Publicidade

Correio Braziliense

Tony Bellotto evidencia, na literatura, São Paulo como musa de suspense

Coletânea de contos organizada pelo autor coloca paulistanos no foco de histórias com crimes


postado em 08/12/2016 07:36 / atualizado em 07/12/2016 19:05

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)

 

Dois ingredientes básicos formam a literatura noir: é preciso haver morte e medo. Combinados com um ambiente urbano povoado por desigualdade e violência, o caldo pode render boas histórias. Com esse pensamento, o músico e escritor Tony Bellotto encomendou 13 contos a autores brasileiros contemporâneos com histórias de romance policial passadas na cidade de São Paulo.

O time de São Paulo Noir é formado por nomes como Marcelino Freire, Drauzio Varella, Jô Soares, Marcelo Rubens Paiva, Mario Prata, Ferrez e Marçal Aquino, entre outros — a capital paulista é a protagonista de tramas que envolvem crimes e suspense. “Literatura noir é qualquer texto que revele esteticamente a ambiência e o assombro da morte. Pode ser uma história de detetive, de suspense, um conto fantástico ou de terror. O importante é que se invoque, de alguma forma, nosso assombro perante o enigma da morte”, avisa o organizador.

Todos os contos foram encomendados e escritos especialmente para o livro, o segundo organizado por Bellotto com o mesmo tema. Publicada em 2014, a coletânea Rio Noir reuniu nomes como MV Bill e Luiz Fernando Veríssimo. No volume dedicado a São Paulo, o escritor roqueiro quis manter a mesma diversidade de autores. “Escolhi os autores da mesma forma que procedi em relação ao Rio Noir, tentando formar um panorama variado da cidade em questão, pela ótica ‘noir’, mas também ousando ir além das fronteiras impostas pelo gênero. No Rio Noir juntei autores díspares. No São Paulo Noir você encontra Jô Soares e Ferréz lado a lado. Fico orgulhoso de poder proporcionar isso aos leitores”, conta o Titã.

São Paulo, Bellotto lembra, é uma cidade construída por imigrantes que chegam em busca de ilusões, mas é também uma aglomeração enorme de injustiça social na qual convivem milionários e miseráveis. “Dessas paixões nascem os crimes”, acredita. Quando recebeu os textos encomendados, ele ficou surpreso com a boa vontade dos convidados. Jô Soares e Drauzio Varella, por exemplo, raramente escrevem contos, mas toparam produzir um texto para a coletânea. “Fiquei feliz de conseguir motivá-los a escrever narrativas curtas”, diz o músico e escritor.

Paulistano, Bellotto mora no Rio de Janeiro há décadas e diz não ter tempo para sentir saudades da cidade natal porque faz viagens semanais à terra da garoa. Para ele, São Paulo e Rio se complementam. Do Rio, ele ama a beleza da cidade e odeia os governantes. De São Paulo, destaca a diversidade. “Amo a variedade de culturas que convivem num mesmo quarteirão e odeio o trânsito que me paralisa no mesmo quarteirão”, diz.

Entrevista // Tony Bellotto

O que mudou na sua escrita entre Bellini e a esfinge e Diário inútil, o conto que está no livro?
Escrevo com mais fluência e menos dúvida. O interessante é que Diário inútil é uma história do Bellini, ambientada em 1980, nos dias seguintes à morte de John Lennon. Foi muito divertido escrevê-la, lembrando de minha vida em São Paulo naquela época, quando tinha 20 anos. 

 

São Paulo sempre forneceu bom material para romances policiais e literatura noir. Acha que isso continua acontecendo? 
A questão não é o lugar, mas o talento de quem escreve. Qualquer lugar pode render uma boa história noir, até mesmo um quarto fechado, como comprova o inventor do gênero, Edgar Allan Poe.

Comparando ficção com realidade e pensando no momento político do Brasil, a realidade supera a ficção?
Discordo, a política brasileira renderia ficção noir de qualidade ambígua, por um viés de comédia, de pastiche. Nossos políticos são tão pavorosamente ridículos, que no máximo rendem tragicomédias canastronas.

Como você encara o momento político que estamos vivendo? 
Gosto dessa sensação de que as máscaras estão caindo e de que as verdades estão se revelando. Há uma sensação de caos muito produtiva. Sairemos fortalecidos desses dias confusos.

A literatura contemporânea brasileira anda mais interessante que o rock? 

O Nobel de literatura concedido ao Bob Dylan prova que rock e literatura estão mais próximos do que se pensa. Não sei se a literatura contemporânea brasileira está mais interessante que o rock. Há coisas boas e ruins em ambas as formas. O que posso garantir é que fazer rock é muito mais divertido que fazer literatura.

São Paulo Noir
Organização: Tony Bellotto. Casa da Palavra, 272 páginas, R$ 44,90.

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade