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Correio Braziliense

Antonio Pitanga é prestigiado em documentário

O ator baiano de 77 anos é tema de documentário que reconstitui a cena cultural de cinco décadas no país.


postado em 06/04/2017 07:52 / atualizado em 05/04/2017 20:15

(foto: Matheus Brant/Divulgação)
(foto: Matheus Brant/Divulgação)
 

Tudo, menos estagnado. De franqueza absurda, agitação invejável e simpatia inconteste, o ator Antônio Pitanga, aos 77 anos, é um dos remanescentes da era de ouro da maior transformação do cinema nacional. A partir de hoje, com o documentário Pitanga (registrado pelos diretores Camila Pitanga e Beto Brant), os espectadores podem se divertir com a trajetória de vida do baiano, de origem humilde, que deixava a comida de lado (pela falta de dinheiro) e se alimentava de toda a sorte das mais polpudas histórias.

Ele, que entre tantas histórias, teve como primeira namorada a cantora Maria Bethânia,  morou com a família de um ainda jovem Glauber Rocha, não se perde, quando revisita episódios do passado. “Com 10 filmes rodados, fui eu quem combinou com os diretores Cacá Diegues e Walter Lima Jr. que passaria a adotar o sobrenome Pitanga. Foi uma homenagem ao papel do primeiro filme Bahia de todos os santos (1959), rodado pelo Triguerinho Neto. Naquela época, o Glauber, ainda jornalista, me orientou a fazer teatro. Ele me levou pra família dele, em contato com pai, com a mãe, com a irmã, e a namorada. E o filme do Neto estoura, mas no mau sentido: a crítica foi muito perversa, desconsiderando o movimento sindical que permeava o enredo”, relembra, entre infintas histórias.

Com hábitos arraigados, entre os quais o de “gostar de si; até para que possa gostar dos outros”, Pitanga, numa conversa, deixa entrever que ama o Brasil, ainda que tenha restrições à atualidade. Daí é que florescem as ressalvas como a do racismo embutido nas representações artísticas. “Nas ruas, na realidade, nas praças, nos campos de futebol, nos becos e avenidas, você encontra o país: você vê negros e brancos”, pondera.

Sinal dos tempos também ecoa, quando evoca a leitura de Sartre – “Ele diz que, quando você tem implantado um processo de perseguição, de ditadura; você fica mais unido do que nunca”. Se a união faz a força, Pitanga descrê do fragmentado cenário nacional. “Talvez aos jovens realizadores falte o ânimo que a gente tinha no passado. Hoje, você tem o enriquecimento com as ferramentas, os meios de comunicação. Há janelas mais ricas, dadas pela descentralização. Houve uma busca nas fontes de culturas negras, indígenas, imigrantes que apresenta um leque de opções. A democracia é o fio de você entender que você pode tudo”, observa o atento intérprete de fitas como O pagador de promessas, Barravento, A idade da terra e Chico Rei.


Entrevista // Antonio Pitanga

No documentário Pitanga, você está ladeado pela altíssima inteligentsia nacional. Se sente parte dela?
Me sinto parte, sim, por minha luta não ter sido diferente da deles. A gente sonhava, na coletividade, com um Brasil que a gente queria. Seria um país democrático, com direitos humanos. Éramos um todo: nunca me senti como um convidado — eu tomei parte. Tive coautoria naquele processo que apontava para o nosso crescimento. Quando o Glauber Rocha começou no cinema, eu já estava fazendo filme. No cinema, diretores como Paulo Gil Soares, Roberto Pires, Cacá Diegues e Leon Hirszman capitanearam um movimento que deu textura única para a nossa cultura.

Quase 80 anos, e uma memória invejável. Qual o segredo?
Falo sempre para a minha filha que eu me tornei um capoeirista mental (risos). É a arte da guerra: você acumula coisas, e ganha certezas. Eu sou um apaixonado por gente. Minha vida inteira, independentemente da pobreza e tal. Enquanto amigos ricos iam cear, jantar, eu ficava pela noite, e, no dia seguinte, era o contador de histórias. Me tornei um afinador de amigos. Isso me dá uma referência muito forte: de onde eu vim, pavimentei minhas relações e compartilhei com todos o meu crescimento.

