responsável pela escolha dos setlists. O segundo, pela declaração corajosa, ao explicar o fim do grupo por “medo de cair na mesmice, de fazer discos iguais aos anteriores”. Como na canção que nome dá nome a película (Conversa de botas batidas, do disco Ventura, de 2003), era só o começo do fim.

Duas perguntas // Maria Ribeiro

(foto: Caroline Bittencourt/Divulgação)
(foto: Caroline Bittencourt/Divulgação)

No documentário, Camelo e Amarante demonstram sintonia e intimidade. Isso derruba a imagem de que a banda tenha acabado por conflito de egos. Isso foi intencional?
Na verdade, fiz tudo no escuro. Não sabia qual era a relação deles. Queria fazer um filme que acompanhasse a turnê e que nos fizesse sentir parte daquilo, interferindo o mínimo possível. Os dois são pessoas muito íntegras e se houvesse alguma briga, não voltariam a se reunir por questões comerciais. Eles tiveram muito prazer em tocar juntos e mostrar um ao outro o que faziam em carreira solo. No filme, há uma cena em que Amarante mostra Tardei para Camelo, que viria a compor o disco Cavalo, e eles têm uma troca genuína de informações.

Pelo fato de ter tanto envolvimento pessoal com o Los Hermanos, considera o filme metalinguístico?
Não sei se metalinguístico. Ele não tem a pretensão de ser um tratado sobre o Los Hermanos. Para quem nunca ouviu falar da banda, talvez ele soe um tanto estranho, porque eu não quis ser imparcial. Não é genérico, é um filme claramente amoroso. Penso sempre em fazer os filmes que eu gostaria de ver. Nas poucas vezes em que apareço, apareço embevecida. É uma relação de fã, honesta. Quando se faz um documentário sobre qualquer coisa, às vezes ela fala mais de você do que do próprio documento. Eu coloquei o título justamente por isso. Está todo mundo — eu e eles — indo para a casa dos 40, idade que marca a segunda metade da vida, a despedida da juventude. É um filme sobre até que ponto conseguimos manter laços com o seu grupo de adolescência, pessoas que conheceu os 20 anos.

CRÍTICA

Los hermanos - Esse é só o começo do fim da nossa vida ####

Num corredor nos bastidores do festival Abril Pro Rock, Rodrigo Amarante e Marcelo Camelo demonstram certo nervosismo. "É agora?", pergunta Camelo. "É agora", responde o colega de banda. Minutos depois, entram no palco e cantam para 15 mil fãs fervorosos.

Como de praxe, o público os acompanha do início ao fim de cada canção. Num instante, a apresentação ganha ares de celebração religiosa. É desse equilíbrio entre registros por trás dos palcos e o frenesi dos fãs em cinco capitais (na qual se inclui Brasília) que mora o êxito de Los Hermanos - Esse é só o começo do fim da nossa vida, de Maria Ribeiro.

(foto: Copacabana Filmes/Divulgação)
(foto: Copacabana Filmes/Divulgação)

Nos intervalos entre um show e outro, no estilo roadie movie, há espaço para confissões, novas composições, partidas de videogame e momentos de intimidade. Maria apresenta um olhar afetuoso e discreto do adeus aos palcos da banda. Como se fosse mais uma hermana, tem olhar delicado e se faz invisível nas gravações, calcada no cinema direto.

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