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Estado de Minas

Autor do DF ganha prêmio com livro sobre padres devassos na literatura

A figura dos beatos na cultura brasileira sempre intrigou o pesquisador Cristian Santos


postado em 04/02/2016 07:31

Cristian Santos mergulhou na simbologia dos beatos para escrever o livro premiado(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Cristian Santos mergulhou na simbologia dos beatos para escrever o livro premiado (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Um livro sobre mulheres beatas e padres pervertidos, resultante de uma pesquisa de doutorado na Universidade de Brasília (UnB), foi o vencedor na categoria literatura brasileira do prêmio Casa de las Américas, um dos mais importantes de literatura na América Latina. Devotos e devassos — Representação dos padres e beatas na literatura anticlerical brasileira nasceu entre 2008 e 2010, quando Cristian Santos, bibliotecário da Câmara dos Deputados e então doutorando da UnB, se deu conta de que esses personagens representavam um momento histórico importante e um símbolo do imaginário nacional.

A figura dos beatos na cultura brasileira sempre intrigou o pesquisador. Eles fazem parte da história do país —  Antonio Conselheiro talvez seja o mais famoso — e marcam um momento de mudança de postura em relação às questões religiosas. “Comecei esse trabalho da observação de telenovelas que abordavam a questão religiosa”, conta Santos, que cita Perpétua, de Tieta, como a mais famosa beata do mundo televisivo. “De modo particular, as beatas apresentadas de forma caricata eram as controladoras do comportamento da cidade, ocupavam um espaço dentro e fora de casa.” E também eram vistas como figuras fofoqueiras e malévolas. Os padres devassos dos títulos correspondiam às beatas, mas em uma versão masculina.

A televisão despertou Santos, mas foi a literatura que realmente preencheu as lacunas para falar dessas figuras tão presentes em uma sociedade marcada pela religião. Santos escolheu dois romances de Aluísio Azevedo — O mulato e O homem — e um do pernambucano Faria Neves Sobrinho — Morbus. “Faria Neves é um autor fora do cânone, pouquíssimo conhecido no Brasil”, avisa Santos, que queria incluir a figura de um beato homem. O autor pernambucano seria um dos poucos a investir na versão masculina desse tipo de personagem.

Os três livros datam do fim do século 19, período em que o Brasil enfrentava a transição do império para a República, após a deposição de dom Pedro II. Os romances, segundo Santos, têm alta carga panfletária e trazem as figuras dos beatos como uma crítica à onipresença da religião na vida social. Até aquela época, a Igreja controlava boa parte do cotidiano. “Ela tinha o monopólio no social, era dona das escolas, dos cemitérios, e a literatura passa a ser usada para apresentar críticas”, explica Santos. Na época, o surgimento de novos saberes, como a psicologia, também impôs um certo embate no campo religioso. Beatas e padres devassos eram vistos como um retrocesso incompatível com a modernidade de um Brasil republicano e apareciam na literatura como pessoas de uma mentalidade atrasada.

Muitas das ideias e situações expostas no livro ainda provocam reflexos no dia de hoje. “Essas questões da sexualidade e da religião continuam muito presentes. Por exemplo: por que só os homens celibatários são padres? Algumas pessoas até associam a pedofilia ao celibato, o que é um erro”, garante Santos. “A grande crítica é que a Igreja produz corpos doentes quando prega o celibato, que continua sendo visto como uma doença. Isso é loucura,  e existe ainda uma patologização da religião.”

Partindo dos beatos, Santos avança na discussão sobre o progresso brasileiro do qual tanto se falava no fim do século 19 e início do 20, e critica o positivismo que estaria na base desta ideia de um Brasil moderno. “Os positivistas se diziam contra a Igreja, mas isso não implicou uma ruptura de mentalidade. A fonte de conhecimento mudou, não era mais a Bíblia, mas a mentalidade, não. E essas coisas ainda estão presentes. Veja o drama, no Congresso Nacional, dos direitos LGBT simplesmente porque a bancada evangélica se recusa a discutir a questão. Essa é uma dificuldade de separar o civil do religioso”, lamenta o autor. Os beatos, ele avisa, ainda povoam a sociedade brasileira. Agora, porém, não mais em cidadezinhas do interior, mas na figura dos pastores das igrejas evangélicas, que controlam a vida de centenas de pessoas.


Devotos e devassos — Representação dos padres e beatas na literatura anticlerical brasileira 
De Cristian Santos. 
Edusp, 416 páginas. R$ 69

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