Diversão e Arte

Ao Correio, artistas e especialistas analisam o sexo em produções culturais

Temas como nudez, prazer, aids, transgêneros e novos arranjos são o cerne de diversos produtos artísticos

Renata Rios, Rebeca Oliveira
postado em 08/11/2015 07:30
Fernando Schlaepfer/I Hate FlashA nudez conceitual. Cenas explícitas de gozo e prazer. Filmes e livros impactantes. As múltiplas e novas maneiras de se relacionar e também de expor em plataformas digitais essa nova maneira de ver o mundo. Quando o assunto é sexualidade e cultura no século 21, inúmeros são os exemplos que vêm à tona. Mas ainda hoje o sexo provoca e instiga debates. Alguns casos recentes comprovam que, apesar da aparente abertura e liberdade de expressão, ainda há temas mantidos como tabu ou, em casos mais graves, alvos de discriminação e preconceito.

No último fim de semana, a cantora Bárbara Eugênia fez um manifesto em favor da naturalização da nudez. Em show realizado em São Paulo, ficou totalmente desnuda, carregando uma faixa com a indagação: ;Você tem medo de quê?; Ela explicou as razões para o gesto simbólico. ;É só um corpo, não tem nada demais. As pessoas se preocupam demais com a estética, não olham para dentro, estão muito desconectadas da essência;, afirmou.

A questão da nudez conceitual também permeia o trabalho do fotógrafo carioca Fernando Schlaepfer, criador do projeto 365 nus. Ao longo de um ano, ele vem publicando uma foto de nu artístico por dia nas redes sociais. Assim como os dois artistas quebraram, imageticamente, o silêncio que se cria sobre algo tão natural quanto ficar nu, outros preferem se pronunciar sobre questões mais polêmicas. Em vez de preferir o sigilo na luta pessoal contra a Aids, há quem se coloque na linha de frente ao expor que vivem com o vírus HIV. Foi o que fez o goiano radicado em Brasília Gabriel Estr;la, idealizador do projeto Boa sorte.

No quesito sexualidade e relacionamentos, muita coisa mudou. Conceitos milenares como a monogamia dividem espaços com arranjos modernos, como o poliamor, retratado em séries de tevê e livros. A internet aparece de forma crucial na forma em que os relacionamentos são levados. ;É uma divisória marcante e inimaginável. Há 30 anos, ninguém podia saber que a internet facilitaria o início, a continuidade e o fim de relacionamentos;, comenta Ailton Amélio da Silva, professor da USP de comunicação verbal e não-verbal e relacionamento amoroso.

Diversos filmes lançados ultimamente retratam a relação de seres humanos com a tecnologia de uma maneira que levanta questões a serem discutidas. Em Ela (Her), Spike Jonze explora a relação entre um homem e um sistema operacional. ;Claro que isso ainda está distante, mas pode vir a acontecer um dia. Atualmente, o que vemos são várias pessoas escolhendo relacionamentos virtuais por questões que podem envolver inseguranças, medo de rejeição, de julgamento e de fracasso;, comenta o professor.

Nudez, eterno tabu
Temas como nudez,  prazer, aids,  transgêneros e novos arranjos são o cerne de diversos produtos artísticos
Embora, em entrevistas, a cantora Bárbara Eugênia tenha afirmado não se sentir na obrigação de ser politizada, no último fim de semana ela tirou a roupa em prol da naturalização da nudez. A atitude rendeu comentários de apoio e ; como tudo que envolve nudez artística ; de repulsa ao gesto feito pela cantora e os músicos Tatá Aeroplano e Peri Pane.

;Por que o corpo é feio? Por que não podemos ser livres, felizes, e iguais? Somos todos iguais. A frase foi para trazer esse questionamento as pessoas;, desabafa. O fotógrafo Fernando Schlaepfer tem objetivo semelhante ao de Bárbara com o projeto 365 nus. Ele explica que o projeto é totalmente autoral. O desafio de clicar personagens em cenários inusitados começou em fevereiro.

Diferente dos ;nudes;, fotos íntimas compartilhadas em redes sociais, a nudez de Bárbara Eugênia e a retratada nas imagens de Schlaepfer tem um cunho artístico. Que se diferem, aliás, das imagens comerciais da revista Playboy, publicação que está com os dias contados, ao menos da forma como é conhecida nos Estados Unidos. Por lá, diante da concorrência com sites pornográficos, não haverá mais a veiculação de fotos de mulheres nuas.

O prazer

Definitivamente, o longa-metragem Love tem sido o mais polêmico de 2015. Não só pelas cenas de sexo explícito, mas por trazer minúcias pouco antes vistas no cinema comercial em relação ao ato sexual. A ousadia do diretor franco-argentino Gaspar Noé o levou a extremos, com cenas extravagantes filmadas em 3D.

Em menor ou maior intensidade que Love, cenas de sexo são marcantes no cinema. Geralmente, as que quebram estereótipos vêm acompanhada de controvérsias e debates acalorados por parte do público. Há quem as considere necessárias pela beleza plástica, e quem julgue como apelação para atrair audiência. Aconteceu com Azul é a cor mais quente, de Abdellatif Kechiche, que mostra a relação entre duas mulheres, e com Ninfomaníaca, de Lars Von Trier, pela alta dose de realismo das imagens.

Muito se discute até que ponto a temática das películas subverte padrões. Será o caso do filme baseado na vida da escritora e ex-prostituta Lola Benvenutti ; cujo verdadeiro nome é Gabriela Silva ; , ainda sem previsão de estreia. Escritora, Lola chamou a atenção por ser formada em letras e se prostituir por prazer. Autora de O prazer é todo nosso (Mosarte, 2014), Benvenutti foi apontada como a nova Bruna Surfistinha (pseudônimo de Raquel Pacheco, escritora e DJ, ex-prostituta e ex-atriz de filmes pornográficos).

Somando-se à obra de Lola, outros livros eróticos ganharam destaque no mercado editorial, especialmente após o fenômeno de vendas 50 tons de cinza, de E. L. James. ;O livro erótico possui um ingrediente que é poderoso e conduz o leitor à explorar sensações e sentimentos adormecidos, o prazer;, explica Breno Rosostolato, psicólogo e professor na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo. Para ele, diversos títulos merecem destaque, desde Satiricon, de Petrônio (60 d.C.); passando por A História de O (1954), de Pauline Réage; e, chegando a obras mais recentes, A obscena senhora D (1982) de Hilda Hilst; e A casa dos budas ditosos (1999), de João Ubaldo Ribeiro.

Sobre Aids

Nos anos 1980, falar sobre Aids era como pronunciar um palavrão. Tanto na mídia quanto na sociedade, a doença era comumente nominada de ;câncer gay;. Passadas três décadas, ainda há quem sofra preconceito por ser portador do vírus HIV. Algumas produções, como Clube de Compras Dallas (de Jean-Marc Vallée) e o telefilme The normal heart, de Ryan Murphy, lançado no ano passado, esclarecem questões básicas para quem sabe muito pouco ou quase nada sobre a doença.

Em Brasília, um projeto com o mesmo intuito gerou um relevante debate. Gabriel Estr;la é soropositivo, e, aos 23 anos, decidiu falar abertamente sobre a contaminação em um vídeo feito em parceria com a vlogger Jout Jout. ;Foi uma decisão extremamente social. Estava em momento vulnerável, desconstruindo um estigma gerado nos anos 1980, e ainda teria que lidar com a ignorância alheia. Levei cinco anos para achar que era a hora certa de me expor;, revela.

Há dois anos, Gabriel apresentou uma peça sobre a temática, e decidiu expandi-la no que virou o projeto Boa sorte. O espetáculo foi uma alavanca a outros formatos, como o ensaio fotográfico pelo olhar de Daniel Fama, com artistas e voluntários posando abraçados a pessoas soropositivas. Em 3 de dezembro, Boa sorte estreia no formato musical no Teatro Eva Herz, no Iguatemi.

Transgêneros
Temas como nudez,  prazer, aids,  transgêneros e novos arranjos são o cerne de diversos produtos artísticos
É difícil falar do tema transgêneros e não tocar na atuação de Laverne Cox em Orange is the new black. A artista trans interpreta uma presidiária que fez a troca de sexo antes de ir para a cadeia. O papel foi muito elogiado por abordar o tema, ainda carente de debates.

Já no Brasil, algumas ações se destacam, como o projeto Sim, somos bizarras, que traz artistas fora dos padrões. Concebido pelo artista de rua Ricardo Marinelli, reúne artistas de várias frentes que discutem gênero e sexualidade. Gustavo Bitencourt é um dos envolvidos com o projeto. Ele vive, nos palcos, a personagem Dalvinha Brandão. ;Acho é um convite e um enfrentamento. É dizer: olha, a gente existe, estamos aqui, se quiser saber o que estamos fazendo, venha ver;, explica.

Leonardo Shamah é outro que levanta a bandeira contra o preconceito. O artista é um dos personagens da peça Desbunde, que completa um ano em cartaz no dia 20. ;O Desbunde é uma peça constrangedora para quem tem dificuldade com o tema, tenho o papel de alertar ao público. Vou para a fila com um vestido de lantejoulas, calcinha de renda e o peito, masculino, à mostra. Quem se incomoda nem entra na sala;, explica Shamah.

Tipos de amor
[FOTO5]
;A mudança da mentalidade começou a partir dos anos 1960, com a pílula. O sexo e a sexualidade são construções sociais que, em cada época, se apresentam de uma forma;. É desta maneira que a psicanalista e escritora, Regina Navarro Lins descreve as novas formas de relacionamento que vemos agora, como o poliamor, ménage, relacionamentos livres, poligamia e vários outros.

Segundo a especialista, o amor romântico e monogâmico não é a única forma de se relacionar e as pessoas estão se abrindo para novas possibilidades. ;A grande importância do momento em que vivemos é que não temos modelo de relacionamento. É muito importante que não se troque um modelo por outro, mas que se aceite a opção de cada um.;

Na televisão, recentemente, o tema foi abordado na série documental Amores livres, do GNT. Dirigida por João Jardim, a série retrata esses relacionamentos, que vão muito além de casamentos monogâmicos entre um homem e uma mulher.

Para o professor da USP Ailton Amélio da Silva, a internet é sem dúvida um divisor de águas nesses novos arranjos. Segundo ele, diversos filmes retratam essa relação dos seres humanos com a tecnologia de uma maneira que levanta questões a serem discutidas, como em Inteligência artificial, de Steven Spielberg.

;Claro que isso ainda está distante, mas pode vir a acontecer um dia. Atualmente o que vemos são várias pessoas escolhendo relacionamentos virtuais por questões que podem envolver inseguranças, medo de rejeição, de julgamento e de fracasso;, comenta o professor.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação