Publicidade

Correio Braziliense

A partir de amanhã, dois festivais reúnem cultura e gastronomia na cidade

Slow Filme e Festival Luminoso Cine Bar têm a gastronomia (e a boêmia) como ponto central


postado em 14/09/2016 07:01 / atualizado em 14/09/2016 08:32

(foto: O longa suíço Mais que mel, de Markus Imhoof, foi um dos selecionados pela curadoria: produção alerta sobre o fenômeno de desaparecimento das abelhas do globo terrestre )
(foto: O longa suíço Mais que mel, de Markus Imhoof, foi um dos selecionados pela curadoria: produção alerta sobre o fenômeno de desaparecimento das abelhas do globo terrestre )

Cultura e alimentação são elementos indissociáveis na evolução humana. Seja nos hemisférios Norte ou Sul, o que se vê, no entanto, é uma relação conflituosa entre homem, comida e natureza. Os dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) entristecem: enquanto 1/3 de todo alimento produzido no mundo vai para o lixo, uma a cada oito pessoas passa fome no planeta. Preocupada com esta questão, a 7ª edição do festival Slow Filme, realizada em Pirenópolis entre os dias 15 e 18 de setembro, dá vazão a produções cinematográficas que evidenciam os bons exemplos, em sentido contrário ao desperdício do consumo de massa: a compra de pequenos produtores, o fortalecimento de mercados locais, a difusão de conhecimentos ancestrais e uma relação aproximada entre quem come e quem produz.

Em quatro dias, serão exibidos 24 títulos que têm por base o conceito de quilômetro zero, termo importado do slow food (movimento criado na Itália há 20 anos em prol de uma gastronomia sustentável). A tese de que os alimentos deveriam percorrer a menor distância possível entre campo e mesa é defendida, ainda que indiretamente, na maior parte das produções. Películas da Espanha, de Portugal, da Suíça, do Reino Unido e do Japão constam entre as escolhidas pelo curador, Sérgio Moriconi. Curtas e longas-metragens tiveram, por critério, reforçar uma nova relação com a comida e que, curiosamente, volta ao olhos para tradições ancestrais.

“Nosso objetivo é mostrar alternativas a essa cultura gastronômica homogeneizada. Por isso se chama Slow Food, referência ao movimento que prega a alimentação de forma saudável. Queremos mostrar outros planos para esse tipo de alimentação de massa e industrializada, péssima para o planeta e para os indivíduos”, adianta  Moriconi.

Inéditos, dois filmes premiados em Portugal serão lançados no evento: Esporão & A comida portuguesa a gostar dela própria e A música portuguesa a gostar dela própria, ambos produzidos por Tiago Pereira. O realizador, aliás, estará presente no evento e participará de um bate-papo com a plateia. Do Brasil, Leonardo Brant também falará com o público sobre Comer o quê?, documentário que investiga os hábitos do brasileiro à mesa que conta com depoimentos de chefs como Alex Atala, na lista dos melhores do mundo da revista especializada Restaurant. O encontro, na sexta-feira, será marcado, ainda, pela degustação promovida pela chef Regina Tchelly, idealizadora do projeto Favela Orgânica, e quitutes elaborados pelas cooperativas que compõem a Central do Cerrado, instituição criada para difundir ingredientes do maior bioma do Brasil.

Aqui, nessa mesa de bar 

Relações antropológicas também pontuam parte da programação do 1º Festival de Filmes sobre Bares de Brasília — Festival Luminoso Cine Bar, que acontece simultaneamente ao Slow Filme no Bar do Beco, na 407 Sul. O casamento entre o que se come —  e, principalmente, se bebe — e a sétima arte é tônica do evento. Por sua vez, essa troca tem viés menos politizado e foca em um aspecto mais descontraído: a boemia brasiliense. A seleção foi aberta a filmes com duração de um a três minutos, profissionais e amadores, voltados a quem enxerga nas mesas de bares locais uma espécie de infinito particular, onde cabem dores, delícias, frustrações e comemorações. As inscrições podem ser feitas até amanhã, às 22h.

O único critério é que os curtas — inclusive aqueles filmados em celular — tenham como cenário algum botequim de Brasília, projetando um retrato das situações cotidianas que o circundam. A ideia foi da produtora Ana Evelin, que transformará a quadra em um cinema a céu aberto com ambientação em cobogó e piso sustentável, confeccionado com restos de rolo cinematográfico. “Parceiros na realização do evento, a Trupe Filmes e o Iesb montarão uma estrutura de estúdio e filmarão os quatro dias, num divertido making of que será exibido no encerramento do festival”, adianta a realizadora.

O vencedor na categoria Melhor filme (Prêmio Festival Luminoso) ganhará a realização de um curta de 15 minutos com produção da Trupe Filmes. A melhor fotografia (com troféu batizado de Brasília Luminosa) levará para casa a quantia de R$ 3 mil. O vencedor por júri popular abocanha uma passagem de ida e volta para o Rio e 10 refeições no Bar do Beco. “Os primeiros fotógrafos e cineastas de Brasília estavam em botequim produzindo cinema. Estamos inaugurando esse formato, que remete às origens da cidade, com respeito a diversidade, transformando o espaço comum e estimulando a produção artística. Cabe tudo na mesa de bar. Por quê não um cinema também?”, indaga Evelin.

Duas perguntas | Sérgio Moriconi 
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)

Quais foram os critérios usados para selecionar os 24 títulos que compõem o festival?
O critério primordial, que nos acompanha desde a primeira edição: filmes que girem em torno de culturas locais. Esse é o espírito do festival. Procuramos uma diversidade de países que façam um painel significativo de muitas culturas. Alimentação tem tudo a ver com cultura local.

Como anda a consciência popular em relação à forma como nos alimentamos?
Aqui em Brasília há muitos eventos gastronômicos. As pessoas estão cada vez mais conscientes de que devem olhar com mais atenção ao prato. Sou filho de italianos e vou muito para lá. Certa vez, na Úmbria, pedi um vinho da Toscana. E me questionaram por que estava pedindo um produto de outra região — que ficava a uns 20km. Em vez da comida que viaja milhares de quilômetros, por que não comer o que se fabrica localmente?

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade