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Estado de Minas

"Vidas secas" em quadrinhos preserva ideia do autor do clássico

Livro de Graciliano Ramos fala de uma década dramática para o Brasil


postado em 19/08/2015 07:30 / atualizado em 18/08/2015 18:18

(foto: Galera/Reprodução)
(foto: Galera/Reprodução)
Lançado originalmente em 1938, Vidas secas, de Graciliano Ramos, se concentra na saga de Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho e a cachorra Baleia, que andam errantes e sem destino, lutando para sobreviver em meio à aridez do sertão e da caatinga. Mais que isso, a obra-prima do autor alagoano é uma radiografia da década de 1930.

O clássico de Graciliano volta às prateleiras em 2015. Dessa vez, em uma versão em quadrinhos com os traços do premiado ilustrador gaúcho Eloar Guazzelli. Não é a primeira vez que um best-seller ganha o traço do quadrinista. Em toda a carreira, o trabalho do artista gaúcho tem aproximação com a literatura, de O pagador de promessas, de Dias Gomes (Agir, 2008); a Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (Biblioteca Azul, 2014).

“São autores que admiro profundamente e que estão na primeira linha mundial. Como lado negativo, há o peso da responsabilidade extrema. O lado bom é ter esse desafio como estímulo”, comenta Guazzelli. “Eu sou público, por isso, penso muito nele. Antes de ser um quadrinista profissional, sou leitor e admirador dessa linguagem desde que fui alfabetizado. Procuro levar algo que provoque os leitores da mesma maneira como fui provocado na infância”, explica.

Para dar contornos ainda mais dramáticos à história de Graciliano Ramos, Guazzelli lança mão de tons escuros nos desenhos. O expressionismo foi a opção estética escolhida pelo artista, que se vale de uma técnica conhecida como sanguínea, como se as páginas pudessem expressar a dor da família. “Propus que era fundamental uma narrativa crua. Para mim, seria intolerável fazer um livro ‘coloridinho’ ou que desse um tratamento distante daquele sofrimento”, comenta.

Vidas Secas

Por Eloar Guazzelli e Arnaldo Branco. Record, 104 páginas. Preço médio: R$ 49.

 

Entrevista // Eloar Guazzelli

Em algumas sentenças, como “Governo é governo” e “Apanhar do governo não é desfeita”, ditas pelo personagem Fabiano, você decidiu dar maior destaque, com tipografia em letras maiores. Pode nos dizer o por quê?
Eu não controlei todo o processo da tipografia. Estaria mais ligado ao roteiro, mas é para dar uma ênfase a visão do próprio Graciliano, porque é um retrato de setenta anos atrás. Meu pai conheceu Graciliano e fiquei feliz em poder trabalhar nesse livro. Eu vi isso no processo, e com certeza, existe uma conotação que lembra pessoas em uma passagem totalmente hostil, e naquele momento, uma das coisas que lhes eram hostis era também o governo. Essa população camponesa estava totalmente desamparada.

Considera a obra panfletária, politicamente?

Apesar dele fazer um recorte, em nenhum momento a obra é panfletária. Ele não mexe nos personagens, não cria fantasias. São pessoas abandonadas, conformadas, e sem engajamento político. Isso pode acontecer no futuro, não sei. Esse livro explica toda a conjuntura social da América Latina, quando uma parte desses camponeses parte para a luta armada. Mas ele não propõem isso. Graciliano faz uma radiografia perfeita do ponto de vista sociológico e antropológico. Fica claro que o governo está a serviço de senhores de terra, pessoas bem descritas como as que tiram proveito do povo. O que é assustador é o abandono. A terra é agressiva, e não há nada que os ampare. Eles são explorados pelo fazendeiro, a força policial garante o poder dessa estrutura, e a própria a estrutura burocrática também está extorquindo deles.

Quão difícil foi adaptar a obra-prima de Graciliano Ramos?
É uma obra-prima, mas difícil de fazer. É um clássico e eu espero que, em 70 anos, tenham havido muitas transformações no país e no continente, embora parte dessa estrutura ainda exista, e outra parte tenha se modernizado. Vidas Secas é um livro pré-capitalismno, um sistema de transição entre escravismo e a servidão conhecido por coronelismo. E parte disso se transformou com o modernização do país. É politico, mas noa panfletário. Não idealiza, não sai da posição de alguém que se conforma com a circunstância. O desenhista e o roteirista têm o privilégio de ler e reler várias vezes, li pelo menos quatro vezes o livro, e outras tantas o roteiro. É um livro denso, mas enxuto, preciso. Não tem uma palavra ali que não cumpra uma função perfeita. As pessoas tem gosto pessoal, não gostam de "textão", mas se quiser analisar objetivamente, é perfeito, tudo que se propõem ele cumpre.

Os tons pretos e vermelhos foram a escolha para transmitir o sofrimento dos personagens?
Sou diretor de arte para cinema de animação também, e aprendi que a escolha de determinada técnica entre em função da narrativa, diferente do artista plástico, que escolha de acordo com sua poética pessoal. Não basta ser bom ou ruim, eu preciso colocar meu conhecimento a partir da narrativa. Propus que era fundamental uma narrativa crua. Para mim, seria intolerável fazer um livro “coloridinho” ou que dessem um tratamento distante daquele sofrimento. Optei pelo expressionismo como opção estética. A técnica que usei se chama sanguínea, inclusive para retratar a paisagem. Aliás, é um livro sobre paisagem, e a família é uma paisagem que anda. O que mais impressiona é que eles vivem como há 10 mil anos, quando as pessoas ainda estavam à merce da natureza. Não é aquele eles não amem, simplesmente não há espaço para o amor. A sobrevivência vem primeiro. Vivemos, hoje – e ainda bem –, um artificialismo maravilhoso, que é amar as pessoas e levá-las conosco, e eles não tinham essa referência.

O cinema se tornou uma referência nessa obra?
Pensei como em uma adaptação para o cinema, usando uma fotografia em que, algumas vezes, elimino o rosto. Minha vontade era não colocar rostos, mas em alguns momentos era praticamente impossível. Onde a cena não exigia tanto, apaguei os rostos para mostrar que eles não são apenas um, são milhões, e que o valor social deles era nulo. Isso é um das vantagens e um dos sentidos de fazer uma adaptação para quadrinhos. É preciso pensar o que se pode fazer de novo, de forte, que venha a acrescentar. O quadrinho te permite ousadias visuais e arranjos que no cinema seriam mais complicados.

Qual sua análise do mercado de quadrinhos no Brasil?

No Brasil, sempre aconteceu o que se chama de latifúndio. O fato de se ter um Paulo Coelho não significa que todo mundo viva bem de literatura. Mas houve, sim, uma profissionalização de grandes e novos autores, pessoas que estavam esperando uma oportunidade, uma demanda. É um grande momento dos quadrinhos no país, e consigo articular as duas coisas.
Eventos que vem de fora, como a Comic Con, e as feiras de originais, nos mostram que existe uma cena. Essa cena está sujeita a crise, devido a fragilidade da questão econômica, mas há uma cena, inegavelmente, que é muito forte, e articula elementos novos, como internet. Existe um circuito que está transcendendo a questão do gueto, de curtir heróis. Grandes temas estão sendo trabalhados nos quadrinhos. As HQs americanas, por exemplo, estão muito à frente do cinema, e criam obras que vão muito além dos super-heróis.


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