Jornal Correio Braziliense

Diversão e Arte

João Angelini explica como constroi a pintura com um processo inverso

Em vez de sobrepor camadas de tinta, ele retira pedaços da superfície para dar forma a pinturas inspiradas em ilustrações científicas

Uma das discussões que João Angelini mais gosta quando olha para o próprio trabalho é tentar definir a técnica capaz de caracterizar as obras da exposição a seco, em cartaz a partir de hoje na Referência Galeria de Arte. Se a perspectiva for a do gesto, Angelini esculpe. Tira camadas de material para encontrar outras camadas, mas de tinta. Com elas, constrói a imagem numa superfície que pode ser de gesso, preparada especialmente para o ateliê, ou de lascas de parede, arrancadas aqui e ali em obras de reforma ou construção. O resultado, no entanto, não é uma escultura. As oito peças da exposição são pinturas e dessa definição, Angelini não abre mão. ;Para mim, esses trabalhos são muito pintura, as imagens são geradas pela sobreposição de camadas de cores. Elas têm técnica de gravura, mas não penso em positivo ou negativo quando faço. Eu arranco para revelar;, explica o artista.

As obras de a seco, que tem curadoria de Carlos Ferreira, são uma espécie de parêntese na trajetória artística de Angelini. Conhecido principalmente pelos trabalhos em vídeo e pelas performances com os grupos empreZa e TresPes, o artista começou a experimentar as pinturas em 2007, quando foi convidado para fazer uma exposição na Casa da Cultura da América Latina (CAL) e, ao furar a parede, percebeu ali dezenas de camadas de tinta. Angelini se deu conta que, ao retirar as lascas de parede de maneira controlada e organizada, podia obter formas e composições. Em 2010, durante a reforma da casa da família ; um casarão colonial em Planaltina do DF ; ele começou a utilizar as lascas de parede para produzir uma pintura particular, no sentido inverso, formada pela retirada de camadas previamente acumuladas e não pela sobreposição.

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O que mais intrigava o artista era o fato de as camadas retiradas de sua própria casa estarem carregadas de uma história de décadas. As memórias das vivências do quarto de infância e dos outros cômodos se empilhavam nas sucessivas mãos de tinta. No começo, ele pensou em construir uma série apenas com lascas de paredes. ;Só que é um material escasso, você não acha todo dia;, constata. A solução de placas de gesso utilizadas para dry wall se tornou uma alternativa e deu novo impulso ao trabalho. Se antes Angelini descobria as camadas à medida que esculpia e, a partir do imprevisível, criava a composição, agora ele podia ter mais controle sobre o processo.

Os trabalhos ganharam então outra dimensão e a pintura surgiu como linguagem de uma investigação que passa pela anatomia e pela performance. São órgãos do corpo humano as figuras criadas por Angelini em a seco. Pescadas dos livros de anatomia do pai, que é médico, as imagens são ilustrações científicas detalhadas, mas o artista criou para elas um relato de fantasia. Os textos impressos nas pinturas dão a cada órgão uma função inventada responsável por um humor e uma poética capazes de confundir o espectador. Assim, o artista sugere que a água do labirinto seja substituída por água gasosa para tornar a pessoa mais leve e menos depressiva diante da violência do cotidiano. ;Proponho um desequilíbrio assistido para sair do estado de depressão;, brinca Angelini. A clavícula ganha a função de alimentar os sentimentos transmitidos pelo toque da mão e a segunda vértebra passa a ser responsável pela coordenação motora que, se controlada, pode atender a habilidades específicas. Um coração oco e outro que respira no lugar dos pulmões completam a bizarra anatomia de Angelini.

Hoje, durante a abertura, o artista leva para a performance um pouco das ideias que o conduziram às obras de a seco. Com brocas de dentista no lugar do tradicional buril da gravura, ele reproduziu com linhas finas, na superfície de um prato de cerâmica, vários cortes do coração. Durante a abertura da mostra, o artista vai preencher algumas das linhas com o próprio sangue. É como se entintasse uma gravura com fluidos do próprio corpo. Há várias simbologias embutidas no ato. Uma delas, lembra o curador Carlos Ferreira, é a ideia de uma assinatura quase primitiva, em que o sangue é a prova da autoria da obra. Outra é o gesto performático da ação e a efemeridade do material, que muda de cor ao longo do tempo. Ambas são parte de um processo disparado pela curiosidade e pela vontade de se deparar com ambientes e situações nada familiares.

A seco

Exposição de João Angelini. Curadoria: Carlos Ferreira. Abertura hoje, às 17h, na Referência Galeria de Arte (SCLN 205, Bloco A, Loja 9, 1; pavimento)