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Estado de Minas

Ao Correio, Rita Lobo fala sobre gastronomia como expressão cultural

"Se a pessoa vai esperando uma profissão muito glamourosa, ela desiste, porque é um trabalho muito braçal", comentou em entrevista


postado em 25/10/2015 07:32 / atualizado em 23/10/2015 17:52

(foto: Editora Panelinha/Divulgação.)
(foto: Editora Panelinha/Divulgação.)

Rita Lobo é o tipo de profissional que se encaixa perfeitamente no conceito multimídia. Antes de se enveredar pelas caçarolas, a loira desfilou os olhos azuis e os cabelos dourados pelas passarelas nacionais e estrangeiras. Por hobby, decidiu fazer um curso de gastronomia nos Estados Unidos. A intenção? Aprender a se virar na cozinha. Com as panelas, ganhou mais que intimidade. Fez delas um estilo de vida. Hoje, comanda o site e canal no YouTube, o Panelinha — que, com mais de 1 milhão de acessos ao mês, virou um selo da editora Companhia das Letras, onde atua como editora.

Rita Lobo também escreve: é autora de livros que têm a comida como espinha dorsal. Vendeu mais de 100 mil cópias, algo raro no cenário brasileiro. Ainda é apresentadora do programa semanal Cozinha prática, do GNT. Para divulgar o último livro, homônimo ao programa e editado pela Senac São Paulo e pelo Panelinha, Rita Lobo veio a Brasília conversar com fãs, que encararam longas filas para conhecê-la. Cena que tem ficado cada vez mais comum em um país que, aos poucos, aprende a valorizar a gastronomia como expressão cultural e produto de entretenimento.

Basta observar a quantidade de programas sobre o universo gourmet nas telinhas para certificar-se de que ser chef, definitivamente, é a profissão do momento. Mas a apresentadora, adepta da “desgourmetização”, faz algumas ressalvas: “Se a pessoa vai esperando uma profissão muito glamourosa, ela desiste, porque é um trabalho muito braçal.”

Chef  na tevê
Acho positivo para todos, quem trabalha e quem consome. Quando me formei, salvo o Senac, quase não havia escolas de gastronomia, e não era reconhecido pelo MEC como curso superior. Se a pessoa vai esperando uma profissão muito glamourosa, ela desiste, porque é um trabalho muito braçal. Especialmente quando se está começando, cozinha não é fácil. Se pica muita cebola e batata. Lava-se muito chão. Você não vai chegar e cozinhar, de primeira. Mas acho bom que esse mercado esteja aquecido, porque assim temos mais opções, melhores restaurantes, mais chefs, mais bufês, melhores cantinas nas escolas. Quando mais bons cozinheiros temos, melhor — e cozinheiros que entendam a cozinha como a preparação de um alimento natural. Não dá para todo mundo ser chef de restaurante estrelado, mas dá para cuidar melhor de restaurantes mais populares, porque cozinha mais saudável é mais saborosa.

“Desgourmetiza”

É um chacoalhão, digamos assim. Trabalho e escrevo receitas há 20 anos. Comecei escrevendo para a Folha de S. Paulo em 1995, e as pessoas só conseguiam entender receita como algo gourmet. O trabalho que eu faço é o oposto a isso. É “vamos resolver o jantar de terça-feira?”. Aquele dia que se chega descabelada em casa, depois de um dia inteiro de trabalho, e ainda precisa resolver o jantar — para os filhos, para si mesmo, para o parceiro. É muito mais comum essa situação do que alguém que quer fazer uma lagosta igual ao que comeu no restaurante X ou Y em Paris. O desgourmetiza é uma provocação a essas pessoas que se interessaram por comida do fim de semana, ou seja, quem sabe fazer um risotinho, algo mais elaborado, mas não sabe fazer o básico. Um arroz soltinho, por exemplo, é mais útil no dia a dia do que um prato elaborado.

Modelo
Nem digo que foi uma grande profissão para mim. Eu só trabalhei três anos como modelo. Comecei aos 15 anos. Quando fiz 18, é que fui escolher a minha profissão. Por um aspecto, me influenciou porque, por viajar bastante, fui exposta a várias culturas gastronômicas, algo que colaborou muito na minha vida. Mas isso, hoje, no meu trabalho, é algo que acabo usando pouco. Cada vez mais, tenho o foco de prestar atenção ao que há de acessível no país, não só no sentido econômico. Todos os meus projetos tem uma coisa em comum: são receitas que funcionam, e elas funcionam não só porque são testadas, mas porque as pessoas conseguem encontrar todos os ingredientes. Claro, com um toque de glamour e apresentação que deixa a comida bonita e saborosa para os olhos. Não sofri esse preconceito de ser uma ex-modelo. Muita gente nem sabe que trabalhei na área, porque faz muito tempo, é algo muito distante da minha vida profissional e da realidade do meu público, que tem 20 anos, 30 anos. Muitos não me acompanharam desde esse início, e se surpreendem quando descobrem.

Em alta
Há cada vez mais pessoas interessadas em gastronomia, basta ver a quantidade de livros que são lançados, os programas novos de tevê que vêm crescendo e surgem diariamente. As pessoas me falam: “Tem tanto programa de culinária, não é?”, e eu não acho que tenha. Não havia nada, nenhum, e agora tem um pouquinho quando se compara com outros mercados, como os Estados Unidos, que tem canais só de culinária. Se, por um lado, temos mais gente interessada em cozinhar e um mercado editorial crescendo nesse sentido, por outro, tem gente absolutamente alienada achando que pode comer comida congelada todos os dias e que isso não vai destruir a saúde delas. Enquanto isso, os índices de obesidade no país vão crescendo loucamente. Saímos de um cenário que ainda existia desnutrição, para o extremo oposto. A população está ficando obesa, em parte, porque não está cozinhando. Por isso, é tão importante saber fazer arroz, feijão, galinha, carne seca, porque essa é a comida que garante que tenhamos uma vida mais saudável.

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