Jornal Correio Braziliense

Diversão e Arte

Clarice Falcão assume diferentes facetas em 'Problema Meu'

O jeito doce de cantar de Clarice, acompanhada por arranjos mínimos, em grande parte no violão, mascarava a temática quase doentia, embora divertida, daquela safra

Clarice Falcão tem certeza absoluta de que morrerá em acidente de carro. E, calma, não há nenhuma morbidez aqui. "Não sei por quê (a certeza do motivo da própria morte). É uma impressão que eu tenho", diz a atriz, roteirista, cantora e compositora. Não que a ideia da própria morte seja algo a assombrar seus pensamentos ou escurecer sua produção criativa. Aos 26 anos, ela vê o fim da própria vida com distância. "Pode ser quando for velhinha. É rápido. Pá pum", conclui, sem qualquer languidez. A realidade é que tudo que parece sair do cérebro da pernambucana que, desde os 6 anos, reside no Rio de Janeiro surge como um esquete quase pronto para ir parar direto na TV, cinema ou ser transformado em alguma canção. Imagético. Tão trágico e cômico.

Ou cômico e trágico. A ordem dos fatores, afinal, não é importante. O choro e o riso caminham tão próximos na obra crescente de Clarice que, por vezes, se confundem. O primeiro disco dela, cujo título de Monomania já indicava a monotemática das canções, escancarava a obsessão de uma garota por um rapaz. Em determinado trecho de Oitavo Andar, por exemplo, a personagem planeja se arremessar do oitavo andar para cair sobre o ex "como uma bigorna cai em cima de um cartoon qualquer". "Imagina que cena feliz", sugere ela na faixa do trabalho de 2013. O jeito doce de cantar de Clarice, acompanhada por arranjos mínimos, em grande parte no violão, mascarava a temática quase doentia, embora divertida, daquela safra. Houve quem classificasse o som da moça como "fofo", mas provavelmente não haviam sacado o desespero dela ao pedir para ser "o seu pinguim de geladeira, uma semana inteira sem mexer".

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A ideia de Clarice passar tanto tempo imóvel é praticamente impensável. Ela transita entre TV, cinema e música com fluidez há alguns anos. Desde o fim de novembro do ano passado, contudo, Clarice anunciou por meio da conta dela do Facebook que deixaria a trupe de humor Porta dos Fundos para se dedicar ao segundo disco e à respectiva turnê. O álbum, Problema Meu, chega ao Spotify na próxima sexta-feira, 19, e nas lojas no dia 26. Os primeiros shows anunciados ocorrem em Recife (18 de março), Fortaleza (19 de março) e Rio de Janeiro (15 de abril). Em São Paulo, ela chega em 8 de abril, no Cine Joia.

Se o primeiro álbum era monotemático, esse é propositalmente multitemático. "Sinto que fiz um primeiro disco com um conceito muito claro. Com essas músicas muito parecidas, o mesmo eu lírico, quase como trechos de uma mesma história", ela explica, recostada numa poltrona na Galeria Emma Thomas, no Jardim América, em São Paulo, local escolhido para a sessão de fotos e a entrevista concedidas Estado. "Desta vez, queria fazer algo que contemplasse mais gêneros musicais, que mudasse os pontos de vista. É claro, ainda sou eu, com a minha voz e minha forma de escrever, mas queria virar um pouco de jogo. Tem o personagem obsessivo, mas tem a amiga, eu falando de mim mesma."

A presença do produtor Kassin, capitaneando a banda que acompanhou Clarice no estúdio, trouxe os sabores múltiplos de Problema Meu. Embora grande parte das 14 canções seja igualmente imagética, elas soam como narrativas distintas graças à envelopamento construído pelo carioca, do carnaval festivo de Irônico à balada pronta para os programas de rádio mais chorosos da madrugada de Se Esse Bar Fechar.

Clarice Falcão é movida pela saudade. E, na manhã da quinta-feira (11/2) ela voou do Rio para São Paulo para a primeira entrevista sobre o novo trabalho musical, lado que havia deixado adormecido, relegado a momentos de composição durante os últimos dois anos. Distanciou-se até sentir falta.

O trabalho com Monomania, explica ela, foi extenuante. E, em algum momento, se tornou mais mecânico do que ela gostaria. "Comecei a ver que a música estava se tornando como um trabalho operário. Perder o tesão de compor", ela recorda. "É um trabalho que não é ficar carimbando uma folha de papel." Clarice gesticula enquanto fala, algo que faz com frequência, aliás. "Com música, com arte, as coisas não funcionam assim."

O afastamento se mostrou frutifico para Problema Meu. "Não queria fazer coisas com pressa, compondo entre shows. Queria voltar a encarar a música como algo lúdico. E assim eu fui indo. Escrevendo quando tinha alguma inspiração."

Clarice tem suas manias para compor. Gosta de fazê-lo quando ninguém está em casa - idealmente, pelo menos. "Fico agoniada quando tem gente por perto, escutando. Sabe, é um processo muito ridículo", ela diz, divertidamente. "Você faz muita besteira, fala muita bobagem. Então, em geral, gosto de estar sozinha, pegar o violão, escolher alguma música que eu goste no site Cifra Club para aquecer e seguir depois." As ideias, costumeiramente, chegam também em viagens de ônibus, avião, metrô, e são devidamente anotadas no bloco de notas do aparelho celular.

Em uma hora de papo, Clarice ri bastante. De si mesma, principalmente. Apresenta hematomas no braço esquerdo, assim como arranhões na palma da mão, resultado de um tombo "em um dos buracos da prefeitura" do Rio, durante a folia de carnaval. "Eu não sei andar direito", ela brinca - ou não. Por mais que soe uma análise psicológica barata, Clarice concorda que o humor foi uma saída para encarar a timidez nascida entre a transição de menina fã de Destiny;s Child, ;N Sync e Spice Girls até adolescente fã de Blink-182 e toda a onda de emo-core. Ela conta histórias do bullying sofrido por ser diferente das outras garotas na 5.; série - como ter passado uma hora e quarenta e sete minutos de esteira com esperanças de estar alguns quilos mais leve para usar maiô na frente dos coleguinhas no dia seguinte -, mas impressiona sua capacidade de fazer o humor dentro dessas situações mais trágicas.

Como a própria morte, último assunto do encontro. "É por isso que nunca aprendi a dirigir. Assim, quando acontecer, não vão dizer: ;Ai, ela sempre foi muito distraída mesmo;", diverte-se. E a entrevista chega ao fim. "Gente, acaba com a minha morte? Achei demais. E morri."