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Correio Braziliense

Brasília celebra o centenário do samba

O Diversão & Arte homenageia os 100 anos do samba com uma retrospectiva dos principais momentos do gênero na capital


postado em 04/12/2016 07:51 / atualizado em 04/12/2016 10:20


Há 100 anos, Donga gravou Pelo telefone, uma composição dele em parceria com Mauro de Almeida que mudaria para sempre a história da música popular brasileira. Era o registro do primeiro daquele que se tornaria o mais original dos gêneros musicais brasileiros. A canção marcou a transição do maxixe para o samba. Quase cinco décadas depois, Brasília, recém-inaugurada, recebia os primeiros sambistas — servidores públicos transferidos do Rio de Janeiro para a nova capital. Desde então, a cidade se transformou em um dos principais polos criativos do ritmo, com espaços agitados pela cena dos bambas que marcaram história no Distrito Federal. O Diversão & Arte homenageia o centenário do samba com uma retrospectiva dos principais momentos do gênero na capital. Do surgimento da Associação Recreativa do Cruzeiro (Aruc), em 1961, aos artistas que fazem sucesso aqui e no resto do país.

1960
O que a Casa de Tia Ciata, no centro do Rio de Janeiro, e a Associação Recreativa Unidos do Cruzeiro, no Gavião, em Brasília têm em comum? Distanciadas geograficamente e pelo tempo, ambas, em diferentes épocas, foram o berço do samba. Enquanto, há 100 anos, o local onde residia a babalorixá baiana se tornou o ponto de encontro de compositores que criariam o nosso gênero musical mais representativo; aqui, pioneiros, quase todos cariocas, promoviam no fundo do quintal de suas residências as primeiras rodas de samba na nova capital.

Das reuniões organizadas por Tia Ciata (no mesmo local onde ocorriam cultos afrobrasileiros), com a participação de futuros bambas como Donga, João da Baiana, Sinhô, Pixinguinha e Heitor dos Prazeres surgiria, em novembro de 1916, um novo ritmo, representado por Pelo telefone, de Donga — historicamente o primeiro samba gravado.

Já numa das rodas na residência de um dos moradores do futuro Cruzeiro Velho, foi criada a Aruc (foto), como lembra o aposentado Luis Salgueiro de Amorim, mais conhecido como Luis Cabide. Do alto dos seus 76 anos,  ele conta: “Nos reunimos na casa do Paulo Marujo, cabo da Marinha, ao lado de outras 12 pessoas, e fundamos a Unidos do Cruzeiro. Daquele grupo, além de mim, os únicos sobreviventes são Camilo, Euclides, Jorge e Pita”
 
A Associação Recreativa do Cruzeiro - Aruc (foto: Arquivo/Aruc)
A Associação Recreativa do Cruzeiro - Aruc (foto: Arquivo/Aruc)
 
 
Todos eles participaram do primeiro desfile de escolas de samba, na plataforma superior da Estação Rodoviária, vencido pela Alvorada e Ritmo, agremiação criada por moradores das quadras 410/411 Sul. Segundo Hélio dos Santos, ex-presidente e profundo conhecedor da história da Aruc, as reuniões dos sambistas ligados à Azul e Branco (que anos depois viria a ser batizada pela Portela) ocorriam ao relento, na Quadra 21 (atual Quadra 5) do Cruzeiro Velho.

Naquele bairro existia um clube chamado Cruzeiro do Sul, onde na primeira metade dos anos 1960 a Aruc promoveu shows de Eliana Pitman e Oswaldo Nunes. “Numa outra oportunidade, a escola recebeu a visita de ninguém menos que Cartola e Dona Zica da Mangueira”, revela Hélio. Ele diz que, naquele período inicial da cidade, eram poucos os shows de samba. Sabe-se que quem costumava vir a Brasília para cumprir temporada, no antigo Hotel Imperial, na W3 Sul, era o compositor Herivelto Martins, sempre acompanhado por seu conjunto.

1970
A década de 1970 foi marcada por alguns acontecimentos relevantes relacionados com o samba. Um deles foi a incorporação da área antes ocupada pelo clube Cruzeiro do Sul pela Associação Recreativa Unidos do Cruzeiro, que ali construiu sua sede provisória, onde realizava os ensaios para o carnaval, a roda de samba no Botequim da Aruc; e recebeu grandes nomes do samba, como João Nogueira, Roberto Ribeiro, Moreira da Silva. Outro foi o surgimento da Acadêmicos da Asa Norte (com as cores vermelho e preto, batizada pelo Salgueiro), que no futuro viria a ser a maior rival da Azul e Branco do Cruzeiro.

Outro importante movimento foi o proporcionado pelo Clube do Samba (foto), iniciativa de Carlos Elias, que ocupava o Teatro Galpãozinho, na entrequadra 507/ 508 Sul. “Ligado ao samba, no Rio de Janeiro, desde a adolescência, quando vim transferido pelo Itamaraty para Brasília, logo procurei tomar contato com sambistas e apreciadores desse gênero musical na cidade”, recorda-se.

Primeiro, o ex-integrante da ala de compositores da Portela se associou a Paulo Brandão numa casa noturna chamada Camisa Listrada, na Galeria Nova Ouvidor, no Setor Comercial Sul. “Ceiamos um ambiente com uma decoração bacana, levamos vários grupos de samba a se apresentar ali, mas por vários fatores durou menos de um ano”, conta.

Logo em seguida, sem perder o entusiasmo, Carlos Elias criou o Clube do Samba, que funcionou entre 1978 e 1981 e entrou para a história da música na capital. “Por lá passaram as figuras históricas de Manoel Brigadeiro, Julinho do Samba, os sambistas Edinho da Magali e Zeca Melodia e a cantora Vanja, que hoje mora na Suiça. Recebemos numa daquelas noites memoráveis Paulinho da Viola, depois de um show dele no Teatro da Escola Parque”.

Já no fim dos anos 1970, surgiu o Casarão do Samba, onde hoje existe o Museu de Arte de Brasília. O lugar foi igualmente marcante para os cantores e grupos brasilienses. O anfitrião da casa era o conjunto Pernambuco do Pandeiro e suas mulatas — a mais conhecida era a escultural Neide —, que recepcionava outros artistas, inclusive quem vinha de fora, como o lendário Jamelão, intérprete de sambas-enredo da Mangueira por anos a fio.

(foto: Arquivo Pessoal )
(foto: Arquivo Pessoal )
1980
Quem dominou a cena do samba em Brasília na década de 1980 foi um grupo chamado Sambrasil, liderado pelo pandeirista Pelezinho, um músico talentoso que hoje, aos 70 anos, voltou a morar no Rio de Janeiro e participa do Samba da Sopa, roda comandada por Júnior (ex-craque do Flamengo e da Seleção Brasileira e hoje comentarista esportivo da TV Globo), na Barra da Tijuca.

“Comecei minha carreira no fim dos anos 1970, mas foi na década seguinte, quando, junto com Celso (cuíca), Zezinho (surdo), Mauro (agogô), Josias (cavaquinho), Cecílio (tamborim) e Tatão (vocal), criamos o Sambrasil, que veio o sucesso. Éramos chamados para tocar nos mais diferentes eventos em Casas noturnas, como Fina Flor do Samba, Cavaquinhoclubes sociais”, lembra.

“No período que antecedia o carnaval, animávamos as batalhas de confete, no Plano Piloto e nas cidades-satélites”, acrescenta Pelezinho. O Sambrasil  (foto) abriu shows de grupos famosos como Fundo de Quintal, “com Arlindo Cruz e Sombrinha; e Originais do Samba, que na época ainda contava com Mussum”.

Ivan Mendonça, que também integrou o Sambrasil, relata: “Naquele período, outros grupos de destaque eram o Fino do Samba, Sambaqui Rio e Nó na Madeira. Foi ainda na década de 1980 que houve o lançamento dos dois primeiros LPS intitulados Sementes de Brasília, uma coletânea com a participação de vários compositores da cidade e eu emplaquei sambas em ambos. Mendonça (parceiro de Dinho do Luz do Samba em Overdose de cocada, gravado com sucesso por Bezerra da Silva), mantém-se em atividade e no domingo participa da Plataforma do Samba, na Estação Rodoviária.