Que veio cultural sua geração implantou e deixou como legado?
A gente, por exemplo, pegou toda uma marginalização da cultura e, muito rapidamente, veio o Edgard Santos, reitor da Universidade da Bahia, e pessoas como ele ensinando que o corpo da cultura é um só. Por aí, nos demos conta dos direitos, das conquistas, das lutas. Naquele período, lidávamos com um mundo estagnado — de repente, vieram os direitos humanos, os direitos da mulher, a pílula, a camisinha, vieram os avanços com Martin Luther King, com Malcolm X; retrocessos como o do embargo à Cuba. Pelos cineclubes, nos antenamos em todos os cinemas do mundo e, nisso, inauguramos, genuinamente, um trabalho liderado pelo Glauber Rocha. Veio o Emanoel Araújo, nas artes plásticas. Vivemos o primeiro grande momento de Jorge Amado, buscamos afirmação na literatura.

Que papel as drogas tiveram na tua vida?
Vi gente afundando nisso; perdi amigos. Ao dizer que sou apaixonado por gente, digo que também sou apaixonado por mim. Para que possa gostar de você; primeiro, tenho que gostar de mim. Para educar meus filhos, precisei ter uma relação de amor e de respeito por mim. Gosto da vida! Meu pai, ainda que não tivesse me criado, me dizia: “Tem três coisas maravilhosas no mundo, Antônio: fumar, beber e f...” (risos). Escolhe uma delas; não mistura, não mistura (risos).

Como transitou e se afirmou no exterior?
Na ditadura, eu tive dois amigos — um adido e secretário de cultura. Nisso, eu tinha sempre a vontade de saber de que África eu tinha vindo. Eles conseguiram que, passados 16 dias do golpe, eu saísse do Brasil. Exibi três filmes nossos para grandes lideranças africanas. Achava, e sigo achando, que meu lote, o Rui Barbosa queimou. Queimou, quando estava no ministério, para a mancha negra acabar. Bom. Fiquei dois anos na África. Quando voltei para o Brasil, percebi que, lá fora, eu sempre fui o gringo. Lá, tive, e pude ter todas as oportunidades: até a de me tornar um símbolo sexual. Não era a minha! Não podia perder a hombridade: eu não sou objeto. Disse: “Eu sou brasileiro, e gosto de meu país”.

Você já sentiu o peso da discriminação?
O racismo ainda é silencioso. É subliminar e ainda é covarde. Cada época, com seu momento: está menos grosseiro, menos ofensivo do que nas décadas de 50, 60, 70 e 80. Mais da nossa metade é negra. E, dentro da cultura da dramaturgia, você não se encontra, na visibilidade, na superexposição, em projetos culturais — ainda falta uma distância muito grande para se ter uma consciência. Melhorou, avançamos muito. Mas, trocamos seis por meia-dúzia.

Em que sentido?
Na década de 1950, 1960, você tinha um Grande Otelo, uma Ruth de Souza, tinha Abdias Nascimento, Haroldo Costa, Léa Garcia, Milton Gonçalves. Se conta nos dedos. Em 2017, um Tony Ramos, um Francisco Cuoco têm projetos audiovisuais, com personagens que têm família. São avôs, têm filhos e netos. No núcleo negro, você, regularmente, não encontra isso. Nas ruas, na realidade, nas praças, nos campos de futebol, nos becos e avenidas, você encontra o país: você vê negros e brancos.

Qual é a nossa realidade nacional, em 2017?
Com toda a honestidade: jamais pensei em reviver a situação como a da década de 1970. Havia um país que a gente queria, e estava construindo. Em 2017, falo para os jovens: os velhos não fazem revolução! O máximo que fazemos é acompanhar! Digo aos jovens que se conscientizem, tendo todas as ferramentas à mão. Faltam movimentos, encontros, discussões. Cada um está cuidando do seu umbigo. Fico muito preocupado. Não vejo mobilização! As pessoas zelam pelas suas roupas e seus tênis. Nos anos 1960, na Sorbonne, houve uma consciência estudantil que incendiou o mundo.

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