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Correio Braziliense

Com pegada pop nos últimos anos, funk conquista público jovem

As batidas e letras dividem opiniões e alcançam novos horizontes


postado em 09/07/2017 07:30 / atualizado em 10/07/2017 16:38

“Se teu hobby é sentar não vou te criticar, tá de parabéns. Mas preciso de você pro rolê valer, então senta bem”, diz um trecho de um dos funks mais ouvidos no momento, Fazer falta, do MC Livinho. Essa e outras letras de funks como Vai embrazando (“Se juntou com a amiga e foi lá pra casa, abre a geladeira, pega a catuaba. Pa-ra! Já pode ficar pelada”), dos MCs Zaaz e Vigary; e Rabetão (“Tô xonadão, dão, dão, dão nesse b... Vai rabetão, tão, tão, tão, tão, tão no chão”), do MC Lan; conquistam o público jovem e assustam algumas pessoas.

Autor do livro Funk, a batida eletrônica dos bailes cariocas que conquistou o Brasil,  Lucas Reginato classifica esse tipo de funk, que busca refletir a realidade dos morros e subúrbios, como o movimento de raiz.

Além de mostrar um pouco da experiência dos funkeiros, o estilo também é apontado como uma forma de diversão. “Nunca foi feito para que fossem grandes poesias, a linguagem é muito popular. Quem não escuta fala que a letra é podre, mas a proposta é divertir, a música é feita para o baile”, explica. Lucas também destaca que o miami base, uma das bases do funk, tem canções com as mesmas temáticas, mas, por ser em inglês, as pessoas têm mais tolerância.

Vale lembrar que o gênero, mesmo sempre sendo alvo de preconceito, estourou nas zonas nobres. “Os primeiros bailes aconteceram no Canecão (Rio de Janeiro), foram para as periferias e começaram a criar essa identidade entre favela e funk. A linguagem é extremamente voltada para grupos do subúrbio e mostra a sexualidade, violência e vivência de morro. A juventude se identifica, mas isso pode causar algum estranhamento e muitos acham é algo vulgar e banal, mas essa é a música pop do gueto”, explica o professor de artes do colégio Galois e de antropologia do IESB, Claudio Bull.
 
A brasiliense MC Jenny enfrentou preconceitos e vive do funk há 10 anos(foto: Deivid Enderson/Divulgação)
A brasiliense MC Jenny enfrentou preconceitos e vive do funk há 10 anos (foto: Deivid Enderson/Divulgação)
 
 
Se o ritmo ainda enfrenta problemas em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, em Brasília o preconceito é com a música da cidade. Funkeira há mais de 10 anos, MC Jenny emplacou o sucesso Aquecimento da MC Jenny, em 2009, e voltou a aparecer nas casas de shows de Brasília em 2016.

“Quando comecei foi bem difícil, porque muitas pessoas acham que só existe funk no Rio. Os brasilienses valorizam mais os artistas de fora. Até mesmo quando o governo faz um evento, eles preferem artistas que não são daqui. Mas sempre fiz shows fora do DF e vivo só da música em todo esse tempo”, conta a MC.

Do morro para o mundo
Konrad Dantas nem chegou aos 30 anos e já é um dos principais produtores de funk do país. Talvez você não o conheça por esse nome, mas provavelmente já ouviu falar do canal KondZilla. No YouTube desde 2012, o canal acumula mais de 15,6 milhões de inscritos e despontou sucessos como os MCs Livinho, Kevinho, Kekel e Guimê.


“Ele tem um ótimo potencial de lançamento. Todo mundo espera para ver o que vai sair de novidade no canal e quem consegue lançar uma música por lá já tem meio caminho andado”, analisa Lucas Reginato. O portal lança novidades quase diariamente, e foram mais de 10 clipes só na última semana. Entre os vídeos, o com o menor número de visualizações tem mais de 300 mil.


Reginato ressalta também que as músicas do canal não são censuradas, logo, eles postam todos os tipos de obra, de letras eróticas a românticas. “Depois, quando faz sucesso, eles mudam e transformam o pau em pai”, conclui, com uma referência às duas versões do hit de MC G15, Meu pau te ama e Meu pai te ama.
 
 
Os principais nomes do funk brasileiro de hoje levam aos grandes palcos, inclusive os internacionais, uma versão mais pop do estilo. Anitta incorporou a latinidade do reggaeton às músicas dela desde Sim ou não, parceria com o colombiano Maluma, e agora com Paradinha, hit com letra em espanhol, e começou a ter um estilo mais pop.

A característica também faz parte da carreira de outros nomes como Nego do Borel e Ludmilla, e é apontada como uma jogada de marketing. O sociólogo Breitner Tavares enfatiza que essa é uma questão mercadológica e necessária, visto que há divisão em nichos e os públicos do produto começam a se diversificar.

Embora a estratégia não mostre o funk de raiz, ela pode ser a porta de entrada para o ritmo, segundo o professor de antropologia Claudio Bull. “A Anitta pode abrir caminho para o funk brasileiro conquistar outros países. É um trabalho que começou com o DJ Diplo, que mostrou Deize Tigrona para o mundo após samplear a música dela, Injeção em Bucky done gun”, enfatiza.

Música é crime?
Em maio deste ano, o Senado recebeu uma proposta para tornar o funk um crime. Com 21.983 assinaturas de apoio, a ideia de Marcelo Alonso, morador de São Paulo, está em tramitação na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) da casa.

A sugestão propõe a “criminalização do funk como crime de saúde pública à criança aos adolescentes e à família”. Na descrição da ideia legislativa, Alonso aponta o funk como uma “falsa cultura” e diz que as letras contêm “conteúdos podres”. O senador escolhido como relator da matéria foi o carioca Romário Faria, recém-filiado ao Podemos. O parlamentar fez um post no Facebook se posicionando contra a proposta e afirmando que seria feita uma audiência pública para debater o assunto.

“Eu, como um carioca nato e um eterno funkeiro, sou totalmente contra a proposta. Além de ser inconstitucional, por atentar contra a liberdade de expressão, o funk tira pessoas do desemprego, gera renda e movimenta a economia. Como bem disse a presidente da comissão, senadora Regina Sousa (PT-PI), o funk começou no Rio de Janeiro, mas ganhou o Brasil”, escreveu.
  

* Estagiária sob a supervisão de Vinicius Nader



Cinco funks mais ouvidos na lista TOP 50 Brasil do Spotify

Fazer falta - MC Livinho

Vai embrazando - MCs Zaac e Vigary

Tô apaixonado nessa mina - MC Kevinho

Rabetão - MC Lan

Joga o bumbum tam tam - MC Fioti
 
 
 
Confira 
 
Fazer falta, Livinho 
 
 
Vai embrazando, Zaac e Vigary
 
 
Post do Romário
 


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