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Correio Braziliense

Biografia de Elisabeth Roudinesco desvenda Freud

'Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo' (Ed. Zahar), prova que não há assuntos esgotados, quando muito, pessoas esgotadas de certos assuntos.


postado em 08/04/2017 07:00

(foto: Reprodução/Internet)
(foto: Reprodução/Internet)

 

Ele não disse: “Eles não sabem que lhes trazemos a peste.”; ele não teve affaire com a cunhada Minna; ele não ironizou a Gestapo... Essas são algumas lendas desfeitas por Elisabeth Roudinesco a respeito de Freud em sua monumental biografia Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo (Ed. Zahar), provando mais uma vez que não há assuntos esgotados, quando muito, pessoas esgotadas de certos assuntos.

A empreitada a que se lançou a grande psicanalista francesa é para poucos: reescrever a história de Freud com base em pesquisa rigorosíssima, jogando por terra inverdades consolidadas sobre a vida do criador da psicanálise, aquele que trouxe uma nova racionalidade para o nosso tempo.  Com a abertura de arquivos e o acesso a uma série de documentos ainda inexplorados, Roudinesco revisa, checa, reavalia tanto o trabalho dos detratores do grande mestre, como o demolidor Michel Onfray, quanto de seus seguidores e/ou admiradores, como o fiel escudeiro Ernst Jones, pois ambos os lados, por razões opostas, cometeram erros.

Os que não aceitaram a nova doutrina a viram como pornográfica e Freud ,como misógino, reacionário e outras coisas piores.  O que ele nunca foi. Viveu numa casa constituída em sua maioria de mulheres, adorador da filha caçula, Anna, a quem estimulou e preparou a carreira na psicanálise.Teve pacientes que se tornaram suas amigas e também psicanalistas renomadas como Lou Andréas-Salomé, Sabina Spielrein, Joan Rivière e a devotada Marie Bonaparte, que além de tudo o auxiliou e a sua família na fuga do nazismo na Áustria. Foram muitas as mulheres que se deitaram no seu divã, todas tratadas com o mesmo respeito. Escutou-as como ninguém soube fazê-lo antes. Só não gostava das mulheres bonitas demais. (Medo?) Identificou a repressão sexual, o “romance familiar”, como responsáveis pela histeria.  E dessa escuta atenta é que a psicanálise fez-se uma nova ciência, como ele quis, uma vez que tratou o irracional de forma racional. Essa foi a grande novidade.  Mas a sua famosa pergunta “O que quer uma mulher?” deveu-se ao enigma da feminilidade, do desejo da mulher, para ele.

Roudinesco passa a limpo a trajetória de Freud desde o início da criação da nova doutrina, sua vida familiar e formação acadêmica, para mostrar a amizade, sempre passional, do Herr Professor vienense com seus seguidores, colaboradores, tornados, muitas vezes, opositores.  O melhor exemplo é sua amizade com Jung, o príncipe que se transformaria no patinho feio perante seus olhos.  A princípio, unidos por uma grande empatia e sentimento de pai e filho, depois separados por ideias inconciliáveis sobre as bases da psicologia e da psicanálise. Freud, todo razão, apolíneo; Jung, mistério profundo, dionisíaco (para tomar de empréstimo a conceituação de Nietzsche, um dos ídolos de Freud). Apesar da forte amizade que durou cerca de oito anos, a relação entre eles não resistiu às diferenças, pois um fosso conceitual os separava irreversivelmente.

O gênio de Freud se revela desde cedo pelo interesse profundo por todas as áreas do saber. Apaixonado por literatura, leitor voraz de Shakespeare, da mitologia grega, de autores clássicos, como Cervantes, Goethe e dos contemporâneos, como os amigos Stefan Zweig, Arthur Schnitzler e Thomas Mann, compreendeu o alcance analítico dessa arte no conhecimento da alma humana. 

A guerra de 1914-18 o tornou sombrio, bem como mudou a direção da sua pesquisa: passou a acreditar veementemente numa tendência do ser humano à autodestruição, que ele não teve dúvida em cunhar de “pulsão de morte”. Em Além do princípio do prazer, deixa claro que a morte é a companheira do amor e que juntos governam o mundo. Eros e Thanatos. Acompanhou com o coração partido os três filhos nessa guerra. Sofreu o impacto da morte da filha Sophie, jovem mãe de dois filhos, a quem não pôde dar adeus, impossibilitado de viajar, pois as ferrovias estavam fechadas naquele momento. Sofreu muitos baques, mas continuou acreditando no trabalho, na vida e na família como lugar caloroso, de aconchego, insubstituível para todos nós.

Mas o que levou mesmo a grande psicanalista Elisabeth Roudinesco a se debruçar sobre centenas e mais centenas de obras, cartas e documentos para escrever essa biografia? A resposta é simples: o amor à verdade, lição primeira do mestre Freud, que construiu sua obra revisando-a incansavelmente: dois passos para frente, um para trás. Ela fez o seu trabalho com paixão e isenção, o que é um caso raro. O que Elisabeth Roudinesco  nos oferece em 500 páginas não tem preço: o retrato de um homem e sua época em toda a sua complexidade.


 Vera Lúcia de Oliveira é Especialista em Literatura (UnB) e Teoria Psicanalítica (UniCEUB)

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