Publicidade

Correio Braziliense

Domenico de Masi: 'o trabalho precisa de mais ideias e menos burocratas'

Em livro formado por verbetes que seguem as letras do alfabeto, o autor sugere direções lúcidas para um mundo desorientado. Confira entrevista exclusiva ao Correio


postado em 01/04/2017 07:33 / atualizado em 04/04/2017 15:13

 Sociólogo acredita no homem, apesar das dificuldades(foto: Arquivo Pessoal)
Sociólogo acredita no homem, apesar das dificuldades (foto: Arquivo Pessoal)
 

 

A complexidade do sistema social no qual se vive hoje pode ser resumida em 26 palavras. Entre elas, estão beleza, desorientação, criatividade, partidos, trabalho, universidade e ecossistema. Vinte seis é um número que Domenico de Masi achou razoável porque corresponde às letras do alfabeto internacional. Com elas, é possível navegar por vários aspectos dos problemas que afetam as populações do planeta e ainda fazer uma graça com a ideia de um dicionário.

Em
Alfabeto da sociedade desorientada — Para entender o nosso tempo, o sociólogo italiano transforma as 26 palavras em verbetes que podem ser lidos fora da ordem e, na maioria das vezes, retomam o pensamento de Masi desenvolvido em outros de seus 12 livros. “O escultor Constantin Brancusi, que admiro muito, disse: ‘A simplicidade é uma complexidade resolvida’. Construir o alfabeto com 26 conceitos que considero fundamentais para explicar a complexidade do nosso sistema social me pareceu a maneira mais óbvia de adotar e respeitar a simplicidade. Um sistema social complexo pode ser explorado apenas a partir de uma multiplicidade de pontos de vista, como se fosse uma sessão de acupuntura”, avisa Masi.

O autor de
O ócio criativo, publicado em 1995, com base em uma entrevista concedida à jornalista Maria Serena Palieri, está preocupado com os rumos da sociedade pós-industrial e acredita que o homem tem dedicado as horas livres conquistadas após décadas de trabalho exaustivo a coisas banais como o consumo excessivo.

Masi também se sente um pouco desencantado diante da falta de paradigmas para a construção de uma sociedade justa no século 21. Se as democracias nasceram de modelos desenvolvidos durante séculos, o futuro pautado pela tecnologia e pela mecanização completa de certas tarefas é incerto e carece de exemplos. É uma tecla em que o italiano insiste há alguns anos e que não cansa de dedilhar.

Paixões
No livro, há momentos que podem ser repetitivos para quem está familiarizado com a obra de Masi e, especialmente, com
O ócio criativo, mas há também muita delicadeza e poesia. No verbete dedicado à beleza, o sociólogo se pergunta o que torna a vida bela. E responde: “Uma vida bela é uma vida em que as paixões ressurgem e se renovam continuamente, em que o risco nunca deixa de atrair a curiosidade, em que todos os eventos, incluindo o trabalho, assumem as modalidades do jogo, com suas regras e suas apostas, suas destrezas e seus golpes de sorte, seus felizes imprevistos e seus momentos de reflexão”.

Em
Criatividade, as questões tratadas em O ócio criativo ressurgem naturalmente. Masi fala do trabalho, de como a geração de nossos bisavós trabalhava mais e vivia menos. Hoje, ele lembra, a mecanização do trabalho manual liberou o homem de tarefas repetitivas. O tempo de vida aumentou e as horas de trabalho diminuíram. Há espaço para o ócio, cuja consequência seria a criatividade. O problema é como o tempo livre tem sido usado. Ecossistema é um verbete muito poético. Masi começa com considerações sobres as ilhas, espaços que abrigam as mais antigas fantasias humanas.

Sempre muito erudito, embora simples na maneira de expor as referências, o sociólogo lembra de Homero e das míticas ilhas Sirenusas, de sereias e mitologias, compara o farol ao nascimento, mas também se debruça sobre problemas atuais, como o esgotamento dos recursos naturais do planeta, racismo, violência e exclusão. Entre as citações entram muitos brasileiros. Masi recorre especialmente a Oscar Niemeyer, Heitor Villa-Lobos e Sérgio Buarque de Hollanda. Em entrevista ao
Correio, o italiano fala sobre desorientação e os rumos da sociedade contemporânea.

 Sociólogo acredita no homem, apesar das dificuldades(foto: Arquivo Pessoal)
Sociólogo acredita no homem, apesar das dificuldades (foto: Arquivo Pessoal)


ENTREVISTA /  Domenico de Masi


Na sua opinião, qual o grau de desorientação da nossa sociedade e em que aspectos essa desorientação está mais presente?
A atual sociedade pós-industrial se formou depois da Segunda Guerra, sem haver um modelo teórico, um paradigma de referência. Não foi como muitas sociedades precedentes. Um novo modelo não nasce ao acaso e no improviso: nasce dos despojos de todos os modelos precedentes e exige um sério esforço de análise, de fantasia e de concretude, o que é uma criatividade coletiva. Seneca dizia que “nenhum vento é favorável para o marinheiro que não sabe aonde quer ir”.
O que quer o Brasil? O que quer a Itália? Para onde vai o Ocidente? Ninguém sabe. Esse vácuo intelectual nos impede de distinguir o que é verdadeiro do que é falso, o que é belo do que é ruim, o que é bom do que é hipocrisia, o que é esquerda do que é direita. A maior desorientação está na política porque, por conta das teorias neoliberais, a política tem sido oprimida pela economia, a economia tem sido oprimida pelo mercado financeiro e o mercado financeiro tem sido oprimido pelas agências de classificação.


Quais são os grandes desafios das próximas décadas? 
Os desafios serão a crise ambiental e a desigualdade social. Segundo os teóricos do decrescimento, o equilíbrio ecológico está amplamente comprometido. De acordo com Kennet Building, “quem acredita ser possível o crescimento infinito em um mundo finito ou é um louco, ou é economista”. Se Building tiver razão, qualquer desenvolvimento é insustentável: logo, seria necessário dar um passo atrás e reduzir os níveis de consumo sem modificar os níveis de felicidade. Para absorver a quantidade de CO² produzido por cada litro de gasolina que queimamos, consumimos 5m² de floresta. O espaço bio-reprodutivo é de 1,8 hectare por cabeça.
Precisaríamos hoje de 1,3 planetas para dar conta. Se os países pobres aumentarem o consumo, como pretendem, em 2030 precisaremos de três planetas. O desflorestamento e o efeito estufa ameaçam a atmosfera e aumentam o calor. Duzentos milhões de pessoas serão obrigadas a emigrar por causa das mudanças climáticas. Por todas essas razões, (o economista) Serge Latouche defende que “estamos a bordo de uma bola de fogo sem piloto, sem marcha, de cabeça para baixo, sem freio e que vai se chocar com os limites do planeta”.


Por que isso aconteceu?
Esse crescimento econômico desenfreado aconteceu por conta de quatro fatores: a publicidade, que alimenta artificialmente nossas necessidades; os bancos, que nos fazem contrair dívidas; a propensão a ostentar os bens como símbolos de status e poder; e a suposta obsolescência dos bens, que nos leva a substituir produtos velhos, mas ainda com validade, por produtos novos mais atraentes porque estão nas publicidades. Graças a esse ciclo infernal, um sexto da população mundial conseguiu crescer às custas do planeta, das gerações futuras, do consumo, dos trabalhadores e do Terceiro Mundo. E os países ricos sustentam que não existe alternativa.


Qual seria, na sua opinião, o caminho mais sensato?
Como o mundo globalizado é um sistema de vasos comunicantes, o crescimento impetuoso de países emergentes como a Índia, a China e a Coreia do Sul deveria forçar os países ricos a inverter as direções nas quais seguem: a publicidade deveria se referir apenas às necessidades que podem ser atendidas com menos despesa (como a introspecção, a viagem, a amizade, a beleza, a convivência); os bancos deveriam financiar apenas empresas capazes de satisfazer essas necessidades; a sobriedade e a serenidade deveriam estar acima de tudo. Isso resultaria no colapso de muitos mitos industriais, como a velocidade, a concorrência implacável, a dedicação incondicionada ao trabalho. E isso envolveria a cura de doenças sociais como a alienação, o afrouxamento dos laços interpessoais, a mercantilização dos bens, dos serviços e da cultura. Seria uma forma de recuperar algumas dimensões perdidas de nossas vidas, a começar pelo amor pela terra.


Para o senhor, a tecnologia ajudou ou prejudicou o homem e as relações humanas? 
Sempre sonhamos em produzir mais bens e serviços com menos trabalho humano, delegando a fadiga física e intelectual para as máquinas. Hoje, conseguimos realizar, ao menos em parte, o sonho de Aristóteles, inventando instrumentos mecânicos, eletromecânicos e digitais. Uma casa moderna dispõe de eletrodomésticos capazes de realizar o trabalho que, na Grécia de Péricles, era realizado por 33 escravos. A tecnologia ajudou o ser humano a se libertar do trabalho, permitindo que ele pudesse dedicar mais tempo à meditação, à amizade, ao jogo, ao amor, à beleza e à convivência.


