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Correio Braziliense

Em disco, Olivia e Francis Hime celebram obra de Vinicius de Moraes

A dupla Olivia e Francis Hime escolheu 25 canções, um passeio pelas principais parcerias do poeta. O disco tem 27 faixas, mas duas são homenagens


postado em 23/04/2017 06:00 / atualizado em 22/04/2017 18:45

Olívia e Francis Hime(foto: Arquivo Pessoal)
Olívia e Francis Hime (foto: Arquivo Pessoal)
Francis Hime tinha 15 anos quando conheceu Vinicius de Moraes e, sem nenhuma cerimônia, tocou para ele, ao piano, Valsa de Eurídice, um raro tema instrumental do poeta. Quando terminou, Vinicius dirigiu-se à mãe do adolescente e disse: “Não deixa esse menino fazer engenharia, o negócio dele é a música.”

Olívia Hime era estudante do Santa Úrsula e se aproximou de Francis — o futuro marido — quando ele foi se apresentar numa festa de fim de ano do tradicional colégio da Zona Sul do Rio de Janeiro. Depois passaram a se encontrar com frequência nas míticas reuniões musicais na casa de Vinicius, das quais, mesmo ainda jovenzinhos, participavam.

Com o passar do tempo, a amizade dos dois com o eterno parceiro de Tom Jobim se acentuou. Mais que amigos, Francis e Vinicius tornaram-se parceiros. A primeira música que compuseram juntos foi o clássico Sem mais adeus. Outras vieram, entre elas, Monólogo de Orfeu, cujo texto foi escolhido por Olívia, aos 20 anos, no teste para ter acesso ao Conservatório Nacional de Teatro.

Em 2013, um pouco antes do centenário de Vinicius, Olívia percebeu que, entre as várias homenagens programadas, nenhuma partia do Itamaraty. É bom lembrar que o poeta-diplomata, demitido do Ministério de Relações Exteriores pela ditadura militar, havia sido reconduzido, in memorian, ao cargo, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Pois bem, ela e Francis também queriam celebrar a data e então criaram um show de voz e piano que, com o apoio das embaixadas brasileiras, foi levado em turnê a Noruega, Alemanha, Xangai e Pequim — alguns apresentados em palcos de universidades. No Brasil, o recital foi apreciado apenas no Festival de Guaramiranga (CE), em São Paulo e em Salvador.

Agora chega ao público no formato de CD, sob o título Sem mais adeus — Uma homenagem a Vinicius, lançado pela Biscoito Fino. Na criação do repertório, Olívia e Francis optaram por suítes, nas quais foram agrupadas canções compostas por Vinicius com os parceiros Tom, Carlos Lyra, Baden Powell, Chico Buarque, Toquinho e, claro, Francis Hime.

No repertório, prevalecem clássicos da importância de A felicidade, Água de beber, Berimbau, Canto de Ossanha, Eu sei que vou te amar, Insensatez, Samba da bênção e Se todos fossem iguais a você, distribuídos em diferentes momentos do disco. Entre os pontos altos, pode-se distinguir a junção de Coisa mais linda e Primavera — ambas, coincidentemente, parcerias de Vinicius com Carlos Lyra. Obviamente, Chega de saudade, o hino bossa-novista, está presente no repertório.

Sem mais adeus, que dá título ao álbum, é de 1963. Francis conta que havia feito a melodia, Vinicius tinha gostado bastante e prometera escrever uma letra para ela, mas demorou um pouco. “Até que um dia, eu estava na churrascaria Carreta, na rua Visconde de Pirajá, em Ipanema — outro dos pontos de encontro da turma — quando Vinicius chegou para mim e entregou algo escrito num guardanapo de papel. Era a letra da música”.

Projeto

Existem também as “lado B”, como Anoiteceu, Labareda, Maria, Samba de Maria e Valsa dueto, pois até Vinicius as tinha. Olivia faz uma revelação. “Samba de Maria, outra composta por Vinicius e Francis, recebeu a primeira gravação neste nosso projeto. Ela foi interpretada por Jair Rodrigues, no Festival da Record de 1967, aquele que teve Edu Lobo como vencedor, com Ponteio; e que revelou para o Brasil Caetano Veloso e Gilberto Gil, autores de Alegria, alegria e Domingo no Parque, respectivamente”.

Vinicius contava ter feito o Samba de Maria para Maria de Moraes, sua filha caçula; enquanto Francis afirmava que o compusera para Maria Hime, uma de suas filhas. Em texto escrito no encarte, Olívia coloca os fatos no devido lugar. “Durante anos, vossos pais conseguiram enganar vocês duas. Diziam que tinha feito em homenagem às filhas. Não durou muito e vocês descobriram a doce farsa dos papais. As datas não batiam...”

Para interpretar com ele Samba de Maria, Francis teve uma convidada especial, Adriana Calcanhotto, a quem conheceu 10 anos depois da morte do Poetinha, num show-tributo no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio. A interação foi imediata. “Aproveitei, e propus a Adriana colocar letra em Um sequestrador, canção que eu havia composto há décadas com Vinicius. Agora a estamos cantando juntos. É a faixa inédita do disco”, destaca.
 

Análise

Por Paulo Pestana 

 
A ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, disse, outro dia mesmo, que a sociedade brasileira está cada dia mais conservadora, em um momento de franco retrocesso. E perguntou: “Vinicius de Moraes caberia neste mundo?”

A resposta vem em forma de música. Olivia e Francis Hime estão lançando o disco Sem Mais Adeus — Uma Homenagem a Vinicius que não deixa dúvida: sim, o poeta não apenas cabe neste mundo, como até ajuda a nos salvar da caretice.
A caudalosa produção musical de Vinicius de Moraes e seus múltiplos parceiros é o maior desafio para quem se propõe a escrutinar a obra do compositor. São três centenas de canções à disposição; muitas da melhor qualidade, algumas desafiadoras.

A dupla escolheu 25 canções, um passeio pelas principais parcerias do poeta — o disco tem 27 faixas, mas duas são homenagens, Samba pra Vinicius (Toquinho e Chico Buarque) e Nature Boy (Eden Ahbez), que ele gostava muito.
 

Versões curtas

 
Algumas músicas são apresentadas em versões curtíssimas, quase vinhetas — Berimbau tem pouco mais de um minuto, Primavera é mostrada em apenas minuto e meio. Pobre menina rica, declamada, fica com apenas 47 segundos.

Não importa. A poesia musical de Vinicius está presente na alma brasileira, mas é ainda mais marcante para os Hime; foi o poeta quem os apresentou e foi também o primeiro parceiro do pianista, na música que dá nome ao disco. Juntos, fizeram oito canções, como  Saudade de Amar, Anoiteceu e Samba de Maria e Um Sequestrador estão no disco.
 

Homenagem caseira

 
Olivia e Francis Hime fizeram o que se pode classificar de homenagem caseira. Apenas piano e voz, interpretações despojadas, como se estivessem sido feitas no momento, bem diferentes de outras produções do maestro, mais elaboradas, com orquestras ou grupos grandes, que possibilitam arranjos mais ricos.

Capa DVD Olívia e Francis Hime(foto: Reproducao)
Capa DVD Olívia e Francis Hime (foto: Reproducao)
Mas calma aí que é Francis Hime! Ele sabe ser econômico para valorizar a voz da parceira Olívia — como em Eu não existo sem você —, mas também dita ritmo (Chega de saudade) e explora todo o teclado para escanhoar melodias (Se todos fossem iguais a você, Valsa de Eurídice, em versão instrumental). E novas harmonias aparecem por toda parte.

O disco nasceu na estrada, com apresentações em vários países antes de ser gravado em estúdio, o que possibilitou um desenvolvimento apurado das canções, a partir do estado mais bruto. E chega para mostrar que Vinicius cabe não apenas neste, mas em todo e qualquer mundo que dê espaço para a arte.
 
Relembre a dupla homenagendo o poeta no Programa do Jô.  
 
 

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