Diversão e Arte

Em entrevista ao Correio, Criolo fala sobre educação e pobreza

Músico falou também sobre família e a violência no Brasil

Rebeca Oliveira
postado em 13/09/2015 07:30

Kleber Cavalcante Gomes nasceu em 1975. Passou a maior parte da infância como tantas outras crianças, no Grajaú, um dos distritos mais populosos da Zona Sul de São Paulo. Andava pela comunidade com liberdade e simplicidade, trajando bermuda e chinelo de dedo nos pés. Passava as tardes de domingo torcendo pelo Corinthians, o time do coração. Mas algo o destacava dos demais. Certamente, por influência da mãe, Dona Vilani, Kleber vislumbrava que a comunidade em que vivia, marcada pela violência, haveria de ser melhor no futuro. Queria, por força do destino, torná-la mais justa, como fazia a matriarca, uma empregada doméstica que lia intelectuais entre um expediente e o outro. Juntos, Kleber ; hoje conhecido nacionalmente como Criolo ; e Dona Vilani cresceram. Ela se tornou uma educadora pós-graduada em língua, literatura e semiótica. Ele, um dos cantores mais relevantes da moderna música brasileira. O sucesso do garoto de origem humilde do Grajaú aconteceu em 2011, com o lançamento do segundo disco, Nó na orelha. Embora cantasse os famosos versos que lamentavam a falta de amor na cinzenta São Paulo, Criolo teve no afeto materno o exemplo e a força motriz necessários para quebrar estereótipos. Inclusive os do hip-hop. Hoje, as músicas de discurso afiado transitam com elegância entre o estilo que o consagrou e o samba, MPB, soul e ritmos latinos. Característica evidenciada em Convoque seu buda, disco lançado no ano passado e que trouxe o rapper a Brasília na sexta-feira, quando apresentou a turnê do novo trabalho pela primeira vez na festa Art Flow. Apenas alguns dias após completar 40 anos, ele conversou com o Correio e demonstrou que mantém os dois pés fincados no chão, eliminando qualquer distância entre Criolo e Kleber Cavalcante Gomes.



O mundo foi bombardeado com a imagem daquela criança síria morta em uma praia na Turquia. Quando vê fotos como essa, e guardada as devidas proporções, lembra que, no Brasil, também vivemos nossa própria guerra civil?
Infelizmente e com muita tristeza, não há como se dizer que não. Vivemos a nossa guerra civil e isso vem desde o período colonial, desde quando as caravelas aportaram no Brasil e os que se dizem ;verdadeiros donos; desta terra aqui chegaram. Nossos irmãos da mãe África viveram esse processo, e aqui cresceram em nosso país, como se fossem uma mercadoria, enquanto escravos. A sociedade contemporânea tem passado por esse processo novamente. Tem sofrido cada vez mais com violência, com desigualdade social, com questões, como falta de planejamento, de não pensar em um futuro sólido.

A pobreza brasileira é invisível à maioria da população?
Certa vez, eu e alguns amigos do Grajaú estávamos conversando: bobagens, coisas sérias... E eles me contaram um episódio que me marcou bastante. Eles fizeram bonecos de papel machê em tamanho real, que representavam crianças. Eles colocaram nas escadarias e na Praça da Sé, em São Paulo. Esses bonecos representavam meninos de rua, com roupas simples, alguns simulando aquele jeitinho de criança dormir, mas no chão. Outros tinham o corpo encostado na parede.

E o que aconteceu?
As pessoas passavam e tiravam fotos, comentavam sobre o que estavam vendo. Elas reparavam nos bonecos que representavam os meninos de rua, mas, veja você, elas não reparavam mais nas verdadeiras crianças! É como se elas (as crianças) fizessem parte do cenário, como se elas fossem forçadas a aceitar essa realidade como algo natural. Essa performance sensibilizou muita gente e as pessoas começaram a perceber a presença dos menores.

A matéria completa está disponível , para assinantes. Para assinar, clique .

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação