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Correio Braziliense

Ana Miranda faz biografia de Xica da Silva com olhar feminino

Livro é o primeiro inteiramente biográfico da autora


postado em 21/12/2016 07:30

 

Ana Miranda ficou fascinada pelo lado maternal e religioso de Xica da Silva(foto: Mauricio Pokemon/Divulgação - 8/3/16)
Ana Miranda ficou fascinada pelo lado maternal e religioso de Xica da Silva (foto: Mauricio Pokemon/Divulgação - 8/3/16)
 

 

Ana Miranda gosta de dizer que os romancistas são historiadores que fingem mentir, assim como os historiadores são romancistas que fingem dizer a verdade. É uma brincadeira para evidenciar como os limites entre a ficção e realidade são muito tênues, uma característica bastante presente na obra da escritora.

“Na verdade, a coisa é um grande imbróglio sem limites e sem discernimento possível, tudo o que se realiza em palavras tem um lado subjetivo predominante. Para mim, no meu íntimo, sou romancista o tempo todo, fingindo fazer história e dizendo verdades”, revela. Mesmo assim, Ana acaba de lançar aquele que é seu livro mais fiel a uma história que teve data e hora para acontecer. Xica da Silva – A cinderela negra é a primeira biografia não literária da autora de Dias&Dias e Boca do inferno.

É um exercício diferente para quem biografou Gregório de Matos e Gonçalves Dias em uma narrativa belamente romanceada. Agora, a personagem não é fruto de uma construção típica do romance e a narrativa não comporta diálogos ou personagens inventados. Não há, como diz Ana, a presença da literatura.

“No entanto, como sou romancista, tudo acaba sendo romanceado. Cada pessoa escreverá uma biografia diferente da Xica da Silva. O princípio é aquela frase que todos nós dizemos ou ouvimos: minha vida daria um romance. Ou seja, toda biografia não passa de uma ficção”, garante.

Encantamento e olhar feminino

Ana acredita que autores não escolhem personagens, mas são escolhidos por eles. “Xica da Silva me arrebatou desde que ouvi falar nela pela primeira vez, com a sua aura de Cinderela, evocando o mistério do sexo, da sedução, as lições de feminilidade e de superação. Sempre quis trabalhar com a nossa herança africana, pensei mil vezes num romance assim, mas foi a Xica quem veio me abrir essa porta”, conta.

A autora já havia acumulado um bom material desde a publicação de O retrato do rei, romance sobre a Guerra dos Emboabas, o conflito pela exploração das jazidas de ouro de Minas Gerais no início do século 18.

O universo de Xica já era familiar para Ana. “Estive sempre tangenciando o período e a região, nas minhas leituras. Mas a Xica que eu sentia perto de mim, que eu conhecia, era mais lenda. Um dos melhores trabalhos de levantamento desse tema é uma biografia escrita pela Júnia Ferreira Furtado, na qual ela revela muitas outras Xicas da Silva na região e época. Esses fenômenos nunca são isolados”, conta a autora.

A maior parte da pesquisa para retratar Xica da Silva, a escrava alforriada que foi mulher de um explorador de diamantes e virou mito na sociedade de Diamantina em meados do século 18, veio de escritos e pesquisas sobre os costumes da época e da região. Ana traça a trajetória da personagem desde antes de seu nascimento ao contar a história da mãe de Xica, uma escrava mina (vinda da Costa da Mina, no golfo da Guiné) que veio para o Brasil no ventre de um navio negreiro.


Xica da Silva – A cinderela negra é um livro de história combinado com uma reconstituição de cenários em narrativa que privilegia o olhar feminino para uma das figuras mais lendárias do período colonial brasileiro.

Três perguntas // Ana Miranda


Das características de Xica, qual a que mais te surpreendeu
e que é fundamental para compreender a personagem?

A que mais me surpreendeu foi o lado maternal, religioso, caritativo, todo um lado bem-comportado da Xica da Silva, porque só se buscava o seu lado irreverente, poderoso ou sensual. E o que acho fundamental para a compreendermos como ser humano e histórico é o fato de ter sido uma espécie de mecenas da arte, ela construiu um teatro de bolso, mantinha atividades com musicais, teatrais, de dança, de folclore. E a herança negra dela sempre ficou meio de lado, porque ela teve de se assemelhar à fidalguia portuguesa para ocupar o papel social que ela conquistou.

O que a história de Xica representa para a história do Brasil?
Ela tem, em torno de si, todo o segredo da colonização mais cruel, opressora e violenta, talvez, da nossa história. Olhando a Xica da Silva, um historiador pode vasculhar segredos não apenas do enriquecimento, da extração de diamantes, das relações entre rei e súditos, entre Reino e Colônia... Mas segredos de costumes, até mesmo segredos das alcovas coloniais. Dos amores, das artes, da alteridade entre homem e mulher, entre branco e negro. Ela guarda muitos significados.

É importante, para você, estabelecer essa linha entre
a biografia romanceada e a biografia pura e simples?

Não sei se é importante, mas achei simpático e honesto separar, pelo tipo de letra, o que é texto documental ou documentado, do que é um cenário imaginado a partir de uma ocorrência real – como, por exemplo, o primeiro encontro de Xica com o Contratador, ou a partida do Contratador. Estes, os imaginados, mas reais, estão em itálico no livro. Também esse artifício demarca o tipo de narrativa, mais ensaística ou mais romanceada.

(foto: Editora Record/Reprodução)
(foto: Editora Record/Reprodução)

Xica da Silva – A cinderela negra
De Ana Miranda.
Record, 520
páginas. R$ 69,90

 

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