1990
Os anos 1990 ficaram marcados pelo reconhecimento de alguns grupos da cidade que surgiram na década anterior, como Coisa Nossa (foto), Luz do Samba e Sampagode. “Os grupos foram de grande importância, foi daí que surgiu a experiência de muitos cantores. Sair do anonimato para ser convidado a participar de bandas que tinham reconhecimento, foi fundamental”, lembra o brasiliense Luciano Ibiapina, que, ao longo da carreira esteve em grupos, como Luz do Samba, Sampagode, Grupo Paparico e Raça Popular, atuando como instrumentista antes de se tornar cantor.

Luz do Samba teve início em 1988 em Sobradinho, com a intenção de mostrar a cultura carioca para os jovens da região administrativa. Nos anos 1990, a banda ficou responsável por abrir a temporada de shows organizados pela Aruc, no Cruzeiro. Um pouco mais antigo é o grupo Coisa Nossa, que continua na ativa hoje pelas mãos de um dos idealizadores do projeto, o músico Marcelo Sena, o único da primeira formação. Nos anos 1990, a banda se apresentava em locais como Cavaquinho, na 408 Sul, e Flor Amorosa, na 02 Norte, até chegar ao Bar do Calaf, no Setor Bancário Sul, nos anos 2000, onde ficou por seis anos. O grupo teve alguns registros fonográficos, entre eles, um LP de produção independente e participou do projeto Sementes de Brasília.

Ex-integrante do Sampagode e de outros grupos brasilienses desse período, o músico carioca radicado na capital Ivan Mendonça roubou a cena nos anos 1990 ao se destacar com composições de samba. Ele foi o vencedor do Prêmio Sharp de Música de 1994 com a faixa Overdose de cocada (uma parceria com Dinho), que foi gravada por Bezerra da Silva. “Militei bastante pelo samba, que teve uma época muito forte em Brasília. Teve uma geração inicial, com Sambrasil, Nó na Madeira e uma geração anterior, como Coisa Nossa e Sampagode”, relembra o artista.

2000
(foto: Limoncino Oliveira/Divulgação)
(foto: Limoncino Oliveira/Divulgação)
O legado de Carlos Elias, Aruc e Cia. segue mais vivo do que nunca na atualidade. Definitivamente, estamos na capital do samba. As rodas estão por todas as regiões administrativas, os cantores e cantoras ganham força e o brasiliense já pode dizer que tem samba no pé.

A cantora Dhi Ribeiro, dos mais respeitados nomes do samba brasiliense, lembra da colaboração da formação musical de nossos artistas. “A Escola de Choro Raphael Rabello, por exemplo, forma músicos da mais alta qualidade. E uma vez formados, eles integram grupos, bandas, rodas, e ajudam a alastrar o samba, o choro, o pagode por todo o Distrito Federal”.

A sambista Renata Jambeiro, uma das grandes expoentes do samba no DF, também logo enaltece a importância dos centros de formação em Brasília: “A Raphael Rabello, a Escola de Música de Brasília, a universidade... são grandes nomes chegando ao mercado. Não à toa, o músico que chega lá fora e diz que é de Brasília ganha logo atenção e respeito”.

Dhi e Renata são representantes de um período fértil para o samba em Brasília. “A partir dos anos 2000, a minha geração teve essa tendência em resgatar as intérpretes, as cantoras de samba, em contraponto às vozes masculinas do pagode da década de 1990. Muitas rodas são comandadas por mulheres”, afirma Renata.

