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Estado de Minas

Conheça publicações sobre jornalismo que chegaram às livrarias recentemente

Reportagens e coberturas de escândalos e fatos históricos são a base para uma leva de boas publicações que chegaram às livrarias nos últimos meses


postado em 01/02/2016 06:01 / atualizado em 01/02/2016 10:18

Capa do livro, Os porões da contravenção, de Aloy Jupiara e Chico Otávio, da Editora Record. (foto: Record/Reprodução)
Capa do livro, Os porões da contravenção, de Aloy Jupiara e Chico Otávio, da Editora Record. (foto: Record/Reprodução)

Existe um momento importante durante a apuração de uma reportagem, um momento durante o qual o repórter percebe que o volume de informações em suas mãos é grande para algumas páginas de jornal ou revista. Instantes como esse são preciosos para a história do jornalismo e da própria literatura. De percepções assim nasceram obras-primas como A sangue frio, de Truman Capote, A mulher do próximo, de Gay Talese, e Hiroshima, de John Hersey. Boas histórias em boas mãos sempre rendem bons textos e é uma sorte do leitor que o autor queria compartilhá-las em um meio, digamos, menos efêmero.

Nos últimos meses, as livrarias receberam alguns bons exemplares do gênero. A boa notícia é que, entre eles, há um lote considerável de autores brasileiros. O jornalismo impresso pode ser um negócio em crise, mas o livro ainda é a melhor maneira de eternizar uma apuração de fôlego. O Diversão &Arte selecionou alguns dos melhores títulos de livros que nasceram de grandes reportagens e saíram do forno recentemente.

Os porões da contravenção
De Chico Otávio e Aloy Jupiara. Record, 66 páginas. R$ 36


A história dos agentes obscuros acostumados aos porões da ditadura que migraram para o jogo do bicho apareceu primeiro em uma série de reportagens no jornal O Globo. Entre 6 e 9 de outubro de 2013, os repórteres Chico Otávio e Aloy Jupiara publicaram o resultado das investigações que os levaram a descobrir como a maior facção criminosa do país nasceu de mãos dadas com poder oficial. Como jornalista raramente se contenta com o espaço oferecido pelos editores, os repórteres enxergaram na história um material apropriado para um livro. “O livro, neste caso, era a oportunidade de contextualizar, aprofundar as histórias, descrever os personagens e episódios. Buscar uma linha narrativa, tornar a história agradável, sem perder o foco na notícia”, conta Chico Otávio. Para render um bom livro, ele acredita, uma reportagem precisa ter mais que fatos inéditos. “Dados inéditos não funcionam se os autores não conseguirem oferecê-los ao leitor com algum charme, mas com o pé na realidade sempre. Contar a história de um jeito agradável, mas sem perder o foco no dado objetivo é um desafio que só conheci neste livro”, diz. Aloy Jupiara conta que não percebeu, de imediato, que a cobertura renderia um livro. Foi quando a dupla deu continuidade à apuração com mais entrevistas e análise de documentos que o jornalista se deu conta de que seria possível ir além das páginas do jornal. “Minha maior preocupação, nas reportagens e no livro, foi dar conta do material apurado num texto que atraísse os leitores. Quando se trabalha com muito conteúdo, há um risco de se perder quando se escreve. A preocupação era como juntar tudo que investigamos”, diz Jupiara.

A arte do descaso
De Cristina Tardáguila. Intrínseca, 92 páginas. R$ 39,90


A história das cinco obras roubadas do Museu Chácara do Céu na sexta-feira de carnaval de 2006 deveria render apenas uma reportagem especial, mas a repórter Cristina Tardáguila resolveu transformar a história em um livro. A arte do descaso lembra os 10 anos do maior roubo de arte já realizado no Brasil. Enquanto o bloco das Carmelitas desfilava no bairro carioca de Santa Teresa, quatro homens invadiram o museu localizado na vizinhança e levaram A dança e um livro de gravuras de Pablo Picasso, Marinha, de Claude Monet, O jardim de Luxemburgo, de Henri Matisse, Os dois balcões, de Salvador Dali. No livro, a repórter lista uma série de descasos logo após o roubo e propõe a desconstrução de vários mitos, inclusive o de que esse tipo de crime nasce da encomenda de milionários excêntricos. “Na maioria das vezes, o roubo de obra de arte está ligado a outros crimes”, explica. Segundo a autora, roubo de obra de arte é o terceiro crime mais cometido no mundo de acordo com o Federal Bureau of Investigation (FBI), dos Estados Unidos, e vem logo após tráfico de drogas e de armas. Entre os descasos do título, Cristina lista uma série de falhas nas investigações. Ela conta, por exemplo, que a Polícia Federal divulgou informações incompletas sobre as obras nas horas seguintes ao roubo, momento crucial para evitar que as pinturas deixassem o Rio de Janeiro. Cinco obras foram roubadas, mas o comunicado que circulou pelos aeroportos falava em três pinturas. “Era importante que o documento fosse completo e chegasse rapidamente às rotas de fuga”, lembra a autora, que critica também a atuação das autoridades no caso. “Em Brasília, o diretor do então Departamento de Museus, José Nascimento Jr., fica sabendo do roubo, faz uma nota para o Jornal Nacional, fecha o laptop e vai para Porto Alegre passar o carnaval. Antes, ele liga para o Gilberto Gil, então ministro, cuja única reação é ligar para o Marcio Thomaz Bastos, ministro da Justiça, que aciona a PF, que já estava acionada. E todo mundo vai curtir o carnaval. O Brasil não está preparado para lidar com roubo de obra de arte”, aponta Cristina.


SwissLeaks — Revelações sobre a fraude fiscal do século
De Gérard Davet e Fabrice Lhomme. Tradução: Guilherme J. F. Teixeira. Estação Liberdade, 240 páginas. R$ 39

Quando os repórteres franceses Gérard Davet e Fabrice Lhomme receberam o pendrive vermelho do técnico em informática do banco britânico HSBC, não sabiam ao certo o que fazer. Dentro repousavam informações sobre 100 mil clientes do banco e 20 mil empresas offshore, responsáveis por movimentar mais de 180 bilhões de Euros entre 2006 e 2007. Entre os donos das contas estavam nomes famosos, incluindo artistas, jornalistas, políticos e empresários brasileiros. Era preciso tratar a informação, mas uma parte do caminho apontado pelo vazamento levava a crimes de lavagem de dinheiro e corrupção. O material foi investigado por 130 jornalistas e circulou em reportagens em 45 países depois que Davet e Lhomme decidiram entregar as informações ao International Consortium of INvestigative Journalist (ICIJ). É o que acontece entre receber a denúncia e publicar as reportagens que trata este pequeno livro.


Política, propina e futebol
De Jamil Chade. Objetiva, 336 páginas. R$ 79,90

Jamil Chade não teria feito este livro se não estivesse presente quando os dirigentes da Fifa foram presos pelo FBI em maio de 2015. Nem se não tivesse trabalhado em diversas coberturas ao longo dos últimos 15 anos. Uma cobertura de um dia, lembra o autor de Política, propina e futebol, não leva a um livro. É preciso a repetição e a familiaridade com o tema. No livro, ele conta como um gigantesco esquema de corrupção conseguiu usurpar o sentimento de torcedores e transformar um símbolo nacional em espaço para crimes. “Em um certo momento da cobertura, eu sinto uma certa frustração de não conseguir contar a história inteira. A gente dá a notícia, o furo, o inédito, mas tem sempre uma limitação normal, fica a sensação de estar faltando mostrar ao leitor que aquilo está ligado, de alguma forma, com o 7X1, com a ausência de público nos estádios, com a desilusão do brasileiro com a seleção, com muitas coisas, e que a matéria é uma peça disso tudo”, explica Chade, que publicou as matérias em O Estado de São Paulo.

Vale tudo da notícia
De Nick Davies. Tradução: Marcelo Levy.lntrínseca, 480 páginas. R$ 49,90

Uma denúncia de que repórteres de tablóides britânicos teriam grampeado telefones da realeza para conseguir informações que os levassem a escândalos atiçou a veia investigativa de Nick Davies. Jornalista independente com uma coluna no The Guardian, Davies resolveu investigar a história e passou a cobrir o escândalo: repórteres dos jornais Sun e The News of The World, ambos pertencentes à News Corporation, conglomerado de mídia do norte-americano Rupert Murdoch, grampeavam telefones de políticos e celebridades para conseguir furos e chantagear os personagens. O repórter publicou dezenas de reportagens sobre o caso entre 2011 e o ano passado, mas a quantidade de informação apurada era tanta que a história mereceu um livro. Vale tudo da notícia é o mergulho de um repórter no ventre da própria profissão, um trabalho de fôlego que investiga os métodos da imprensa marrom para constatar que há um lado muito nefasto no jornalismo praticado hoje por certos veículos. “Temos um ditado na imprensa britânica de que caes` não comem cachorros-quentes´. Isso significa escreva` sobre qualquer pessoa, mas não escreva sobre jornalistas´. É uma péssima ideia essa de que uma profissão que, supostamente, deveria ser dedicada a dizer a verdade se recuse a falar a verdade sobre si mesma. É preciso quebrar essa ideia porque os jornais têm um poder muito grande”, explica Davies. Em entrevista ao Diversão & Arte, ele conta que o maior problema do livro foram as ameaças e processos. “Nos piores momentos, tivemos os jornais de Murdoch publicando histórias ruins sobre nós e um oficial de polícia nos processando. Sabíamos que estávamos certos, que estávamos dizendo a verdade, mas para lutar contra a agressão não bastava estar certo, nós precisávamos provar que estávamos”, conta.

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