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Correio Braziliense

Sertanejo e funk disputam os topos das paradas de sucesso

Enquanto isso, cada um tenta ampliar seu próprio espaço no cenário da música nacional


postado em 04/02/2017 07:31

Maiara e Maraisa estão na lista dos 10 artistas mais ouvidos do Brasil, assim como outros nomes do sertanejo(foto: Assessoria Maiara & Maraisa/Divulgação)
Maiara e Maraisa estão na lista dos 10 artistas mais ouvidos do Brasil, assim como outros nomes do sertanejo (foto: Assessoria Maiara & Maraisa/Divulgação)
 

 

As épocas de ouro do rock, da MPB e da axé music tiveram fim. Hoje os estilos musicais que ditam tendência, reúnem a massa e têm mais repercussão são  o sertanejo e o funk. Ambos conseguiram derrubar paradigmas, ganharam o Brasil e revelaram estrelas, como Wesley Safadão e Anitta. O Diversão & Arte conta a trajetória dos estilos até o sucesso, e os pontos positivos e negativos da popularização.

Sertanejo, o novo caipira
A origem da música sertaneja no Brasil ocorreu ainda no século 17, no interior do país, com a chegada das violas trazidas pelos portugueses. O primeiro clássico a se tornar conhecido foi Tristeza do jeca, lançado em 1918, de Angelino de Oliveira. A canção  descrevia a cena rural brasileira e também retratava o amor. “Eu nasci naquela serra/ Num ranchinho beira chão/ Todo cheio de buraco/ Onde a lua faz clarão/ Quando chega a madrugada/ Lá na mata a passarada/ Principia um barulhão”, afirma a letra. Uma identidade interiorana que foi se perdendo.

A temática rural ainda perdurou no ritmo até meados dos anos 1960. Buscando uma reformulação, inspirado na urbanização brasileira, em 1970, a veia romântica começou a ser adotada pelos sertanejos. Anos depois, o universitário iria se tornar o ritmo mais popular no Brasil, ao falar de temas leves e cotidianos da vida urbana.

Em uma pesquisa rápida nas listas de músicas mais ouvidas nas rádios e nas plataformas digitais é fácil encontrar o gênero nas primeiras colocações. De acordo como ranking da Connectmix Company, entre os 10 artistas mais ouvidos no Brasil nos últimos dias, apenas um não é sertanejo. A lista tem Gusttavo Lima, Simone & Simaria, Marília Mendonça, Maiara & Maraisa, Gustavo Mioto, Felipe Araújo, Luan Santana e Henrique & Diego.

Em destaque no ritmo desde o ano passado com a música Impressionando os anjos, o cantor Gustavo Mioto credita a massificação do sertanejo com as mudanças que o estilo adotou ao longo dos anos, se aproximando de funk, forró e música eletrônica. “O mercado de sertanejo é atualmente o mais popular do Brasil. Acho que pelo fato de os artistas do ritmo terem topado inserir algumas novidades dentro do estilo. Mesmo assim vejo que há uma valorização do sertanejo de raiz, ainda respeitado”, analisa o sertanejo ao Correio.

Atualmente, o sertanejo canta o amor, a sofrência (antes chamada de dor de cotovelo), a balada e a volta por cima. A temática caipira ficou para os mais saudosistas, nos clássicos. A grande novidade dos últimos anos foi a inserção das mulheres. “O sertanejo é um estilo muito forte e que não sofre mais preconceito. Antes, as pessoas ouviam e falavam que era algo só do interior. Sempre falei essa linguagem (feminina), mas de forma mais tímida em relação ao que elas estão falando agora”, analisa Maria Cecília, da dupla Maria Cecília & Rodolfo.

Funk, a voz da periferia

 

MC Guimê trouxe uma nova característica ao estilo com a funk ostentação(foto: Kondzilla/Divulgao)
MC Guimê trouxe uma nova característica ao estilo com a funk ostentação (foto: Kondzilla/Divulgao)

Movimento cultural que junta características da música negra americana, brasileira e africana, o funk surgiu no Rio de Janeiro em meados da década de 1970 e faz parte da identidade carioca. Para o bem ou para o mal, alheio ao preconceito e cada vez mais midiático, já não se encaixa em um mercado de nicho ou alcance apenas minorias, embora remeta à vozes invisíveis da periferia. Hoje, o estilo funkeiro de vestir, cantar, tocar e se comportar extrapolou as fronteiras do Rio de Janeiro.

Nos últimos anos, de cidades paulistas também têm aparecido nomes de destaque, como MC Guimê, que trouxe uma nova característica ao estilo com a funk ostentação, e MC G15 (carioca de Duque de Caixas, mas morador de SP), com  Deu onda, polido para alcançar um público mais abrangente. Alcançar diferentes públicos foi uma das maiores mudanças que o gênero passou. Essa guinada se estendeu a temática, tão diversa quanto quem se interessa pela sonoridade.

Recentemente, a paulista MC Linn da Quebrada esteve em Brasília. Tocou na festa Factory. Autointitulada a “terrorista do gênero”, a cantora é conhecida por combater o preconceito  a gays e transgêneros. Enviadescer, música mais conhecida, tem a tradicional batida somada aos versos incisivos. “Não estou interessada em seu grande pau ereto, eu gosto mesmo é das bichas, das que são afeminadas”, compôs. “O funk é uma das últimas explosões de manifestação de cultura popular dos últimos tempos. O funk é a poesia da quebrada. Diz respeito a comportamento, sexualidade e experiências que não são contadas em outros meios. Mas existem. Existimos. Resistimos. Persistimos. E agora somos nós quem dizemos das nossas experiências”, afirma.

Para falar por tantos mesmo sem recursos tradicionais como o apoio de grandes gravadoras ou rádios, muito recorrem à democratização das redes para tensionar as barreiras de arte, música e cultura. Uma das plataformas em que o gênero mais se sobressai é o YouTube, um dos melhores termômetros do que está em alta na música. Ao procurar o termo, aparecem mais de 27 milhões de resultados, entre clipes (toscos ou profissionais), coletâneas e entrevistas. Há mais de 1,7 milhão de canais relacionados ao assunto.

Conhecido como Menor, o funkeiro Caíque da Silva superou a marca de 153 milhões de views na rede. “Assim como aconteceu comigo, o videoclipe veio pra ajudar a divulgar a imagem e conceituar um pouco mais o trabalho, fazendo com que o trabalho seja reconhecido com mais rapidez. Hoje faço shows em casas que o funk jamais havia entrado. Finalmente, estamos atingindo toda aquela grande maioria que dizia detestar as músicas de funk. Estamos numa crescente muito boa, acredito que venha a ser um dos principais ritmos que a música popular brasileira já tenha feito”, conta o artista.



“O sertanejo é um estilo muito forte e que não sofre mais preconceito. Antes, as pessoas ouviam e falavam que era algo só do interior.”
Maria Cecília



SERTANEJO

Positivos

Constante reformulação

O sertanejo seguiu o desenvolvimento brasileiro. Se no passado, parte da população do país estava no interior, era a realidade rural que era cantada no estilo. Com a urbanização, o sertanejo se modernizou e trouxe o cotidiano das metrópoles. Depois para atingir o público mais jovem veio o sertanejo universitário, feito exatamente para o público das faculdades, com alusão ao sucesso e ao capitalismo, e incorporou outras vertentes, como funk, música eletrônica e o forró, com  Wesley Safadão e  Simone & Simaria.

Mercado unido
No documentário Axé: O canto do povo, os cantores e especialistas atribuem à falta de relevância do ritmo atualmente à falta de união no mercado. Esse é o tipo de problema que o sertanejo não deve passar. Os artistas são todos muito unidos. A começar porque parte deles fizeram suas próprias empresas e gerenciam a carreira dos amigos. É o caso de Fernando & Sorocaba e Jorge & Mateus. 

Todos os gostos
z Ao passar por reformulações para conquistar a massa, o sertanejo conseguiu o feito de ter opções para todos os gostos. Os mais saudosistas podem buscar a moda de viola e o sertanejo de raiz, com nomes como Renato Teixeira, Sérgio Reis e Bruna Viola. Quem prefere o romance, tem sempre Zezé di Camargo & Luciano e Jorge & Mateus. O sertanejo universitário é o que tem mais variedade e entrega nomes como Fernando & Sorocaba.

Negativos

Esqueceu as origens

Ao se urbanizar, o ritmo deixou de lado a veia caipira, tanto na sonoridade, como na introdução de instrumentos elétricos e nas letras. É praticamente impossível encontrar nos novos artistas canções que remetam ao clima rural.

Letras das canções
Uma das grandes críticas em relação ao sertanejo está ligada às canções que mudaram com a chegada da vertente universitária, a alusão à farra, à bebida e aos pés nas bundas, como em Vai vendo, hit de Lucas Lucco. A letra diz: “Você achou que ia sofrer,/ mas eu tinha meu plano B/ Sabe de nada, a minha agenda tava disfarçada/ Lugar de homem era mulher,/ restaurante era cabaré”. 



FUNK

Positivos

O novo futebol?

O funk é o novo futebol. Como indústria, virou um empreendimento e ferramenta de inclusão social, pois permite que cantores das mais variadas origens possam ganhar fama e um trocado. Nas mãos de produtores ambiciosos ou de jovens funkeiros mirins que mal saíram do ensino médio, o gênero é lucrativo e ganha aceitação do mainstream. 

Viralizou!
É comum o ritmo do funk ser usado para “turbinar” composições que bombam na internet — aos moldes do Funk do gás. É no YouTube que muitos funkeiros encontram vitrines para as performances. Em parte, porque com apenas um computador e acesso à internet é possível compor, gravar, editar e compartilhar novas faixas. Pouco famoso nas rádios, mas um sucesso na internet, o mineiro MC Delano teve o clipe Devagarinho executado mais de 40 milhões de vezes no YouTube.

Diverso...
Valesca, MC Carol, MC Linn da Quebrada e mais recentemente Doralyce Gonzaga são nomes que incorporaram reivindicações feministas e do movimento LBGT ao repertório. De Tá para nascer homem que vai mandar em mim ao verso “Que eu sou uma bixa loka preta favelada”, as músicas  evocam o debate com cada vez mais constância. 

… E político
Funks emblemáticos são capazes de, em poucos versos, traduzir a rotina de quem vive à margem da sociedade, como Funk das armas, a década de 1990. À época, o genocídio social ficou evidente em versos onde o estalar das armas se confundiam as onomatopeias que lembram tiros.

Negativos

Crítica social

O refrão de Som de preto, de Amilcka e Chocolate, evidencia algumas características intrínsecas ao gênero. Há críticas a abordagem policial, por vezes violenta e, justamente por isso, muitos só começam na madrugada. 

Temática sensual
Exceto quando estouram (a exemplo do que fez o MC G15, com Deu onda), é comum que composições do gênero tenham uma temática que esbarre em forte apelo sensual. Essa estética se reflete também nas coreografias. Conscientes desse potencial, artistas como Anitta e Ludmilla mesclam essa característica a um som mais pop e comercial. Por outro lado, há a objetificação da imagem feminina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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