Publicidade

Correio Braziliense

Coletânea de crônicas de Moacyr Scliar tem como tema central o judaísmo

Organizada por Regina Zilberman, 'A nossa frágil condição humana %u2014 Crônicas judaicas' reúne 68 crônicas publicadas entre 1978 e 2010


postado em 08/03/2017 06:01 / atualizado em 07/03/2017 19:07

 Moacyr Scliar: serenidade humanista para tentar compreender o outro a tratar das questões ligadas ao judaísmo(foto: Sérgio Amaral/CB/D.A Press)
Moacyr Scliar: serenidade humanista para tentar compreender o outro a tratar das questões ligadas ao judaísmo (foto: Sérgio Amaral/CB/D.A Press)

No último parágrafo de uma crônica datada de 1984, Moacyr Scliar fala em esperança e constata, com certo alívio, que ainda não houve uma guerra definitiva no Oriente Médio. É um texto otimista no qual o autor cita uma conversa entre jovens judeus e palestinos sobre o direito de viver ou morrer. Morto em 2011, talvez Scliar não fosse tão otimista nos dias de hoje. A escritora e pesquisadora Regina Zilberman acredita que o amigo talvez se espantasse com o que ela classifica como crescimento do antissemitismo e do racismo. Por isso, ela acredita que A nossa frágil condição humana — Crônicas judaicas é um livro muito oportuno.

 

Regina reuniu 68 crônicas sobre judaísmo publicadas por Scliar entre 1978 e 2010. Os textos eram publicados em colunas de jornais mantidas pelo escritor, que também escrevia para o Correio Braziliense. A pesquisadora teve a ideia enquanto organizava dois outros livros de crônicas do autor gaúcho. “Verifiquei que ele tinha uma quantidade enorme só de assuntos judaicos, fosse a política, fossem questões de cultura, lembranças de sua vida e das de imigrantes. E fui separando esse material. Dava umas 90 crônicas”, conta.

Filho de imigrantes judeus que chegaram ao Brasil na primeira metade do século 20, Moacyr Scliar nasceu em Porto Alegre e por lá se formou em medicina, mas a escrita era um material de trabalho tão importante quanto cuidar das mazelas humanas. Se a ficção povoava os romances, os temas do cotidiano se apresentavam como fontes ricas para as crônicas. Moacyr Scliar era um grande cronista e esta pequena coletânea ajuda a acompanhar a evolução do pensamento do autor sobre um tema com o qual tinha especial familiaridade.

 

A questão dos imigrantes e o problema do antissemitismo na Europa estão entre as principais preocupações nos textos dos anos 1970 e 1980. “Depois, quando vai se agudizando o problema e a crise no Oriente Médio, ele vai se focando mais, procurando explicar as razões de Israel, mas principalmente entendendo os palestinos”, diz Regina. “Acho esse o grande mérito do Scliar. Sendo judeu, ele tenta entender e explicar o outro lado. Ele é uma brisa de sensatez num assunto muito polêmico.”

A sensatez e o equilíbrio do autor na maneira como explicita os temas ajudam o leitor a refletir sobre todos os aspectos do conflito entre palestinos e judeus. A mensagem de tolerância e de discordância com a política israelense são claras e Scliar nunca se permite escorregar em posturas radicais ou paranoicas. “Ele nunca entrou nessa parada. É muito importante essa lucidez dele. A gente sente falta disso”, aponta Regina. Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autora de livros como Teoria da literatura e A formação da leitura no Brasil, Regina acredita que Scliar concordaria com sua visão do conflito nos dias de hoje.

 

“Acho que Israel não está tomando a melhor medida, o melhor caminho, porque não é ocupando aqueles territórios, entrando em conflito direto e achando que os Estados Unidos vão ajudar que a coisa se resolve. Os judeus já passaram, ao longo da história, por vários desses momentos e sempre perderam. Na longa duração, a derrota é certa. Então, é melhor uma posição de mais cordialidade”, diz.

Mesmo datadas de três décadas, as crônicas também carregam uma certa contemporaneidade. A visão de Scliar, talvez pela sensatez, é válida para a atualidade, especialmente quando propõe um olhar que contemple todos os lados dos envolvidos. Regina lembra que o acirramento do racismo atinge hoje também os muçulmanos e que, com a distância temporal da Segunda Guerra, o antissemitismo acabou banalizado.

 

“Logo depois da guerra, acho que havia mais cautela, nos anos 1960 e 1970. A lembrança do nazismo era muito forte. E também a retomada, a denúncia do holocausto, os memoriais que foram aparecendo. Mas, hoje, parece que essa questão está superada. Então, havendo uma oportunidade, isso volta”, lamenta. “E volta no seguinte sentido: nem todos que moram em Israel são judeus, nem todos os judeus são israelitas. É difícil as pessoas entenderem isso. Assim como os muçulmanos. Tem muito preconceito em relação aos muçulmanos. Acho que é até pior.”

(foto: Cia das Letras/Divulgação)
(foto: Cia das Letras/Divulgação)
A nossa frágil condição humana — Crônicas judaicas
De Moacyr Scliar.

Organização: Regina Zilberman.

Companhia das Letras, 216 páginas.

R$ 49,90.
 

LEIA TRECHO 

 

A nossa frágil condição humana — Moacyr Scliar



O ano era 1975, época da ditadura militar. Como muitas vezes acontecia, então, um jornalista foi detido: era Vladimir Herzog, diretor da TV Cultura de São Paulo. Levado para a carceragem, no dia seguinte estava morto. Versão oficial: suicídio por enforcamento. 

Herzog era judeu. Na religião judaica, os suicidas não podem ser sepultados junto com outras pessoas, e sim em lugar à parte no cemitério, ao pé do muro. A decisão de onde seria enterrado era aguardada, por isso, com expectativa: ela endossaria ou não a ideia de suicídio. 

Herzog não foi enterrado ao pé do muro. E quem tomou a decisão foi um jovem rabino recém-chegado ao Brasil, Henry Sobel. Sua corajosa posição repercutiu intensamente e deu início a uma carreira surpreendente. Sobel logo se caracterizou como um homem do diálogo e de idéias avançadas: idéias que não deixavam de provocar controvérsia na comunidade judaica, mas que o transformaram numa figura de vanguarda em nosso país. E aí acontece algo surrealista: esse homem é preso, nos Estados Unidos, roubando gravatas. Gravatas que certamente Sobel poderia comprar. Sua perturbadora conduta mostra como são complicados e imprevistos os labirintos da mente humana. Homem inteligente, sensato, Sobel não faria o absurdo que fez se estivesse naquilo que chamamos de “o seu normal”. Mas ele não estava em “seu normal”. Só com a prisão deu-se conta do que tinha feito. 

Um incidente grotesco, mas também uma tragédia, atingindo uma figura importante no debate brasileiro. Com o que, descobrimos, penosamente, que mesmo líderes expressivos são seres humanos, sujeitos às vaidades, às fraquezas e às doenças que acometem os seres humanos. 

Agora vejam a ironia: quando os imigrantes judeus chegaram ao Brasil, e particularmente a São Paulo, muitos deles tornaram-se vendedores ambulantes de gravatas. Naquela época, ninguém podia entrar num banco (sobretudo para pedir um empréstimo) sem gravata. Era um comércio modesto, mas com público certo, e foi até celebrado por Adoniran Barbosa num samba famoso: “Jacó/ o senhor me prometeu/ uma gravata...” 

A gravata era, para os vendedores, um meio de sobrevivência. Mas era também, e continua sendo, um símbolo de status. Um símbolo que, para Henry Sobel, custou caro, absurdamente caro — mais caro que o obsceno preço em dólares. Esse absurdo nos remete, ainda que metaforicamente, às contradições inerentes à condição humana e contra as quais nem a cultura, nem a sabedoria servem como antídotos. Destas contradições deram-se conta os ouvintes do Polêmica de ontem: no seu “veredicto” (é crime, é doença) eles se dividiram num 52% x 48%, que representa um empate técnico. Empate este que é o símbolo de nossa humanidade, e que nos lembra a frase do escritor latino Públio Terêncio, que viveu por volta do segundo século antes de Cristo: “Sou humano, e nada do que é humano me é estranho”.

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade