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Correio Braziliense

Artista plástico Sérvulo Esmeraldo deixa como legado obra com invenções

O nome dele figura entre os pioneiros da arte cinética brasileira


postado em 11/02/2017 07:32

Sérvulo Esmeraldo com escultura ao fundo: a geometria era a grande paixão do artista construtivo(foto: Gentil Barreira/Divulgação)
Sérvulo Esmeraldo com escultura ao fundo: a geometria era a grande paixão do artista construtivo (foto: Gentil Barreira/Divulgação)

Quando se deitou para dormir, na noite do último dia 13 de janeiro, o artista cearense Sérvulo Esmeraldo disse para a mulher, Dodora Guimarães, que estava preparando uma obra muito bonita. No dia seguinte, ele não acordou. Havia sofrido um AVC tão semelhante ao que o acometeu em janeiro de 2016 que o médico usou a palavra espelhado para descrever a imagem. Dodora pensou que isso era mesmo obra de Sérvulo. Muitas de suas gravuras, afinal, pareciam imagens espelhadas. O artista resistiu durante pouco mais de 10 dias, mas faleceu em 1º de fevereiro em consequência de um AVC hemorrágico muito extenso.

Em Fortaleza, onde morava, Esmeraldo deixou um legado que se estende hoje para além-mar. A história do artista está dividida entre dois continentes, embora tenha desejado, a vida inteira, voltar para o Crato, onde nasceu em 1929. O nome dele figura entre os pioneiros da arte cinética brasileira, ao lado de gente como Abraham Palatinik e Mary Vieira. Foi em Paris, para onde se mudou em 1956, depois de conseguir uma bolsa do governo francês para estudar na École des Beaux Arts, que Esmeraldo começou a ficar conhecido. Primeiro, com xilogravuras e gravura em metal, esta última aperfeiçoada no ateliê de Johnny Friedlaender. A primeira era praticada desde a infância na região do Cariri, terra de tradição da gravura popular.

Mas foi com os objetos nomeados Excitáveis que o artista ganhou as rodas parisienses. Construídos com base em energia eletrostática, as obras compostas com materiais leves como fios de cabelo e madeira de balsa repousavam no interior de uma caixa acrílica. Bastava que o público aproximasse a mão da superfície para que os objetos se deslocassem dentro da caixa e a composição da obra mudasse de configuração. “ Os Excitáveis deram grande notoriedade ao Sérvulo na Europa. Foi um invento dele, concomitante ao grande movimento da arte cinética internacional”, lembra Dodora, que é curadora e crítica de arte. “E na França, alguns dos principais artistas cinéticos eram latino-americanos, como o (Julio) Le Parc (argentino), (Carlos) Cruz-Diez e Jesus Raphael Soto (venezuelanos).”

Para Jaqueline Medeiros, crítica, pesquisadora e coordenadora de artes visuais do Centro Cultural Banco do Nordeste, os Excitáveis eram excepcionais por conta de certas particularidades. “A obra exigia participação maior do espectador do que as obras dos outros artistas”, explica. “Os outros usavam elementos mecânicos para acionar as obras, o público tinha que apertar um botão. Na obra do Sérvulo, não. Pouca gente fazia aquela espécie de precariedade criativa.”

Manipuláveis


A curadora Denise Mattar acredita que os Excitáveis receberam pouca atenção devido à produção mais concretista do artista. “A obra dele é muito interessante. A gente acaba sempre associando o Sérvulo a um determinado tipo de produção que é bem minimalista, mais concretista, mas ele tem um período interessantíssimo em que fazia essas obras manipuláveis, com materiais muito simples e com um efeito extraordinário”, diz. “Acho que a gente está tendo uma redescoberta da arte cinética no mundo. Aqui no Brasil, atribuímos apenas à Lygia Clark o pioneirismo de trabalhar com uma arte manipulável, transformável, enquanto a gente tem artistas maravilhosos como a Mary Vieira e o próprio Sérvulo, que as pessoas quase não conhecem.” A arte cinética, lembra a curadora, foi um momento de passagem da produção dos concretistas e geométricos da tela para a tridimensionalidade. Ao começarem a trabalhar com a repetição, descobriram o ritmo a acabaram por abandonar a superfície plana da tela e a construir os objetos cinéticos antes de chegar ao extremo das obras penetráveis que fizeram sucesso com Hélio Oiticica.

Encaixe

Além da produção cinética e concreta, Sérvulo Esmeraldo também foi autor de uma série de esculturas públicas que marcam cenários como a Beira Mar, de Fortaleza. Sempre geométrico, ele dizia que o círculo, o quadrado e o triângulo eram as bases dos trabalhos. “Esses três elementos estão presentes na maioria dos meus trabalhos, eles ganham um certo encaixe que se une, seria a imagem primeira do meu trabalho”, explicava.

A relação com a matemática, disciplina da qual gostava muito, ajudava. “O trabalho dele sempre foi geométrico. Matemática era a grande paixão dele e a geometria tinha uma particularidade. Existem muitos artistas construtivos geométricos no Brasil, mas o trabalho do Sérvulo se distingue por sua natureza orgânica. Toda a geometria dele partia de coisas muito simples como uma folha”, conta Dodora.

Gilmar de Carvalho, crítico e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará (UFC), lembra que coerência é um aspecto importante da obra do artista. “Ele manteve uma coerência, apesar de ter passado por várias linguagens e suportes. Fez desenhos, pintura, e na escultura, encontrou sua síntese”, explica. “Racional, não se deixou levar pelo cerebralismo. Sua arte bem cuidada, perfeccionista que foi, nos leva à emoção. Em muitos momentos, atinge uma dimensão poética. Brinca com luzes e sombras, com o movimento, trabalha com linhas retas e com as sinuosas.”

TRÊS PERGUNTAS PARA GILMAR DE CARVALHO

Quais eram as preocupações artísticas de Sérvulo Esmeraldo?

Creio que deixar uma obra. Isso ele conseguiu, com maestria. Era um artista exigente. Trabalhava com maquetes. Acompanhava a execução e montagem das esculturas, examinava cada relevo que deveria ter suas marcas autorais, fazia joias, e, neste sentido, a metáfora da lapidação das peças de metal pode se ampliar a abranger tudo o que fez. Exigia o rigor milimétrico, sem abrir mão do todo da peça e do conjunto do que fez durante quase setenta anos de trajetória artística.

Quando falamos em abstração brasileira, qual o papel dele?

Sérvulo passou pela pintura, mas não foi nela que alcançou sua maior grandeza. A abstração está nas esculturas, que se filiam ao melhor que a escultura brasileira atingiu, no que se refere ao concreto, ao geométrico, ao cinético, ao mesmo tempo com uma leveza que o caracterizava e o definia.

Qual o lugar do artista na história da arte brasileira?

Sérvulo Esmeraldo tem um lugar de destaque na arte brasileira. Lugar conquistado pelo talento, aliado à disciplina e à determinação. Nascido no Crato (CE), onde se iniciou na xilogravura, quando jovem, passou por Fortaleza, viajou para São Paulo e amadureceu em Paris. Sérvulo manteve uma coerência, apesar de ter passado por várias linguagens e suportes. Fez desenhos, pintura, e na escultura, encontrou sua síntese. Pode-se dizer que vale pelo conjunto da obra, como grande artista que foi.

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