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Correio Braziliense

Sucateados, prédios como o do Teatro Nacional se transformam em ruínas

Artistas tentam reagir, mas falta interesse de parte da sociedade em cobrar mudanças


postado em 07/06/2016 07:30 / atualizado em 07/06/2016 12:40

O Governo do Distrito Federal é dono de 17 equipamentos culturais. Eles estão distribuídos pelas cidades e pelo Plano Piloto e deveriam ser espaços de proteção e fomento da diversidade cultural da capital. No entanto, boa parte deles agoniza. O Teatro Nacional, o Espaço Cultural Renato Russo e o Museu de Arte de Brasília (MAB) estão fechados. Este último, aliás, está em ruínas há quase 10 anos. Os que ainda mantêm as portas abertas têm problemas e, muitas vezes, operam de maneira precária. É o caso do Memorial dos Povos Indígenas, que lida com infiltrações, falta de climatização e iluminação natural que pode acelerar o processo de deterioração do acervo. Ou o Museu Vivo da Memória Candanga, cujas casas em madeira remanescentes dos primeiros anos de Brasília correm o risco de serem destruídas por cupins ou apodrecer.

Este ano, o orçamento destinado à cultura no DF foi de R$ 159.806.621. O total corresponde a 0,38% do orçamento aprovado pela Câmara Legislativa para a cidade. É pouco para manter os 17 equipamentos culturais, mas é também um reflexo da situação nacional: raras vezes o Ministério da Cultura (MinC) chegou a atingir mais de 1% do orçamento federal. O resultado são museus às traças, teatros caindo aos pedaços e espaços culturais de portas fechadas. Cultura se cultiva com educação. Como esta última também sofre duros golpes no Brasil, a consequência é óbvia. No entanto, não se constrói identidade nem sociedade sem cultura. Ou até se constrói, mas o resultado costuma ser lamentável. Cultura é também um poderoso instrumento de inclusão social. E, num país como o Brasil, com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) tão deficiente, que o coloca em 75º lugar numa lista de 188 países, incluir jovens em situação de risco é vital. O Diversão&Arte diagnosticou a situação dos principais equipamentos da cidade e fez um mapa invertido: nem sempre as instituições prometidas aos turistas nos guias distribuídos pela cidade correspondem ao que prometem. Veja o estado dos locais que deveriam proteger o patrimônio cultural brasiliense:


(foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)

O MAB, o Teatro Nacional e o Espaço Cultural Renato Russo estão fechados. Na UnB, o Teatro Helena Barcelos, projetado com uma tecnologia que permite um palco móvel, está interditado desde 2011. O Teatro da Faculdade Dulcina de Moraes oscila entre o fechamento e a revitalização. E, enquanto isso, a cultura perde espaço na cidade. A sociedade precisa se manifestar, destaca o multiartista Bené Fontelles, que se mostra desanimado ao constatar o desinteresse dos brasilienses na questão. “A raiz disso é a educação”, desabafa. Enquanto isso, na Câmara Legislativa, nenhum dos 24 distritais apresentou qualquer projeto que vise a preservação desses espaços ligados à cultura, como reconhece o presidente da Comissão de Educação, Saúde e Cultura, deputado Reginaldo Veras (PDT). Veja abaixo o estado dos equipamentos culturais mais importantes de Brasília.

Teatro Nacional Claudio Santoro

A tradicional sala, um dos principais palcos e pontos de cultura da cidade, permanece fechada há mais de dois anos. O local foi interditado em 2014 e, desde então, artistas e produtores da cidade perderam o importante espaço que não encontra correspondente em iluminação, acústica e estrutura geral. O movimento Ocupa com arte, que acontece sempre no último sábado de cada mês, faz coro a outros atos e inciativas, na tentativa de manter firme a ideia de que o teatro precisa reabrir suas portas. O Teatro Nacional é um dos poucos locais em Brasília com estrutura para receber grandes espetáculos como óperas, balés e musicais e, com as portas fechadas, a cidade permanece mais distante do circuito nacional e internacional de produções culturais de grande porte. Negro Val, um dos criadores do movimento de ocupação do espaço afirma: “São fatos recorrentes na atualidade, as ocupações de espaços estatais como forma de protesto e manifesto. O nosso movimento começou em fevereiro deste ano, com um abraço simbólico. O que seria apenas um momento, se transformou na necessidade de ocupar mensalmente aquele lugar, com atividades artísticas de forma a chamar atenção das pessoas para o teatro”.

MAB

(foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)
A doença crônica do Museu de Arte de Brasília (MAB) já se arrasta por quase uma década. Fechada em 2007, por recomendação do Ministério Público — as condições do prédio que abrigava o museu eram tão precárias que o acervo corria perigo —, a instituição seria uma pequena joia do Distrito Federal, caso não tivesse sido sucateada. A coleção de mais de 1.300 obras está guardada no Museu Nacional da República, mas o prédio que a abrigava, no Setor de Hotéis Norte, está em ruínas, em uma área na qual a especulação imobiliária corre solta.

Espaço Cultural Renato Russo

(foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)
Em dezembro de 2013, a Agefis decidiu interditar o Espaço Cultural Renato Russo por falta de adequação às normas básicas de segurança. Foram 12 as notificações do órgão, que apontava problemas como deficiência na rede elétrica, infiltrações e falta de acessibilidade. O Renato Russo é o mais importante espaço cultural destinado aos jovens no Plano Piloto. Com salas de oficinas, dois auditórios, um teatro e duas galerias, o local já foi referência para formação de profissionais ligados à cultura e ponto de encontro entre adolescentes das mais variadas tribos. Inaugurado em 1993, o local já passou por algumas reformas, mas nunca chegou a ficar tanto tempo de portas fechadas. Segundo o secretário de Cultura, Guilherme Reis, a licitação para a reforma do espaço deve sair ainda neste semestre, mas a previsão já é resultado de um atraso.

Centro de dança

(foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)
Inaugurado em 1995, o Centro de Dança é o único equipamento com obras iniciadas, avançadas e com data de conclusão prevista para novembro. Mas é também um espaço sofrido. O prédio pertencia à Petrobras e foi construído nos anos 1960 para servir de alojamento aos funcionários. No fim da década de 1970, com um laudo de comprometimento por conta de uma rachadura, foi objeto de troca com o GDF: a Petrobras cedeu o prédio e ganhou postos de gasolina, apesar de o prédio estar condenado.

Memorial dos Povos Indígenas

(foto: Claudio Reis/CB/D.A Press)
(foto: Claudio Reis/CB/D.A Press)
Projetado por Oscar Niemeyer em 1987 e inspirado na maloca redonda dos povos Yanomami, o Memorial dos Povos Indígenas já foi fechado algumas vezes, mas desde 1999 está com as portas abertas. Sem orçamento, funciona de forma precária, com deficiência de pessoal e comprometimento nas instalações. Há problemas de infiltração no teto, os filmes que protegem o acervo do sol estão desgastados, a climatização é inexistente e uma série de fendas naturais da arquitetura do prédio permitem a entrada de água quando há muita chuva. A coleção formada por 382 peças representativas de diversas etnias e doadas em 1997 pelos antropólogos Darcy e Bertha Ribeiro está em constante ameaça. O acervo precisa ser higienizado e catalogado, mas não há dinheiro para isso.

Teatro Dulcina de Moraes
(foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
(foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
Eixo pulsante do Setor de Diversões Sul, o teatro da Faculdade Dulcina de Moraes luta pela retomada dos tempos áureos do local. O projeto Dulcina Vive, com expansão para o Conic, revitalizaria e transformaria novamente o local em espaço de encontro e criação, assim como ocorre em países desenvolvidos e civilizados.
Palco dos mais diversos estilos, gostos e gêneros, o Teatro do Dulcina já abrigou importantes nomes da cidade e há anos alunos, professores e produtores lutam pela reforma de sua estrutura precária. Coordenadora do projeto Dulcina Vive, Brunna Rosa conta que a atual movimentação cultural é resultado do esforço coletivo de artistas da cidade, que prezam por manter vivo o local.

 

Teatro Helena Barcelos 

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Localizado dentro do departamento de artes cênicas da Universidade de Brasília, o teatro Helena Barcelos, que foi projetado para ser um diferencial na cidade, com palco móvel e possibilidade de diversos arranjos de plateia, permanece interditado desde 2011. Chefe do departamento desde 2015, a professora Nitza Tnenblat afirma que a ausência de um espaço adequado prejudica a formação profissional dos artistas que se formam no departamento. A artista afirma que existia um projeto de profissionalização, para que alunos graduados pudessem entrar em temporada no semestre seguinte ao da formatura. “A ideia do projeto era já colocar os artistas em contato com esse meio profissional. Além disso, a presença do nosso teatro amplia a comunicação e relação entre o meio acadêmico e a sociedade”, declara. 

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