Diversão e Arte

Brasília Rádio Center faz parte da história musical da cidade

Personagens que ainda habitam o prédio ajudam a resgatar a memória da capital federal

postado em 02/02/2016 07:30

Digão, dos Raimundos, no local da primeira gravação da banda Filhos de Mengele

Ele permanece imponente na paisagem urbana da Asa Norte e ainda guarda capítulos importantes da história da música nacional. O prédio Brasília Rádio Center, a poucos metros do coração da cidade, foi erguido em 1979 pelo empresário José Baracat em parceria com o engenheiro pioneiro Anísio Ludovico. A destinação inicial do edifício de 64 mil m2 e com 648 salas comerciais era abrigar emissoras de rádio e televisão, além de estúdios fonográficos e audiovisuais, áreas de atuação que atualmente, segundo a administração do prédio, atingem 20% do contingente de ocupação.

Locutores de rádio e expoentes do rock nacional tiveram no local um verdadeiro ponto de encontro e um início na carreira musical. Caso de Digão, vocalista dos Raimundos. Em 1986, aos 14 anos, ele foi convidado para ser baterista da banda Filhos de Mengele. Os ensaios sempre aconteciam em uma das salas do Rádio Center, às quintas-feiras, sempre às 22h.

;Minha mãe não queria me deixar no ensaio. Falei que dormiria, fechei a porta do quarto e pulei a janela. Depois pulei o muro da casa com as minhas duas baquetas. Peguei o ônibus e desci na Rodoviária. Fui a pé até o Radio Center. Fiz isso umas quatro vezes;, relembra o músico com um tom nostálgico. Para garantir a pontualidade, Digão acabava chegando mais cedo ao prédio, o que permitia uma verdadeira incursão no cenário musical da cidade. Muitas bandas da cidade dividiam salas comerciais no prédio para garantir os ensaios.

Como precisava chegar mais cedo no ensaio, Digão transitava pelas salas do Rádio Center e ouvia os ensaios. ;Quando o som me agradava eu batia na porta e pedia para assistir. Eu sabia onde era a sala das bandas mais famosas, como Escola de Escândalo e a Marciano Sodomita.;

Entre as histórias hilárias que vêm à memória de Digão estão na primeira visita à banda Marciano Sodomita. Depois de perceber luzes ;estranhas; pela sala, ele viu algo na parede feito com espuma e um pano vermelho. ;Eu não estava entendendo o que era. Depois vi que eles fizeram uma vagina gigante na sala. Essa foi a banda com gente mais estranha que conheci;, relata o vocalista dos Raimundos em tom bem-humorado. Para ele, as interações com outros músicos durante ensaios e conversas foi uma verdadeira escola.

Aluguel


Personagens que ainda habitam o prédio ajudam a resgatar a memória da capital federal
A história do Brasília Rádio Center envolve vários nomes da cidade como o músico Rênio Quintas. Um dos líderes da banda de música instrumental Artimanha ao lado do guitarrista Toninho Maya, o grupo foi um dos primeiros a utilizar o prédio como local de ensaio. "Tudo começou no final da década de 70 quando fomos gravar músicas no estúdio GravaSom, do Luís Lemos. Aí decidimos alugar alguma sala do Rádio Center para os ensaios da banda. O ambiente central próximo ao estúdio nos pareceu uma boa ideia. A partir daí alugamos uma sala no 3; andar e depois alugamos duas salas no 4; andar", relembra o músico, que destaca os tempos de olhar cooperativo que caracterizava as relações entre os artistas da época. Músicos de várias bandas se uniram para dividir salas comerciais como local de ensaio, entre eles nomes como Cássia Eller, Plebe Rude e Marciano Sodomita. "A nata cultural da cidade estava no Rádio Center. Com a chegada de profissionais liberais que não eram relacionados a música ou comunicação quiseram expulsar os músicos. Lembro que recebíamos cartas pedindo pra gente sair. Nós estávamos no lugar certo, mas a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco. O interesse econômico prevaleceu com essa mudança de destinação do Rádio Center. Isso era o prenúncio desse absurdo da Lei do Silêncio", avalia Rênio, que na época militava a favor da destinação única do edifício.

Aliado à mudança de destinação do prédio, a chegada de novos recursos audiovisuais culminou no enfraquecimento do mercado dos estúdios de gravação na cidade. Apesar disso, mesmo com os novos aparatos, o Brasília Rádio Center foi muito além das gravações: era um local de verdadeiro intercâmbio entre músicos de diversos segmentos. "A tecnologia abriu possibilidades, mas o Brasília Rádio Center foi o primeiro grande reduto de expressão artística de Brasília. Esse lugar teve o mesmo papel que o Porão do Rock teve posteriormente", afirma Rênio Quintas. "Eu acho que as novas gerações têm que saber que estávamos unidos. A história do Rádio Center pode estimular os jovens a formarem um ponto de encontro, um local de interação entre a classe artística", afirma Rênio, que ao lado de Toninho Maya liderou o estúdio homônimo à banda.

Ameaças


Personagens que ainda habitam o prédio ajudam a resgatar a memória da capital federal
Composições como Consumo e 48 horas são exemplos de músicas escritas no local de ensaio, que sofria com constantes ameaças de alguns profissionais liberais que ocupavam as salas vizinhas. Durante um dos ensaios da Plebe, uma janela foi atingida com um transformador de luz. Em outras ocasiões, a fechadura da porta foi entupida com cola e palito de fósforo como uma tentativa de inibir a entrada dos músicos. ;Era uma sabotagem pesada. Os funcionários liberais viram que o aluguel era barato e começaram a expulsar a gente. Isso faz parte do sucateamento de Brasília, problemas que vivemos até hoje. A setorização de alguns locais não foi respeitada, assim como acontece na Concha Acústica, local destinado para shows que sofre com reclamações de vizinhos de moradias que chegaram lá posteriormente. Essa setorização não trouxe nenhuma vantagem aos músicos porque ela simplesmente não foi respeitada;, avalia Phelippe Seabra em entrevista ao Correio. Para o atual vocalista da Plebe Rude, o rock de Brasília como é conhecido hoje teve seu nascimento na sala 2090.


Memórias de elevador

À primeira vista o jeito sisudo de Augusto das Neves pode intimidar, mas aos poucos o funcionário mais antigo do edifício fica à vontade para falar sobre as lembranças de 33 anos de trabalho no Brasília Rádio Center. Ao chegar no prédio em 82, ele trabalhou como ascensorista e viu de perto nomes que seriam grandes promessas do rock nacional como Renato Russo, Hebert Viana, Zélia Duncan e Cássia Eller. ;Aqui todo mundo me conhece. Essa época era muito boa: As pessoas não eram muito individualistas. Naquele tempo todo mundo ajudava todo mundo;, avalia das Neves, que hoje trabalha na área administrativa do prédio.

Uma das cenas mais corriqueiras do ex-ascensorista era ver a ;garotada; dormindo nos corredores do prédio na fila de espera para as gravações. ;O corredor ficava sempre lotado. Tinha gente que não teria como voltar para casa no avanço das horas e acabava passando a noite por lá;, relembra Augusto.

Tempos áureos do rádio


Personagens que ainda habitam o prédio ajudam a resgatar a memória da capital federal
Não apenas de rock estão relacionadas as lembranças do edifício Brasília Rádio Center. A gravação de jingles famosos de empresas locais ; como a da casa de materiais de construção São Geraldo, Atlântida Móveis e Bingão dos Importados ; que ultrapassaram décadas aconteceram no histórico do prédio erguido por Anísio Ludovico. No 2; andar funciona desde março de 1987 a Áudio Fidelity Produções, única empresa locada no Rádio Center destinada à gravações publicitárias. ;Na época tínhamos uma situação bem privilegiada. A rádio Globo funcionava no andar de cima e no prédio haviam outras emissoras e produtoras de audiovisual. Quando precisava de algum locutor para um trabalho, não precisava procurar muito. Na chegada de um texto publicitário para o off, em 1 hora eu estava com a gravação pronta;, relembra o proprietário do estúdio Marcelo Goedert, que recebia com frequência no estúdio vozes famosas do cenário local, comos os locutores Nilson Gonçalves, que marcou a cidade com gravações que fazia para a extinta Telebrasília, e Drago, que por muitos anos trabalhou como locutor do programa Voz do Brasil e foi o precursor do famoso jargão radialístico ;Em Brasília, 19 horas;.

O final da década de 80 e o início dos anos 90 marcou uma fase de transição tecnológica na área de rádio e TV. A crescente demanda por gravações fez com que a empresa crescesse: em 92 era a hora de alugar mais uma sala no prédio, a 2021. No fim dos anos 90, Goedert acompanhou a fase de transformação do prédio com a chegada em massa de profissionais liberais após a mudança de destinação da área do Setor de Rádio e TV Norte. ;A partir dessa época o Rádio Center ficou ultrapassado e passou a ter mais concorrência em volta. O prédio foi perdendo a veia cultural;, relembra o empresário que mesmo com o enfraquecimento da área permanece com o estúdio em atividade.

;A gente não pode desafiar a mudança ocasionada pelo tempo. Não adianta tentar voltar ao passado. A situação mudou com computador, internet e a concorrência entre os estúdios de gravação passou a ser a nível mundial. O trabalho mudou, tudo mudou. Mas aqui continua sendo um lugar muito bom: as salas são grandes e a estrutura antiga do prédio antigo favorece muito os estúdios, além da ótima localização;, avalia o empresário em entrevista ao Correio.

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