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Estado de Minas

Diego Moraes desponta como uma das grandes apostas da literatura brasileira

Após ter morado nas ruas de São Paulo e ter se viciado em crack, ele encontrou na poesia forças para não desistir


postado em 21/03/2016 07:08

O poeta amazonense Diego Moraes destaca:
O poeta amazonense Diego Moraes destaca: "o inferno que passei já virou lirismo faz tempo. Sobrevivi" (foto: Arquivo Pessoal)
 

O poeta Diego Moraes, viciado em crack, perambula pela Praça da Sé em São Paulo. É 2003. Faz frio. O pão doado pelos padres alivia um pouco a fome, um bar nas redondezas toca Belchior. Faz alguns meses que ele chegou à cidade ainda sonhando em casar e se mudar para Espanha com a namorada. São Paulo seria só escala. Faz alguns meses que esqueceu a certidão de nascimento na umidade de Manaus e perdeu a viagem e a mulher amada. Faltam alguns meses para ele recomeçar.

Mas antes disso, as coisas apertaram. “Minha ex-namorada me expulsou do lugar onde morávamos.” Sem ter onde ficar, o poeta foi parar nas ruas do centro de SP entregue ao crack e só com uma maleta verde cheia de roupas velhas, contos e poemas.

Foram dias duros e a poesia impediu Moraes de desistir. “Lembro-me de um bar perto da Praça da Sé onde tocava Belchior todos os dias numa máquina jukebox e, durante um tempo, a música dele me serviu de consolo. Era a única poesia ao meu alcance”, recorda. O lirismo do compositor, explica o poeta, ajudava a esquecer um pouco a fome e dava forças para não se entregar. “Fui em março para São Paulo e voltei em novembro de 2003 para Manaus. Pedi arrego, liguei para minha mãe e pedi uma passagem”, lembra Moraes. “Fomos com a grana de um carro vendido em Manaus.

Já se passaram seis livros e 13 anos desde que Diego Moraes ligou de um orelhão para a mãe. Chegou só pele e osso a Manaus, coberto de vergonha por ter sido “derrotado pelo amor e pelo fracasso”. E as coisas mudaram. O primeiro romance do escritor deve ser lançado ainda este ano pela editora Record e autores como o influente e premiado Marcelino Freire o apontam como um nome para ser observado na literatura brasileira. Diego ainda se lembra do peixe frito com farinha que comeu logo que pisou em Manaus de volta, mas não se arrepende de nada. “Vinguei minha estadia de fome e frio com literatura.”

A vingança se concretizou no ano passado quando o poeta voltou a São Paulo para publicar o quinto livro, Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava eu te amo no orelhão (Corsário-Satã). “O inferno que passei já virou lirismo faz tempo. Sobrevivi.” Para Moraes, “as porradas da rua melhoram a literatura” e a realização do sonho de ser publicado em livro —  que alimentava mesmo quando estava perdido pela imensidão de São Paulo —  veio em 2008.

 

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