E as rodas, sejam elas puxadas por sambistas homens ou mulheres, não faltam. O Adora Roda  (foto)comanda o pandeiro no Plano Piloto, o Samba na Comunidade virou tradição na Praça da Bíblia no P Norte, a Plataforma do Samba quebra o corre-corre da Rodoviária do Plano Piloto, o Pessoal do Samba homenageia a Velha Guarda e o samba de raiz no mais carioca dos bairros — e primeiro reduto de samba do DF —, o Cruzeiro. Sem falar nas próprias Renata Jambeiro e Dhi Ribeiro, além de nomes como Kiki Oliveira, sempre reverenciados por onde se apresentam.

Não à toa, acabam alçando voos cada vez mais altos e conquistam público do Rio, São Paulo e outros centros. “Em termos de qualidade, não estamos em débito. Pelo contrário. Talvez nossa principal perda se deva à Lei do Silêncio, que impede maior visibilidade aos nossos artistas”, alerta Renata. E o vozeirão de Dhi Ribeiro faz coro: “A Lei do Silêncio, os espaços fechados, a falta de palcos... A cultura de Brasília perde”. Uma reivindicação recorrente de uma classe que se mostra cada vez mais unida e disposta a fazer o brasiliense cair no samba.

Nova geração
Seguindo os passos de nomes como Breno Alves, Renata Jambeiro e Nelsinho Félix, a capital federal tem artistas mantendo o samba forte na cidade, principalmente, ao apostar em projetos locais. É o caso do projeto Já chegou quem faltava (foto), que está prestes a completar dois anos, com edições no Círculo Operário do Cruzeiro.

Criado por iniciativa da cavaquinista Natália Carvalho, 31 anos, a roda tem como objetivo preservar o samba de raiz, de terreiro e da era do rádio de 1920 a 1960. “São edições mensais e já contam com um público assíduo. Acho que o samba em Brasília ele tem um aspecto tradicional, porém com uma pegada inovadora, muito em virtude do choro”, explica.

Hoje, o grupo, formado por João Peçanha, Breno Alves, Fernando Meira, Camyla Hendrix, Janaina Silva, Gisele Barbieri, Gabriela Tunes, George Guterres, Vinicius Quintanilha, Marcos Vinicius, Valério Gabriel, Clebson Marques, Bebeto Freire, Khalil Santarém, Felipe Victório, Rodolfo Miguel, Thaís Siqueria e Natália Carvalho, faz a última edição do ano em homenagem a Candeia, depois a roda retorna em fevereiro.

Levar o samba para mais pessoas é o desejo da cantora Fernanda Jacob, 27 anos, que canta o ritmo há sete anos na cidade. Ela é presença constante no projeto Samba na rua, em que valoriza o samba de raiz. Atualmente, o projeto de Fernanda é fazer uma edição do Samba na rua de forma itinerante.

O percussionista e cantor Jean Mussa é um dos destaques da nova geração. Integrante do grupo Bom Partido, paralelamente, ele desenvolve um trabalho solo, em que pretende lançar um EP até junho de 2017, que terá faixas inéditas de compositores brasilienses, como Hoje tudo é nosso (Zezinho, Dudu e Hermógenes) e Termina aqui (Daniel Pinheiro). “Sempre tive o sonho de gravar alguns sambas românticos. Meu objetivo era tocar o samba autoral de Brasília. Temos vários compositores ótimos, eu queria dar valor a esse material”, diz Mussa.

» Entre rodas e palcos 
Neste 2016, justamente quando o samba ganha status de centenário, Brasília assiste a uma popularidade inquestionável do gênero, principalmente por meio das rodas. E não se fala somente dos eventos protagonizados por Breno Alves, Teresa Lopes, Kris Maciel ou Nelsinho Nélix, que, merecidamente, dão o que falar ao reger passistas, cavaquinistas e percussionistas por todo o DF, mas igualmente das rodas espontâneas, que acontecem nas portas de casa, na calçada do bairro, no vizinho. O samba encarnando seu papel primordial, de acolhimento e coletividade. Assim sempre foi nos morros cariocas, nas feijoadas de Dona Zica, nas letras de Cartola, nos acordes de Nelson Cavaquinho... e nas ruas do Cruzeiro. Nos eixos de Brasília.

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