Falta humanismo na sociedade contemporânea? Damos menos importância às ciências humanas nos dias de hoje?
A ciência “humana” consentiu ao homem formular o propósito de sua própria existência e os modelos que inspiram a vida em comunidade. As ciências exatas ofereceram ao homem o instrumento para implementar esse modelo. Hoje, alguns países, como os Estados Unidos e o Japão, desenvolveram escolas e laboratórios científicos que permitem aos jovens se especializar em física, química, informática e etc. Outros países, como Grécia, Itália, França e Brasil, deveriam cultivar as disciplinas de humanas para complementar o lado científico dos outros países e oferecer à humanidade um modelo adequado ao nosso tempo. Em vez disso, os países latinos, com forte vocação humanística, abandonaram esse campo de exploração intelectual, consideram-no inútil. Por isso, hoje, o mundo não sabe mais quais são os seus propósitos e que modelos serão necessários para alcançá-los. Um povo rico de meios e pobre de fins, como os Estados Unidos, acaba escolhendo líderes como Trump.


Já são 17 anos desde a publicação, no Brasil, de O ócio criativo. Que avaliação o senhor faz hoje das ideias desenvolvidas no livro? Como elas se encaixam nessa primeira década do século 21?
Por ócio criativo entendo a possibilidade de que quem faz um trabalho intelectual possa desenvolver uma atividade na qual confluam o trabalho com o qual se cria riqueza, o estudo com o qual se cria conhecimento e o jogo com o qual se cria alegria. Nesses 17 anos, diminuiu o lugar do trabalho em que há execução e aumentou o lugar do trabalho com ideias. Portanto, a minha teoria do ócio criativo acabou convalidada pela experiência vivida após sua publicação. Não ao acaso, em 17 anos, esse livro não cessou de ser comprado, lido e discutido.


As novas tecnologias e a facilidade de acesso diminuíram o tempo de ócio do homem contemporâneo? Que consequências isso pode ter? 
Nossos bisavós viviam cerca de 350 mil horas e trabalhavam cerca de 150 mil horas. Nós vivemos 700 mil horas e trabalhamos 80 mil horas. Em 10 anos, as pessoas terão cerca de 580 mil horas de vida. Para os empregados em funções executivas, o trabalho ocupará não mais de 60 mil horas. Assim, 200 mil horas serão dedicadas à cura do corpo (sono, tratamentos, etc), 120 mil horas serão dedicadas à formação. Disporemos de 200 mil horas de tempo livre, o que equivale a cerca de 8.300 dias e a 23 anos. Como ocupar esse tempo? Como evitar a depressão e o tédio? Como crescer intelectualmente? A paz ou a violência vão aumentar? A diferença será determinada pelo nosso nível de cultura ou de curiosidade intelectual. Ocorrerá, portanto, que teremos mais tempo livre, a partir de hoje, do que o tempo de trabalho.


Do que depende a felicidade humana hoje, na sua opinião?
Jean-Jacques Rousseau disse: “O que provoca a infelicidade humana é a contradição e os nossos desejos, nosso dever e nossa inclinação, entre a natureza e a instituição social, entre o homem e o cidadão”. Portanto, o desejo deve ser dosado e devemos desejar apenas o que podemos realmente obter. A verdadeira felicidade é aquela indicada quando Marx escreve: “a experiência define que o homem mais feliz é aquele que fez a felicidade da maior quantidade de homens…. Se escolhemos uma posição na qual possamos melhor operar em prol da humanidade, nada pode nos atingir porque o sacrifício é em benefício de todos.”


E o que o senhor acha dos caminhos políticos dos tempos atuais, com figuras como Donald Trump, Marine le Pen e Matteo Salvini ganhando projeção e uma possível antecipação das eleições na Itália? 
Donald Trump e Marine le Pen são dois fascistas. Matteo Salvini é apenas um medíocre conservador e não há nenhuma possibilidade de ele vencer as próximas eleições na Itália. Os Estados Unidos combateram o fascismo, o nazismo, o franquismo e tantos outros autoritarismos no mundo. Mas agora, o país está nas mãos de um fascista eleito pelos próprios americanos e, infelizmente, não existe no mundo um estado potente e democrático capaz de ocupar a América e libertá-la de Trump, da mesma forma que a América foi à Europa e a libertou de Hitler e de Mussolini. Portanto, temos pela frente tempos difíceis, e isso, mesmo que Le Pen perdesse, porque para demolir o mundo basta um único Trump. O mundo em que vivemos não é o melhor dos mundos possíveis, mas é certamente o melhor mundo que existiu até hoje. Por isso, como dizia Maurice Béjart, “apesar da merda, eu acredito”.

 

(foto: Companhia das Letras/Reprodução)
(foto: Companhia das Letras/Reprodução)

Alfabeto da sociedade desorientada — Para entender o nosso tempo
De Domenico de Masi. Tradução: Silvana Cobucci e Federico Carotti. Companhia das Letras, 616 páginas. R$ 69,90

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade