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Correio Braziliense

Claudia Werneck milita há mais de 20 anos em prol de uma cultura inclusiva

A escritora carioca conversou com o Correio sobre os desafios do ativismo pela inclusão de pessoas com deficiência


postado em 18/12/2016 07:33 / atualizado em 19/12/2016 13:37

Claudia Werneck: 'Inclusão é trabalhar com o real
Claudia Werneck: 'Inclusão é trabalhar com o real" (foto: Marcelo Correa/Divulgacao)

A carioca Claudia Werneck era jornalista conhecida quando se deparou com uma reportagem sobre síndrome de Down. Ali, tudo mudou. Claudia abraçou a causa e passou a trabalhar exaustivamente em prol da inclusão. Escreve o primeiro livro sobre o assunto no país e, aos poucos, adentra o meio cultural como ferramenta de acessibilidade e alcance. Hoje, mais de duas décadas depois daquela reportagem, Claudia figura entre as principais referências internacionais no gênero. Talvez por conta do grupo de teatro fundado com a ajuda da filha Tatá Werneck, que pensa em teatro totalmente acessível desde a primeira apresentação, talvez por conta dos 300 mil exemplares vendidos das várias obras publicadas, talvez ainda por conta da ONG Escola de Gente, mas, definitivamente, muito em virtude de um discurso incansável em defesa das pessoas com deficiência. Em passagem por Brasília, em uma tentativa de mobilizar o Congresso a aprovar o projeto de lei que institui o Dia Nacional do Teatro Acessível, Claudia recebeu o Correio para uma conversa exclusiva e atestou, sem medo: "Acessibilidade é pensar em todos. Todos!". 

Entrevista // Claudia Werneck 

Você fala em uma diferença entre cultura acessível e inclusiva...
Às vezes, você pode ter uma cultura totalmente acessível em termos de estrutura. Você tem libras, audiodescrição, programas em braile. Todo o arcabouço instrumental e tecnológico, mas sem o pensamento inclusivo. O tema de uma peça de teatro pode não ser inclusivo. O teatro acessível para gente é necessariamente gratuito, por exemplo, porque 80% das pessoas com deficiência vivem na pobreza. Temos um lema que diz “toda acessibilidade em toda sessão”. As pessoas têm direito de estar no teatro na hora que quiserem. São muitos mais aspectos em conta do que se imagina.

O que é inclusão? 
Para mim, inclusão é simplesmente fazer tudo pensando nas pessoas que existem. E não considerando pessoas que você gostaria que existissem. Então, você faz teatro para quem, de fato, existe, ou para quem você prefere ter na plateia? Inclusão é trabalhar com o real. O real também é uma população com deficiência, analfabeta, pobre, mas que muitas vezes é ignorada por quem pensa cultura.

Pode nos dar um exemplo de omissão? 
A pessoa montar um espetáculo e oferecer uma sessão com acessibilidade uma vez por mês... E achar que isso é o máximo... Não digo que a pessoa está errada, mas é definitivamente muito pouco para nossa realidade.

Como nasce a Escola de Gente? 
Eu sou tomada por essa luta por conta de uma reportagem sobre síndrome de Down que escrevi para revista Pais & filhos, em 1992, que mudou toda minha cabeça. Ali me dei conta que eu tinha uma visão reduzida da humanidade. Eu fazia matérias sobre aleitamento materno, mas não dava dicas para a mulher que não tem um braço e precisa amamentar. Para ela, eu não escrevia. Conexões que nunca fazemos, mas que são humanas. Acabei me tornando uma ativista. Escrevi o primeiro livro sobre síndrome de Down no país para leigos (Muito prazer, eu existo). Depois, parti para pensar democracia, acessibilidade, inclusão, sustentabilidade. Mas a Escola de Gente nasce em 2002.

Com qual propósito? 
Eu estava com 45 anos. Achava que tinha que fazer algo com maior incidência. E pensei numa organização que colocasse a comunicação a serviço da inclusão. Aí a minha filha, Tatá, resolveu levar os amigos da faculdade de artes cênicas para aprender com o projeto. Criaram um grupo (Os Inclusos e os Sisos) que desde a primeira apresentação já se preocupa com a acessibilidade, o que era raríssimo naquela época. Hoje, o grupo já está na 10ª geração, nem sei mais.

