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Correio Braziliense

Olha quem voltou! Lambada é 'reinventada' por artistas contemporâneos

Ritmo ganha releituras nas mãos de artistas como o duo Figueroas, além do cantor e pesquisador Félix Robatto. Em Brasília, festa Pororoca também exalta a sonoridade caribenha e paraense


postado em 15/03/2017 06:00 / atualizado em 14/03/2017 18:13

Alagoanos, duo Figueroas leva o gênero musical para várias regiões do país (foto: Lucas Nóbrega/Divulgação )
Alagoanos, duo Figueroas leva o gênero musical para várias regiões do país (foto: Lucas Nóbrega/Divulgação )

Quem viveu nos anos 1970, 1980 e 1990 carrega nas lembranças afetivas a pegada envolvente da lambada, principalmente, ao som do grupo Kaoma. O ritmo começa a ganhar espaço novamente. Artistas como o paraense Félix Robatto e duo alagoano Figueroas fazem sucesso para além  das fronteiras do Norte e do Nordeste. Em comum, trazem a bandeira de tirar a poeira de décadas passadas, e mixar a lambada a outros gêneros. Reinventá-la, em síntese. Está dando certo.


Cafona para alguns, tradução da brasilidade para outros, a lambada do Figueroas ganhou evidência em 2015. Há dois meses, o duo do vocalista Givly Simons e do tecladista Dinho Zampier lançou o disco Swing veneno, que sucedeu Lambada quente (2015) pela DeckDisc. Givly destaca que passou por cima do preconceito de alguns críticos depois do lançamento do primeiro CD. Agora, a temperatura é outra!

“Essa discriminação aconteceu porque, lá pela década de 1990, a lambada foi tão sugada, e de formas tão diferentes, que acabou se pasteurizando. Hoje, as coisas estão mudando”, acredita o alagoano, que, atualmente, mora em São Paulo e vive da curiosa mistura sonora entre a lambada e outras influências, como a guitarrada paraense. O hit mais famoso é Melô do Jonas. “Somos bem-humorados, mas não fazemos comédia. Nossa música é um território livre e permite várias interpretações”, aponta Simons.

 



Sem fronteiras
Depois de chegar a tocar em lugares distantes de Alagoas, como Santa Catarina e Paraná, Givly Simons acredita que a lambada é um gênero leve e de boa aceitação. É, afinal, um estilo próprio para festas e baladas. Assim como Simons, outros artistas têm dado vida ao gênero caliente. O paraense Félix Robatto, por exemplo, comanda um projeto chamado Lambateria, em que mistura lambada e outros ritmos do Pará. Um evento superconcorrido. “Não podemos esquecer: a lambada é feita para dançar.” Por isso, casa perfeitamente com eventos musicais variados. Ele tem dois discos do gênero, sendo o último deles Belemgue banger, que saiu pela Natura Musical.

A brasiliense Mayara Monteiro, sob a alcunha DJ Nada, se apresentou na Lambateria em outubro do ano passado. Junto ao irmão, DJ Emídio, organiza, em Brasília, a Festa Pororoca, em que a lambada se faz presente. A nomenclatura da balada remete ao fenômeno natural que acontece na Amazônia. E, não à toa. Emídio nasceu no Pará, também terra natal da mãe deles. “Comecei discotecando música paraense, brega e lambada”, recorda a DJ. “É uma pena que algumas pessoas ainda vejam a lambada de forma jocosa — mesmo sendo descontraída, faz parte da nossa história musical”, avalia.

 

Pesquisador musical, o paraense Félix Robatto estuda as origens da lambada (foto: Bruno Carachesti/Divulgação)
Pesquisador musical, o paraense Félix Robatto estuda as origens da lambada (foto: Bruno Carachesti/Divulgação)
 

Duas perguntas / Félix Robatto, músico e pesquisador  

A volta da lambada à cena começou no Norte, e, aos poucos, ocupa outras regiões. Acredita que ela pode voltar ao mainstream, como aconteceu a algumas décadas atrás?

A lambada é uma música bem melódica e dançante e, por isso, não tem muita fronteira, é de fácil assimilação. Mas sabemos que não é só a música em si que define isso. A realidade do mercado hoje é bem diferente daquela época. Ao mesmo tempo que temos a internet ao nosso favor, e, assim ,mais espaços para divulgar, hoje, como nunca antes, se paga (e valores cada vez mais absurdos) para se ter espaço. Tomara que esses empresários vejam lucro na lambada (risos).

 

Em sua intensa pesquisa do gênero, quais características notou serem intrínsecas a ele?
Analisei estrutura, ritmo e timbre de artistas da época, pesquisando LPs com as datas de lançamento e cheguei a artistas como Les Aiglons, Midnight Groovers e Kassav, que são de países do Caribe negro, basicamente, três ilhas: Martinica, Guadalupe e Dominica. Quando esses gêneros dançantes tocados no Caribe, como cadence lypso, konpá e o zouk, chegaram ao Brasil, receberam o apelido de lambada, que aqui é associada a algo quente, que é o que a lambada é: uma música quente. Os sons são diferentes entre si, mas têm em comum a percussão bem marcante, baixo fazendo marcação, guitarra bem ritmada e são bem influenciados pelas timbragens do reggae caribenho e pela disco music.

 

(foto: Lucas Nóbrega/Divulgação )
(foto: Lucas Nóbrega/Divulgação )

Belemgue banger
De Félix Robatto. Natura Musical, 12 faixas. Disponível para audição gratuita no Portal Natura Musical.

(foto: Apce Studio/Reprodução)
(foto: Apce Studio/Reprodução)

Swing veneno 

Duo Figueroas. Deckdisc e Läjä Records, 10 faixas. Preço: R$ 27,90. 

 

 

 

 

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