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Correio Braziliense

'Fachadas', de Rafael Sica, traz metáfora sobre preocupação com a aparência

O livro do quadrinista gaúcho levanta debates sobre assuntos contundentes em relação à aparência externa dos imóveis


postado em 21/03/2017 09:01 / atualizado em 21/03/2017 09:38

Gaúcho Rafael Sica construiu uma cidade imaginária dentro da obra(foto: Paulo Rossi/Divulgação)
Gaúcho Rafael Sica construiu uma cidade imaginária dentro da obra (foto: Paulo Rossi/Divulgação)
O livro Fachadas, do premiado quadrinista gaúcho Rafael Sica, não tem textos. É composto, basicamente, por desenhos da aparência externa de imóveis. Simples, mas não simplórios, eles são os personagens. No entanto, bem se sabe, as aparências enganam. Como outros projetos, a obra brinca com a semiótica para levantar debates sobre assuntos tão diversos quanto contundentes, sem que o artista precise escrever uma única palavra.

O indivíduo dá significado a tudo que o cerca. Com o quadrinista gaúcho, não é diferente. “Ao olhar uma casa fechada, não se sabe o que ela fala por dentro. Quando ela é pixada, acontece uma provocação a esse tipo de construção estética. A parte da frente pode ser pintada e bem cuidada; e por dentro, estar um caos completo. Lá, podem acontecer monstruosidades ou coisas belas, lindas. Ninguém sabe. Trabalho com esse sentido”, diz.

Para o gaúcho de Pelotas, a cidade imaginária montada quando se abre o livro, produzido como uma sanfona, conta muito sobre ele. “As casas existem isoladamente. Quando se abre o livro, viram um todo, como se fosse uma rua, e se cria outro significado, algo como ‘somos todos uma coisa só’”, diz o também autor de Ordinário (Cia das Letras, 2011) e Fim (Beleléu, 2014).

“Há muitas casa antigas e abandonadas por aqui. Tenho o hábito de caminhar pela cidade e observar o que elas contam. A maioria foi construída por escravos, penso no que eles passaram, no que teriam a dizer. Isso me chama a atenção. Além disso, as casas têm uma função dentro da cidade, como todos temos dentro da sociedade”, afirma.

Com dimensão política amplificada desde as manifestações políticas de 2013, as ruas também fomentam a criação. “Estar na rua é o principal motor desse trabalho. É importante ocupá-las, mostrá-las. Se fosse criar algo de maneira mais crítica, abordaria essa questão das construções verticais e ‘gentrificação’ das cidades. Preferi mostrar a poética da rua”, conta.

Duas vezes vencedor Prêmio HQ Mix, maior reconhecimento nacional do segmento, Rafael Sica cresceu no subúrbio de Pelotas. “Por isso, a cidade exerceu um fascínio grande sobre mim na questão de fazer parte dela, mas, ao mesmo tempo, não fazer”, ressalta. Muita gente não se recorda, mas Fachadas tem raízes na capital federal. Em 2013, foi a primeira vez que a reunião de ilustrações de imóveis virou série. E para a revista Samba, produzida pelos quadrinistas locais Lucas Gehre, Gabriel Góes e Gabriel Mesquita.

Janelas de NY

 
Brasiliense, como os criadores da Samba, o designer Lucas Malta registrou janelas de edifícios em Nova York e fez disso um projeto, chamado Daily windows. Bairros como West Village e Clinton Hill tiveram dos edifícios as janelas “recortadas” pela visão aguçada de Lucas, que também trabalha com lettering para marcas e bandas da cidade. As fotografias são comercializadas no formato fine art e vendidas pelo site americano Big Cartel, de produtores de arte independentes. Clientes no Brasil pagam R$ 150 por cada pôster.

Por fora, multicoloridas

 
Douglas Castro e Renato Reno, integrantes do estúdio de design Bicicleta sem freio, também tem dado outro olhar sobre fachadas mundo afora. A parte externa de prédios dos Estados Unidos, Portugal, Alemanha e México, por exemplo, já foram presenteadas com as generosas camadas de tinta dos artistas, que ressignificam espaços públicos – como também fazem talentos daqui, a exemplo de Daniel Toys e Pedro Sangeon, o Gurulino.
 
FACHADAS
Fachadas, de Rafael Sica. Lote 42, 64 páginas. Preço: R$ 39,90.
 

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