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Correio Braziliense

Saiba mais sobre a trajetória de Belchior

Cantor e compositor será enterrado na terça (2/5), em Fortaleza


postado em 01/05/2017 10:30


Antônio Carlos Gomes Belchior era conhecido apenas no Ceará, quando, em 1971, se fez notado nacionalmente ao vencer o IV Festival Universitário da MPB, promovido pela extinta TV Tupi, com Na hora do almoço. Na letra dessa canção seminal, Belchior já deixava claro que não fazia parte do bloco dos contentes. O país vivia sob a égide da ditadura militar e, nos primeiros versos da letra, ele cantava: “No centro da sala, diante da mesa/ No fundo do prato, comida e tristeza/ A gente se olha/ Se toca e se cala...”

O cantor e compositor, nascido em 26 de outubro 1946, na cidade de Sobral (CE), morto ontem, aos 70 anos, em Santa Cruz do Sul (RS), iniciou a carreira artística no início da década de 1970, depois de se mudar para Fortaleza. Na capital cearense tomou contato com Fagner, Ednardo, Rodger Rogério, Cirino, Teti e Amelinha. Informalmente, criaram um grupo que ficou conhecido como Pessoal do Ceará.

Belchior se antecipou aos amigos e desembarcou no Rio de Janeiro, em 1971. Antes disso, nos encontros que mantinham com regularidade, no Bar do Anísio, em Fortaleza, já era ouvida a canção Mucuripe, nome da praia em que o estabelecimento se localizava. A música ganhou nova versão criada por Raimundo Fagner, que viria a ser gravada por Elis Regina e Roberto Carlos.

Com Mucuripe, Fagner, morando em Brasília, venceu 1º Festival do Ceub em 1971, mas, nas entrevistas que concedeu ao Correio, sempre fez questão de afirmar que a música era uma parceria dele com Belchior. O certo é que Mucuripe contribuiu decisivamente para os dois se popularizarem nacionalmente.
Foi com Como nossos pais que Belchior alcançou um patamar ainda mais alto na MPB. Isso, depois de Elis tê-la incluída em Falso brilhante. No elogiado espetáculo, de 1976 — registrado posteriormente em disco —, a cantora contava a história de sua vida e da trajetória artística. A interpretação dessa canção sempre foi a mais aplaudida pelo público. E se transformaria num clássico.

Dezoito títulos fazem parte da discografia do cantor, sendo 12 LPs e seis CDs. O de maior êxito foi Alucinação, de 1976, que reuniu canções como Apenas um rapaz latino-americano, A palo seco, Como nossos pais e Velha roupa colorida, todas incorporadas à antologia da música popular brasileira. Autorretrato, que saiu pela gravadora BMG (depois incorporada à Universal Music) foi o último. Há ainda uma coletânea de sucessos, lançada pela série Sempre, da Som Livre.

No decorrer da carreira, Belchior teve muitas solicitações para shows em todo o país. Em Brasília, se apresentou algumas vezes, inclusive na Sala Villa-Lobos, do Teatro Nacional. No começo da década passada, ele fez um recital de voz e violão, no extinto Café Cancun, acompanhado pelo violonista e guitarrista paulista Diego Figueiredo, que integrou a banda brasiliense de baile Squema Seis.

Em 2009, Belchior saiu de cena e tomou destino incerto. Turistas brasileiros o viram no Uruguai, onde concedeu entrevista para a TV Globo. Desde que deixou o Uruguai, passou a morar em Porto Alegre.

 

 

 

"Eu sou apenas um rapaz latino-americano"

 

A voz grave do poeta e cantor, que havia optado por um autoexílio silencioso nos últimos anos, calou-se de vez.

Belchior morreu enquanto dormia em razão do rompimento da artéria aorta, de acordo com a delegada Raquel Schneider.

Ele morava em Santa Cruz do Sul (RS). O corpo será levado para Sobral, onde será velado e sepultado.

O governo do Ceará auxiliará a família no traslado do corpo do cantor para o estado de origem. Em nota, o governador Camilo Santana confirmou a morte do músico e declarou luto oficial de três dias. “Recebi com profundo pesar a notícia da morte do cantor e compositor Belchior. O povo cearense enaltece sua história, agradece imensamente por tudo que fez e pelo legado que deixa para a arte do nosso Ceará e do Brasil”, escreveu.

A poesia melancólica e ácida de Belchior fez dele um dos principais nomes da música brasileira e o tornou muito mais do que “apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco”.

Nascido em 1946, Belchior cursou filosofia, antes de, na década de 1970, juntar-se a jovens artistas cearenses (como Fagner, Ednardo e Amelinha) e se enveredar pelo caminho da música.

Parceria com Fagner, Mucuripe foi o primeiro sucesso. Depois veio o álbum Alucinação (1976). O disco completou 40 anos em 2016. 

 

"Sem ter medo da saudade"

 

 

Raimundo Fagner tinha 18 anos quando, em 1968, venceu um festival em Fortaleza com Nada sou. Outra das músicas concorrentes era Espacial, de Belchior. “Eu era um jovem tentando me tornar conhecido e Bel já tinha um nome na cena artística cearense. Naquela mesma noite nos conhecemos no teatro e depois fomos ao encontro de outros músicos, no Bar do Anísio, na praia de Mucuripe”, lembra o cantor e compositor nascido em Orós (CE). A primeira parceria dos dois foi Mucuripe.

Em 1971, os dois moraram juntos em São Paulo, por um curto período, onde Belchior depois se radicaria. “Houve um certo distanciamento entre nós, mas, mesmo assim, continuamos a parceria. Entre outras músicas que fizemos juntos estão Moto 1, do Manera Fru Fru Manera, meu disco de estreia, e Contra-mão, que dividi a interpretação com Cazuza, no LP Deixa viver, de 1975”, destaca.

Para Fagner, Belchior é “um dos maiores poetas da minha geração”, deixou um legado inestimável. “Acredito que, com sua morte, Bel vai ficar mais vivo do que nunca, pois não vai faltar quem queira redescobrir sua obra. Vejo-o como um artista icônico, da importância de um Raul Seixas”, acrescenta.

Jorge Mello, cantor e compositor piauiense, foi um dos grandes amigos de Belchior, a quem conheceu há 50 anos. “Sou de Piripiri, estudava em Teresina, e fui fazer vestibular para o curso de direito em Fortaleza. Lá, fui contemporâneo de Belchior na universidade. Ele primeiro se tornou amigo de meu irmão, de quem era colega no curso de medicina. Como começou a frequentar nossa casa, acabamos fazendo amizade”, lembra.

Quando Jorge deixou Fortaleza, onde trabalhava como diretor de uma emissora de tevê, foi morar no Rio de Janeiro. “Lá, continuei trabalhando em televisão, como diretor da área de música da TV Tupi. Em 1971, Belchior chegou ao Rio e me procurou. Íamos promover o IV Festival Universitário de Música, um dos mais importantes eventos para artistas da MPB, e sugeri que ele se inscrevesse”, relata.

Resultado, Belchior acabou vencendo o festival com Na hora do almoço, concorrendo com nomes como Gonzaguinha e Ivan Lins. “Após a vitória no festival, eu o escalei para participar dos principais programas na Tupi, o do Flávio Cavalcanti, o de J. Silvestre e o da Cidinha Campos. Ele gravou Na hora do almoço em compacto pela Polygram e ali, efetivamente, dava início à carreira”, afirma.

Feito Tolstói
Belchior já era um artista de muito sucesso, principalmente depois de lançar o LP Alucinação, quando se associou a Jorge Mello no selo Paraíso, pelo qual passou a gravar seus discos. “Fomos sócios no Paraíso por 20 anos. “Talvez eu seja uma das poucas pessoas que não atribuiu o desparecimento dele, do meio musical e até mesmo da família, à questão econômico-financeira. Para mim, ele tomou uma decisão filosófica, assim como Leon Tolstói, que jogou tudo para o alto e foi ser agricultor”, sugere.

O poeta piauiense-brasiliense Climério Ferreira é outro que guarda boas recordações de Belchior. O conheci em São Paulo, quando lá estive com Clodo e Clésio. Dos compositores cearenses era o mais ligado à vertente do rock. Em 1997 fizemos um show com ele no teatro Dulcina, gravado para um programa de tevê. Num papo com ele, comentei que o via como o maior poeta entre os artistas cearenses. Sem nenhuma cerimônia, ele afirmou: ‘Sou mesmo!’”

Segundo Clodo Ferreira, o programa, ao qual Climério se refere, chamava-se Segunda de ouro. “Eu havia convivido com ele bastante, quando fui morar em São Paulo, e era hóspede de Rodger Rogério e Teti. Sempre foi muito afável e tinha um jeito de nobre no trato com as pessoas.”

 

 

 

"Um simples cantador de coisas do porão"

 


Professora da Universidade de São Paulo, pós-doutora em letras e música pela Paris X e autora de uma dissertação de mestrado sobre Belchior, Josely Teixeira explica por que a obra do cantor se mantém tão atual mesmo depois de tanto tempo. “Belchior fala da luta diária para sobreviver nos centros urbanos, das migrações entre sertão e cidade, das relações de desigualdade entre povo e poderosos, dos sofrimentos dos excluídos, da força dos brasileiros e latinos diante de tudo isso. Enquanto houver isso no Brasil e no mundo, Belchior será atual”, apontou a professora em entrevista recente ao Correio.

A força das letras, a influência da filosofia e da tradição literária incluem Belchior em um grupo tão alto quanto qualquer outro grande compositor brasileiro, acredita Josely. “Não canso de repetir que a obra de Belchior pode ser colocada ao lado das melhores obras de nosso cancioneiro, de Chico Buarque, de Noel, de Gonzagão. Sim, seu trabalho é um dos mais profundos da história da música brasileira”, garantiu.

Além do diálogo com a tradição literária, Belchior também foi um dos compositores que mais se propuseram a travar, dentro das canções, embates com outros criadores e artistas. Caetano Veloso, por exemplo, foi um dos alvos de seu olhar contestador. “Mas sei que nada é divino, nada, nada é maravilhoso. Nada, nada é sagrado, nada, nada é misterioso, não”, canta o cearense em Rapaz latino-americano em uma referência clara a Divino maravilhoso, de Caetano.

Além de tantas outras qualidades, a obra de Belchior é especial pelo embate estabelecido com grandes nomes da MPB que vieram antes dele e contemporâneos. Ele mostra que veio para dialogar com a tradição musical da canção. E faz isso de forma bastante profícua”, explicou Josely. (AP)
 

 

“Todas as canções de Belchior são uma só canção”




O cineasta cearense Nirton Venâncio participou da cena cultural de Fortaleza quando os cabeludos rapazes Belchior, Ednardo, Fagner... estavam começando, nem sonhavam em brilhar no “sul maravilha”. Mas, a energia e a poética daquele pessoal do Ceará rompeu fronteiras e ganhou o mundo. Nirton resgata essa trajetória de sucessos e de luta no filme Música do Ceará — Lado A lado B, que está sendo finalizado. E é Belchior um dos grandes personagens da produção.

Você está finalizando um filme em que resgata a memória da música cearense. Como foi seu primeiro contato com Belchior?
Em 1977, no programa Terral, nos estúdios da Rádio Iracema, em Fortaleza. O programa semanal apresentava somente música cearense, à noite. Eu não perdia. Naquele dia, Will Nogueira, apresentador, disse que o primeiro ouvinte que chegasse ao estúdio ganharia do Belchior, presente no estúdio, uma fita cassete e o disco Coração selvagem. Saí literalmente correndo da minha casa, que era perto da rádio, e cheguei primeiro. Ver o Belchior ao vivo, me abraçando e autografando o disco me marcou para sempre. Essa cena, eu reconstituo no filme, com atores, e abre o documentário.

Qual a importância da poesia e da música de Belchior para a música brasileira? É o nosso Bob Dylan?

Na 12ª Bienal do Livro aqui no Ceará, semana passada, participei de uma mesa com o tema “Canção e Literatura: o legado de Bob Dylan”, e fiz esse paralelo com a poética de Belchior. Assim como Dylan fez um mapeamento histórico e dos costumes da América desde os anos 1950, Belchior fez um mapeamento do comportamento e da esperança dos anos 1960 para cá. Todas as canções de Belchior são uma só canção.

O encontro dele com Elis Regina foi um dos grandes momentos da MPB...

Sim. Mas creio que, se nossa grande Elis não tivesse gravado Como nossos pais e Velha roupa colorida..., Belchior teria surgido com a mesma força quando lançou Alucinação.

O filme que você está finalizando, Pessoal do Ceará — Lado A lado B, narra a trajetória de um grupo de artistas que influenciou a música, não só a cearense, mas a do “sul maravilha” também. Fale um pouco desse filme, ele está pronto, o que falta?
O título mudou para Música do Ceará — Lado A lado B, que cobre uma trajetória de 50 anos da música cearense, de 1964, quando se esboçou um movimento cultural na Universidade Federal do Ceará (UFC), em Fortaleza, com os desconhecidos Belchior, Fagner, Ednardo, Fausto Nilo, Rodger Rogério, Augusto Pontes, e outros, até 2014, quando começou o Maloca Dragão, evento da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, e onde se revelou uma nova cena musical cearense, com fortes influências do que se denominou Pessoal do Ceará. O documentário está parado, em edição. São dois anos de filmagens. Coloquei o projeto no edital da Secult do Ceará, solicitando financiamento para concluí-lo.

Você, que foi amigo, conviveu com ele, como resumiria a trajetória de vida e da música de Belchior para os mais jovens?
Belchior escreveu e viveu o que todos nós vivemos e/ou não tivemos coragem de viver. Ele que dizia “vem viver comigo, vem correr perigo, vem morrer comigo”, não era simples retórica, simples versos de uma canção, era uma chamada, um desafio. E assim viveu, e assim se foi.


 

 

Trechos de músicas


“Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol
Quando você entrou em mim como um Sol no quintal
Aí um analista amigo meu disse que desse jeito
Não vou ser feliz direito
Porque o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual”
(Divina comédia humana)



“No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais”
(Velha roupa colorida)



“Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida de qualquer pessoa”
(Como nossos pais)



“E eu quero é que esse canto torto
Feito faca, corte a carne de vocês”
(A palo seco)



“Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”
(Sujeito de sorte)



“Fique você com a mente positiva
Que eu quero é a voz ativa (ela é que é uma boa!)”
(Conheço meu lugar)

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