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Correio Braziliense

Cineasta evoca a trajetória e a relevância de Francisco Sérgio Moreira

Simples e modesto, como o nome que trazia do berço, um verdadeiro sinete premonitório


postado em 24/09/2016 15:58


Antes e depois de me transferir para Brasília nos anos de 1970, vivi longa e intensa ligação com a Cinemateca do MAM, no Rio de Janeiro. Um dos personagens com quem convivi nessa fase foi sem dúvida Francisco Sérgio Moreira, uma flor de gente, aproximação nascida da amizade comum de Cosme Alves Neto, que a todos nos acolhia ali e foi quem nos apresentou para uma experiência vivenciada nos corredores, “geladeiras” repletas de rolos de filmes, nas salas de ronceiras moviolas.

Nos porões, Chico mergulhava fundo, com fôlego de sete gatos, sabendo onde encontrar no meio daquela pletora, só aparentemente desorganizada, o mais ínfimo e desimportante registro em filme. Tinha tudo mapeado na cabeça, o que em suas buscas dispensava qualquer roteiro ou anotação, antecipando-se até mesmo aos computadores e aos modernos thesaurus de hoje.

Simples e modesto, como o nome que trazia do berço, um verdadeiro sinete premonitório, a lembrar o santo povero de Assis, emblema de total doação, como irremissível advertência de seu destino missioneiro. Um preservador e restaurador quase fanático, era um devorador de livros acerca de seu métier, sendo detentor de invejável bibliografia técnica e estética, no meio dessa a coleção completa da revista American Cinematographer, uma espécie de bíblia do cinema.

Sua fome insaciável de conhecimento levou-o por seca e meca, mundo afora: a Londres, à Alemanha Oriental, aos Estados Unidos - à Kodak e Universidade da Califórnia —, à França, de Henri Langrois e Jean Rouch, à Cinemateca Francesa e ao Museu do Homem. Por quase três décadas, nessas suas andanças, desde os anos 1980-1990, nos perdíamos um do outro, mas o fio indissolúvel era ternamente retomado por Marcos de Souza Mendes, seu hospedeiro sempre que passava por Brasília. E lá íamos os três na troça, entre piadas e recíprocas gozações.

Corpo e alma
Chico a rir aquela risada meio nervosa que raspava na garganta, num jeito todo seu. Foi num desses encontros que ele, já trabalhando na Labocine, alertou-me para as ameaças de deterioração do negativo do meu curta-metragem A bolandeira, sob a guarda daquele laboratório. Valeu o susto e com sorte consegui salvar o filme graças à generosa intervenção de Walter Salles, que num gesto desinteressado custeou todas as despesas com sua completa restauração. Devo a ele em grande parte a existência de preciosa e nova matriz da película.

Em outra ocasião, já em 2003, Chico foi de uma dedicação e proficiência exemplares, entregando-se de corpo e alma à restauração de O país de São Saruê, que se encontrava com seus negativos devastados por toda sorte de fungos — o mais atingido de todos os meus filmes. Foi salvo pelo gongo, por meio dos recursos obtidos por Myrna e Carlos Brandão; e aí ele se superou realizando verdadeiro milagre, numa alquimia que incluiu noites em claro e muita paciência.

Laços afetivos
Tudo por pura amizade e consideração. Esse episódio reforçou os nossos laços afetivos e, a propósito, jamais posso esquecer que há poucos anos, numa sua viagem ao Nordeste, fez questão de fotografar-se junto a uma placa à beira da estrada indicando a entrada para Sousa, cidade do sertão da Paraíba que ele sabia ser para mim o coração geográfico de São Saruê. Tenho-a como emblemática de nossa camaradagem.

Oito meses depois de mais um encontro nosso em Brasília - onde compartilhamos uma mesa de debates no CCBB, em que pela enésima vez falamos de restauração e preservação de filmes, com direito ao final a mais uma divertida esticada com Marquinhos Mendes - a notícia de sua morte nos desnorteou num terrível sobressalto, como se a terra literalmente nos fugisse dos pés. Um choque para o qual não estávamos preparados, por sabê-lo saudável e bem disposto para a vida.

Cogita-se até hoje dos seus motivos ou sobre que tipo de protesto ele quis sinalizar com sua tresloucada atitude final de suicida. Até onde irão nossas conjecturas para explicá-la? O mistério de sua morte fica assim suspenso sobre um abismo de dúvidas, enquanto remanesce em nossa memória as doces lembranças do fiel amigo e companheiro de ofício, com sua inesquecível risada tão funda e legítima que raspava na sua garganta.

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