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Correio Braziliense

Em cartaz no filme "Joaquim", Rômulo Braga fala sobre crescer em Brasília

O ator, que cresceu em Taguatinga, esteve em filmes dos mais importantes diretores brasileiros


postado em 10/05/2017 07:30

 

Rômulo Braga ganhou o candango de melhor ator pela atuação no filme Elon não acredita na morte(foto: Vitrine Filmes/Divulgação)
Rômulo Braga ganhou o candango de melhor ator pela atuação no filme Elon não acredita na morte (foto: Vitrine Filmes/Divulgação)

 

“Cada onda é única. As pessoas podem tentar me localizar, mas acho que, como ator, tenho feito coisas diversas”, observa o ator Rômulo Braga, atualmente, com importante filme em cartaz na capital: Joaquim, sobre a vida de Tiradentes. Aos 40 anos, o brasiliense que, há 24 anos, se deslocou para Minas Gerais vive um momento especial, já que outro longa, Elon não acredita na morte, com o qual faturou o prêmio Candango de melhor ator, foi recentemente apresentado na capital. “Chegar ao Festival de Brasília, no qual o filme teve a primeira exibição, me deixou maravilhado. Era um ícone  inalcançável, era um sonho de vida, isso de ter um filme selecionado, no qual atuasse: seria tipo a Tieta voltando”, comenta, aos risos.

Rômulo Braga conta que a primeira formação “como ser humano” foi no Distrito Federal, algo que leva para a vida. “Em Taguatinga, eu vivia numa rua que não tinha asfalto; então, praticamente, cresci com os pés no chão, descalço, brincando na terra. A casa beirava a Ceilândia, com uma família simples. Brasília me deu noção de um lugar que não tinha cerca e contribuiu para meu senso de liberdade”, arrisca.

Depois de dirigido por cineastas de renome, como Helvécio Ratton, Lírio Ferreira e Caetano Gotardo, o ator, que tomou gosto pelas artes frequentando a Escola Normal e o Colégio Planalto, espera pela futura exibição de seis longas ainda inéditos. “Não tenho domínio sobre isso: está em outras mãos. Posso é acender uma vela”, brinca, impedido de dar detalhes sobre os projetos. E sobre se ver na telona? “No cinema, me vejo como uma imagem projetada e que fui eu ou até, melhor, não sou eu. Minha vida cotidiana segue. Não tenho circulado nas ruas, por causa do tempo mais curto. Não tenho muito talento ou estrutura para seguir a vida das celebridades”, destaca.

 

Rômulo Braga (esquerda) contracena com Júlio Machado no filme Joaquim: ele saboreia um momento muito especial na carreira(foto: Imovision/Divulgação)
Rômulo Braga (esquerda) contracena com Júlio Machado no filme Joaquim: ele saboreia um momento muito especial na carreira (foto: Imovision/Divulgação)
 

 

Rômulo conta que se sente alimentado pela vida cotidiana. “Minha vida está no batimento da cidade, no pulso das pessoas com as quais me relaciono”, simplifica. Na teia das relações, o personagem Elon, que tem a loucura instaurada aos poucos na vida, quebra paradigmas numa cena de sexo mais comandada por uma mulher. “Ainda temos vários tabus na sociedade. Uma nudez pode ser a serviço de uma cena linda. Ou de algo muito violento, o de algo bem crítico, gratuito ou sexualizado. O que menos me interessa, aliás, é o último caso”, demarca.

Para Rômulo, pesa a estrutura de dependência, naquela reveladora cena. “O personagem está na carência afetiva e possessiva. Na minha cabeça, se elabora uma ausência humana, independente de gênero. Na minha cabeça, tudo se iguala: não fica aquela do macho que tem carência, mas, sim, o ser humano”, comenta. Movimentos feministas e questões de igualdade racial são temas, por sinal, que conquistam Braga. “O que me preocupa são as dissipações. Temos que criar vias de comunicação para que possamos seguir nos aproximando e não nos distanciando. É o que mais me interessa: me aproximar, me aproximar... de ser humano e de ser humano”, explica.

Preconceito racial
Entender o funcionamento da cabeça do diretor de Joaquim, Marcelo Gomes, trouxe fascínio para o ator Rômulo Braga. Com alto teor de crítica a estruturas do século 18, o filme que trata dos anos anteriores ao estabelecimento do mito Tiradentes tocou, em especial, o cidadão Rômulo Braga. “O longa fala de um contexto social e classista de maneira leve. Não tem a coisa dura do negro em cena: senhor, capitão do mato, etc, mas digo de forma leve, por ter um entrelaçamento social entre as classes — meio como é hoje. O negro está ali, conversado com o senhor — tudo, aparentemente, em pé de igualdade. E o mestiço também, o serviçal que trabalha por um pratinho de comida. A gente sabe que não é em pé de igualdade. O filme diz muito de mim, por outro lado. Fala deste corpo mestiço que eu habito. Fala das diferenças sociais que percebi, à medida  que crescia. Descobria quais eram as classes a que pertencia”, compara.

Braga volta a enfatizar a importância de Joaquim, diante de questões de racismo que ele mesmo diz já ter sofrido, por vir de uma família simples. “Por mais que tenha tido educação, tenho características físicas que, às vezes, dentro de um contexto social, podem ‘assustar’. Tenho traços mais agressivos, e isso, no cotidiano, se revela. A tela de cinema conta uma história, e o dia a dia, outra”, comenta. O cotidiano do ator indica, por meta, muito trabalho. Depois de se aventurar com PSI (para a HBO), o ator voltará para a possibilidade chamada tevê, com a minissérie de Luciano Moura 13 dias longe do sol.


“O que me preocupa são as dissipações. Temos que criar vias de comunicação para que possamos seguir nos aproximando e não nos distanciando”

Rômulo Braga, ator

 

 

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