Diversão e Arte

Banda portuguesa Deolinda lança quarto disco e anuncia show no Brasil

Quarto álbum de estúdio do quarteto é considerado um dos mais importantes da década para a música patrícia. Leia entrevista

postado em 23/03/2016 11:16
Ironia de qualidade: Luís José (violão), ao lado do irmão Pedro (violão), da prima Ana (voz), que é casada com Zé Pedro (baixo)
Uma das mais expressivas bandas da renovação musical portuguesa, a Deolinda escolheu Corzinha de verão para ser a primeira faixa do novo álbum, Outras histórias (Sons em Trânsto/Universal, R$ 28,95 no iTunes), a ganhar o mundo. A canção tem pegada de hit - é uma baladinha praieira -, mas chama a atenção por, principalmente, ser uma perfeita amostra de características bem próprias da Deolinda: a ironia e da habilidade de modernizar elementos arraigados na música de Portugal. O trabalho foi lançado neste mês e aclamado como um dos álbuns mais importantes da década para o país patrício.

[SAIBAMAIS]"Corzinha é a música de estreia porque estamos no inverno em Portugal (risos). Tinha tudo para ser um clichê do verão, mas, ao contrário disto, está a falar do inverno", brincou Pedro da Silva, compositor de todas as canções da banda, em entrevista por telefone. Os Deolinda ousam não apenas na ironia, mas na estética - com estruturas e formas mais tortas e experimentais. Destaque para Nunca é tarde que brinca com os "timbres" da Orquestra Sinfonietta de Lisboa. "Tivemos a ajuda de um grande mestre que é o Frederico Mello, arranjador de cordas fantástico. Estas parcerias também foram encontrando ritmos diferentes. E, num piscar de olhos, há balanços africanos e brasileiros no disco", comenta Pedro.

Banda já se apresentou no Festival de Inverno de Garanhuns, em 2013E se Corzinha de verão ironiza a falta de Sol, foi em um inverno mais ameno do que o português, o pernambucano, que Ana Bacalhau (voz), Luís José Martins (violão) e Zé Pedro Leitão (contrabaixo), além do próprio Pedro (violão), fizeram o primeiro show no Brasil. Aliás, na América do Sul. Os quatro se apresentaram na Praça Guadalajara (hoje Praça Dominguinhos), durante o Festival de Inverno de Garanhuns, em julho de 2013. Ficaram hospedados em Olinda e tiveram "as melhores impressões", como contou Ana Bacalhau.

Três anos depois, os Deolinda voltarão ao Brasil com o quarto álbum de estúdio, que estreou em primeiro lugar no iTunes português. A turnê de Outras histórias tem mais de 25 datas confirmadas, incluindo palcos na Bélgica e Espanha, e será apresentada na Festa dos Santos Populares Portugueses, no Rio de Janeiro, em 10 de junho. Mais datas ainda estão em negociação.

3 perguntas // Ana Bacalhau (vocal)

Outras histórias é um disco independente?

O processo foi igual aos outros: quando sentimos que estava na hora. E, depois de termos as canções ensaiadas, obviamente, que mostramos as canções à nossa equipe, à gravadora - para eles também perceberem o que estava a acontecer. Mas, na verdade, é um processo muito centrado na banda.

Qual a diferença mais marcante entre a Deolinda que gravou Mundo pequenino e a que chegou ao estúdio para gravar Outras histórias?
A Deolinda de Mundo pequenino era uma banda que queria começar experimentar outros instrumentos, novas formas de apresentar uma canção. Em Outras histórias, a Deolinda é uma banda que já teve esta experiência e tem essa segurança de arriscar em coisas que nem pensávamos fazer. E avançar um bocadinho mais.

E as referências também mudaram?

As referências que mudaram foram as do cotidiano. Ou seja, a Lisboa de 2016 está diferente da Lisboa de 2013. Ou de 2008, quando nós começamos. E, portanto, a nossa música tenta refletir um pouquinho daquilo que observamos. Lisboa e Porto, as duas maiores cidades de Portugal, vivem uma multiculturalidade, um comospolitismo muito interessante. E depois nós viajamos o mundo inteiro, então, é natural que essas influências de outras culturas, de outros sons vão entrando na nossa música.

3 perguntas // Pedro da Silva Martins (violão)

Você é considerado o compositor mais prolífico de Portugal hoje e colabora com nomes como Ana Moura e António Zambujo. Como distribui o que compõe?

Em princípio, quando faço uma melodia, ainda sem ter letra, já sei para quem é. Não sei explicar muito bem, mas é que faço com uma voz na cabeça, uma ideia de voz que tenho. Também tento desenvolver um trabalho diferente para cada um. O próprio Desfado [disco de Ana Moura] é diferente da Deolinda, que é diferente do Zambujo. Tenho conseguido gerir essas diferentes vozes e tentar evoluir em caminhos diferentes.

O processo de compor Outras histórias ocorreu enquanto seu pai estava hospitalizado. Ainda assim, o disco é solar. Como você conseguiu?
Foi o disco mais difícil para mim, como compositor. Tinha meu pai muito doente e minha relação com ele sempre foi musical: ele era a primeira pessoa a quem mostrava as canções, o primeiro crítico. Como eu iria passar muito tempo com ele, fui aproveitando também para que acompanhasse tudo. Até o último momento, ele ouviu música - que era o que gostava, ouvir os filhos tocarem. E esse espírito que ele tinha, e também tenho, de olhar para vida de forma espirituosa, passou às canções. O disco tem a energia dele também.

A música portuguesa vive momento de popularização no Brasil. Por quê?
Talvez nós estejamos mais adocicados. Este movimento musical do fado com outros ritmos é menos ortodoxo, mais universal. Acho que a linguagem do fado mudou - falo fado porque é o mais conhecido, mas me refiro à música portuguesa. O António Zambujo tem um balanço que é fácil para quem ouve bossa nova. Carminho já tem canções com o tempo mais acima do fado e é mais familiar para quem ouve samba. Portanto, há aqui uma aproximação natural, que vai crescendo com tudo que se vai ouvindo. A kizomba , o kuduro, outros ritmos que vamos assimilando e vão tirando a música portuguesa da caixa.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação