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Correio Braziliense

Você sabia que um mictório mudou o rumo da arte?

A obra Fonte do pintor, escultor e poeta francês Marchel Duchamp completa 100 anos


postado em 14/03/2017 07:12

Fonte, de Marcel Duchamp, completa 100 anos e ainda provoca debate(foto: Reprodução/Internet)
Fonte, de Marcel Duchamp, completa 100 anos e ainda provoca debate (foto: Reprodução/Internet)
 

 

Poucas obras de arte impactaram e influenciaram tanto a maneira como se a vê a produção cultural quanto Fonte, do pintor, escultor e poeta francês Marchel Duchamp. Cem  anos depois de sua criação, a obra mantém acesa a discussão em torno do seu valor e do que é ou não arte.

Duchamp inscreveu com um pseudônimo a obra, um simples mictório de louça, na exposição de 1917 da Associação de Artistas Independentes de Nova York. O próprio artista fazia parte do conselho curador da mostra. Ainda que bastasse pagar a taxa de inscrição para ter o trabalho exposto pela Associação, o conselho hesitou muito em exibir a Fonte e, por fim, destinou a ela um lugar de pouco destaque.

O artista francês foi um dos principais expoentes do dadaísmo. A vanguarda artística questionava e contestava, por meio da sua produção, o status da arte e do artista. Duchamp foi o  criador do conceito de ready-made (uso de materiais prontos, industriais, sem interferência do artista). A Fonte é considerada um marco do estilo no século 20.

O questionamento da aura do artista, o contexto social e político do início do século 20 e a maneira irônica que Duchamp inseriu em Fonte se refletiu por muito do que se produziu nos anos e nas décadas seguintes. “Não obstante, talvez por atender a uma necessidade da época, foi o ready-made que ditou o rumo predominante na arte internacional das cinco últimas décadas, marcadas muitas vezes por manifestações em que a rebeldia se confunde com o niilismo e, particularmente, com a negação da própria arte”, escreveu o poeta e crítico de arte Ferreira Gullar.

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Morto no ano passado, Gullar era um dos que acreditavam que a negação da arte influenciada por Duchamp era danosa e datada. Ele reconhecia que a obra de Duchamp teve importância no contexto histórico, mas suscitou, para ele, seguidores sem valor. “A expressividade de uma obra artística é resultado da capacidade do autor de lidar com os elementos constitutivos de sua linguagem: a linha, a forma, as cores, a matéria pictórica, incutindo-lhes uma significação que só existirá ali”, escreveu.

Para Gullar, o ready-made e os artistas influenciados por ele depois promoveram, com a arte conceitual, a ideia equivocada de que o museu e a galeria determinam o que tem ou não valor artístico. “A Mona Lisa não precisa do Louvre para ser obra de arte; é o Louvre que precisa dela para ser museu”, defendia.  

Cem anos depois de ser exposta em Nova York, a Fonte permanece provocando discussões, embates e causando reações tanto em quem a considera revolucionária e inspiradora quanto para quem acredita que a arte conceitual e o ready-made foram  prejudiciais ao desenvolvimento da arte.

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