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Estado de Minas

Maria Alice Vergueiro recorre ao palco como ferramenta de sobrevivência

Diagnosticada com mal de Parkinson há mais de uma década, a atriz busca a cura no teatro


postado em 22/03/2016 07:31 / atualizado em 22/03/2016 15:26

(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press-19/4/11)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press-19/4/11)

 Salvador — Quem a vê sobre uma cadeira de rodas, com as mãos trêmulas e a voz falha não imagina a força que ali habita. “Esqueço algumas palavras, você percebeu? Culpa do Parkinson. Mas não me incomoda. Estou o enfrentando”, diz Maria Alice Vergueiro, ícone do teatro nacional. Diagnosticada com o mal há mais de uma década, a atriz, de 81 anos, recorre ao teatro como ferramenta de cura. “A arte sempre ajuda.”

 

E foi por conta dos 50 anos em cima dos palcos que Maria Alice acabou homenageada no lançamento do Palco Giratório 2016, em Salvador, projeto do Sesc prestes a completar 20 edições. Neste ano, companhias de todos os cantos do país respondem por 728 apresentações em 145 cidades, sendo a maior iniciativa nacional de circulação e difusão de espetáculos teatrais. O grupo Pândega, de Maria Alice, integra a vasta programação com a aclamada peça Why the horse?, na qual a atriz encena o próprio velório.

“Pela primeira vez, temos um patrocínio substancial e a oportunidade de sair do eixo Rio-São Paulo. Foram anos de teatro independente, vivendo a partir da bilheteria, de nosso suor”, comentou Luciano Chirolli, ator e parceiro de cena, durante a coletiva na capital soteropolitana. “Essa mulher escolheu o teatro e viveu uma vida inteira por e a partir dele. Isso é louvável”, completou, referindo- se a Maria Alice, para muitos, o maior nome das artes cênicas brasileiras.

A pantera

Why the horse? é mais um trabalho de Maria Alice Vergueiro a reverberar e subverter o fazer teatral, a exemplo de diversas empreitadas anteriores. A atriz participou da histórica montagem de O rei da vela, de Zé Celso; bebeu do Teatro do Oprimido, com Augusto Boal; e deu o que falar como integrante e fundadora do grupo Ornitorrinco. Mais recentemente, foi redescoberta pela juventude por conta do vídeo Tapa na Pantera, um marco da plataforma digital, sendo um dos primeiros vídeos nacionais a ultrapassar 1 milhão de visualizações. Hoje, 10 anos depois, são mais de 6 milhões.

 

Toda suposta fragilidade demonstrada à primeira vista, provocada pelo mal de Parkinson, dilui-se conforme Maria Alice se aproxima do palco. Ali, ela está em casa. Com o auxílio de um primoroso elenco — Alexandre Magno, Carolina Splendore, Luciano Chirolli e Robson Catalunha —, ela nos mostra o valor de trabalharmos com o que nos move. Durante aquele instante em que se ocupa o palco, todo mal se esvai. A mão não treme, a voz impressiona, ela se levanta da cadeira. Ciente da força daquela atriz, o público também se levanta e a aplaude em cena aberta.

 

// Entrevista  

 

E esta história de ser a “dama do underground”? 
De repente, eu fui credenciada. Mas acho que foi muito simpático da parte das pessoas que chegaram esse consenso. Mas o que é “dama do undeground”? É relativo. Mas eu aceitei. Achei bom carregar um título.

Você também carrega o título de “velha dama indigna”.... 

Quando comecei a trabalhar com Brecht, dirigida pelo Cacá Rosset, eu tinha um compilado de textos. Entre eles, A velha dama indigna, na qual Brecht fala sobre sua vó. Uma mulher simples, de uma cidade pequena na Alemanha, com cinco filhos nas costas. Ela gostava muito de viver essa vida mais provinciana. Uma forma de viver mais tranquila. Fazia mais o que os filhos queriam. A mãe generosa que se deixa levar pelos anseios dos filhos. Depois da morte do marido, isso ficou ainda mais forte.

Mas há uma ruptura nessa história... 
O Brecht começou a perceber estas vontades contidas nela: andar pela cidade à noite, ir ao cinema, tomar vinho com um padre da capela que frequentava. Há uma parte que eu adoro: ela faz uma sopa cheia de legumes e os filhos perguntam: “Mamãe, por que fez uma sopa que ninguém gosta?”. Ela responde: “Eu gosto”. De repente, em um boteco, ela conhece uma mocinha ingênua. E fazem amizade. A Sra. Brecht aceita a mocinha exatamente como ela era. E a mocinha passa a frequentar a casa dela e a fazer parte do casarão. Daí, dois anos depois, a velha morreu. De alguma forma, foram naqueles dois anos que a senhora, de fato, viveu. Ela habitou a vida por dois anos. Até então, habitava somente um casarão.

E você encarou essa história nos palcos, daí a referência... 
As pessoas viam aquela senhora passeando à noite pela cidade e passaram a se referir a ela como a “velha dama indigna.” Como eu fiz a peça, e me comovo com o enredo, também passaram a me chamar de “a velha dama indigna”. E eu também aceitei.

Você começa no teatro sob os cuidados de gente como Zé Celso e Augusto Boal. Está faltando um pouco do Teatro do Oprimido no panorama atual? 

Acho que sim. Podíamos experimentar mais.

Quando você faz Tapa na Pantera, há uma motivação pessoal no sentido de pedir pela legalização da maconha? 
Sem dúvida alguma. Algo que mantenho até hoje.

No vídeo, você brinca com o fato de fumar maconha há 30, 40 anos e não se viciar... 
Já devem estar passando dos 50 anos. E ainda sem me viciar (risos). Tanto que já faz um tempo que não fumo. Parei, do nada. Não anda batendo vontade. Mas se tiver uma sobrinha aí, podemos conversar (risos).

Entre a internet, tevê, cinema, teatro, os palcos parecem ser seu local favorito. A opção majoritária pelo teatro é sua? 
Sim. Eu escolho o teatro. No caso do cinema, foram poucos convites. Eu gostaria de fazer um pouco mais de cinema. Ganhei meu primeiro prêmio de cinema ano passado, veja só, por O jogo das decapitações, de Sergio Bianchi.

E encenar seu próprio enterro? De onde vem essa provocação? 
De repente, eu escutei uma voz do além me dizendo isso. Que eu deveria trazer meu velório para o palco. E eu trouxe. Quando termino de fazer o espetáculo, se é que posso chamar de espetáculo, fica aquele silêncio. As pessoas sem saber como reagir. Eu fico ali deitadinha. A morte continua sendo um mistério, embora as pessoas pareçam mais familiarizadas com o tema.

Você tem medo da morte? 
Meu irmão teve um câncer e um problema nos rins. Foi obrigado a tirar um dos rins. Antes de morrer, ele confessou à minha cunhada que teve medo. O medo do meu irmão me pegou. Agora, tenho medo. Mas vou superá-lo. A arte ajuda.

Você encarou todos os ditos tabus nos palcos... Faltou canalizar algo, enquanto artista ou pessoa? 

Canalizei todos. Mas acho que o velório é uma coisa, o epitáfio é outra. E eu ainda não entrei no epitáfio. 

 


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 * O repórter viajou a convite do Sesc.

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