Muitos acreditam que sua militância nasce a partir de um convívio pessoal...
Sim, tanto que lá no primeiro livro eu começo dizendo: “Não, eu não tenho um filho ou um parente com síndrome de Down”. Foi interesse jornalístico. Mas, hoje vejo que eu estava pronta para ter uma causa. Eu só não sabia qual era. Até que meu filho, então com 7 anos, chegou em casa e pediu para que eu visitasse o irmãozinho de um amigo dele que tinha nascido. Eu cheguei lá e o bebê tinha síndrome de Down. Quando a mãe soube que eu era da Pais & filhos, ela me pediu ajuda. Ela me perguntava: “Quem é esse menino que chegou?”. Não tínhamos um único livro sobre o tema no Brasil, no começo da década de 1990. Foi quando propus fazer a matéria. Pirei no trabalho. “Desbundei”, como se dizia na época. Eu me tranquei em uma sala com quatro pessoas adultas com síndrome de Down e fui aprender com eles. Era como se tivesse explodido uma bomba dentro de mim. Minha vida muda a partir dali. Eu vi coisas que eu não tinha visto, ao me deparar com minha falta de informação, com meu despreparo.

E aparece o livro... 
O livro chega muito forte. Eu recebi 3 mil cartas em um ano por conta do livro! E eu respondi uma a uma. Mães, pais, pedindo ajuda, desabafando, compartilhando histórias, agradecendo. A repercussão foi enorme. Fiz todos os programas na tevê, estampei todas as revistas. Foi uma loucura aquele começo... Eu não tinha condições de lidar com tudo que estava acontecendo, com todos os pedidos. E ao mesmo tempo eu fazia palestas de graça, ajudava famílias, me envolvia com tantas histórias. Olha, foi muita coisa!

Os seus filhos até hoje estão envolvidos? 
Menos, até por conta do cotidiano insano que levam. A Tatá deixou um legado incrível para o grupo de teatro. Ela fala muito sobre isso, com orgulho. E dá um banho quando surge o assunto, porque foi criada envolta por isso. Mas com o dia a dia dela, fica bem complicado. O meu filho Diego é jurista e também foi fundamental ao criar, lá trás, os encontros da mídia legal, que acabou resultando em manuais utilizados amplamente no país, com orientações sobre terminologia, por exemplo. Ninguém consegue empreender sem o apoio da família.

Quando a gente fala em inclusão ou exclusão social, a gente também acaba falando de negros, gays, pobres. Mas esses temas geram sempre uma segregação, uma discussão imediata, enquanto a questão das pessoas com deficiências parece comover a todos...
É aquele lance de ficar feliz porque não é com a gente. Se eu nasci branco, eu não viro negro. Se eu sou gay, não vou virar hétero. Se eu não tenho deficiência, eu posso passar a ter amanhã. Existe um “Graças a Deus eu não sou assim”. Fora isso, há uma crença generalizada de que as pessoas com deficiência não impactam em nada na minha vida. Um debate que não pauta meu cotidiano, bem diferente das discussões sobre gays e negros que alcançam todos. Então, concordo contigo. As pessoas adoram dizer que estão arrepiadas quando escutam histórias de superação e tal, e digo que se lágrima resolvesse algo não teríamos vários problemas.

Agora, essa sensação de pena, que muitos não assumem, não favorece nada...
Nada. Não leva a lugar nenhum. Temos que atuar no âmbito dos direitos. Nem mais, nem menos direitos. A questão é: o que a gente faz para garantir a equiparação de oportunidades? Ponto. A comoção das pessoas, infelizmente, nada tem a ver com a exigibilidade dos direitos. Falta muito uma visão crítica sobre esse assunto na sociedade. Não é um tema de interesse público. O pensamento inclusivo é um conjunto de reflexões que fortalecem um tipo de sinapse que geralmente não consideramos. Há uma história real que é muito boa para promover essas sinapses, musculação para posturas não desenvolvidas.

Conte-nos, por favor...
Havia, em um hospital público no Rio de Janeiro, uma ala de queimados. E um paciente lá, muito queimado e todo enfaixado, chamava a atenção dos médicos por não sentir dor. Ele nunca pedia por analgésico. E ninguém compreendia como alguém com tantas queimaduras poderia suportar a dor. Era um morador de rua, nunca recebia visitas, acabou morrendo. Mas antes disso, descobriram que era um homem surdo, que só se comunicava por libras. Como estava enfaixado, não conseguia se expressar. A pergunta é: por que nunca consideram que um paciente queimado possa ser surdo? E isso vale para tudo. E o espectador do teatro? A criança estudante? A pessoa ao lado?
 

A ONG Escola de Gente promoveu atividades em 17 países, 21 estados brasileiros, mobilizando 485 mil pessoas por meio de 700 fóruns e conferências, 82 mil publicações e 7 mil horas de cursos de formação para jovens

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