Publicidade

Correio Braziliense

Fotobiografia revela aspectos inusitados de Oswaldo Aranha

Oswaldo Aranha foi um dos grandes estadistas brasileiros. Em 1948, chegou a ser indicado ao Prêmio Nobel da Paz


postado em 15/07/2017 07:00

Gaúcho pronto para a luta: ele liderou a Revolução de 1930(foto: Editora Capivara/Reprodução)
Gaúcho pronto para a luta: ele liderou a Revolução de 1930 (foto: Editora Capivara/Reprodução)

 

Para as novas gerações ou para os que não têm intimidade com  a história brasileira,  Oswaldo Aranha está reduzido a uma célebre receita de filé batizada com seu nome e que figura em quase todos os cardápios. Mas ele foi um dos grandes estadistas brasileiros. Em 1948, chegou a ser indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Não ganhou. No entanto, é um personagem crucial da história brasileira e se destacou em três momentos decisivos: a Revolução de 1930, da qual foi um dos líderes; a entrada do Brasil ao lado dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, e na divisão da Palestina na ONU, que tornou possível a criação de Israel.

 

Esse personagem fascinante é revelado em Oswaldo Aranha - uma fotobiografia, de Pedro Lago (Ed. Capivara). O primeiro embaraço a ser contornado foi a relação entre o autor e o fotobiografado. Pedro é neto de Oswaldo Aranha. Ele driblou o desconforto com um recurso engenhoso: a trajetória do avô é inteiramente narrada mais de 500 depoimentos de contemporâneos ou de estudiosos da vida política brasileira, acompanhada de uma rica iconografia de fotos, caricaturas e reproduções de páginas da imprensa: “Mas eu não deixei os depoimentos soltos”, comenta Pedro Lago: “A cada duas páginas fiz uma chamada para contextualizar os temas. O mais interessante foi ouvir a voz dos outros e, inclusive, de pessoas que estavam em desacordo com Oswaldo Aranha”.

 

Nomes tutelares

A geração de homens públicos anterior à de Oswaldo Aranha (Rui Barbosa, Rio Branco, Joaquim Nabuco) foi amplamente homenageada por uma jovem República ainda ávida por nomes tutelares, lembra Pedro Lago. “Não foi esse, porém, o caso das figuras das gerações seguintes, que não ocuparam a presidência, pois nem mesmo Ulysses Guimarães é lembrado hoje na medida dos seus feitos. Há pouco espaço na historiografia para quem não ocupa a presidência da República”.

 

Os historiadores reconhecem que, sem a intervenção enérgica de Oswaldo Aranha, a Revolução de 1930 poderia ter tomado rumo diverso: “Talvez essa revolução não acontecesse se fosse liderada apenas por Getúlio Vargas ou quem sabe não aconteceria da maneira que ocorreu. Pesaram o entusiasmo e a capacidade de articulação política”, comenta Pedro.

 

Além de personagem relevante da história brasileira, Oswaldo Aranha foi um cidadão do mundo. Destacou-se na condição de embaixador do Brasil nos Estados Unidos e presidiu duas Assembleias Gerais, órgão máximo da ONU. A Palestina estava sob o poder dos ingleses há 30 anos e o território era cobiçado pelos árabes e pelos israelenses, que sonhavam em criar Estados: “Os árabes recusaram a partilha”, comenta Pedro. “Se tivessem aceitado teriam criado o Estado Palestino e a situação seria completamente diferente no Oriente Médio”.

 

A atuação de Oswaldo Aranha lhe valeu a indicação para o Prêmio Nobel da Paz em 1948, que, no entanto, não foi concedido a ninguém naquele ano. Durante a Segunda Guerra Mundial, a maioria dos ministros militares do Brasil tinha simpatia pelas ditaduras de Hitler, na Alemanha, e de Mussolini, na Itália. Mas, graças à habilidade política e à tenacidade, Oswaldo Aranha conseguiu que o Brasil tomasse partido dos Aliados e lutasse contra os nazistas: “Ele conseguiu esse alinhamento em um ambiente que não era nada favorável à decisão”.

 

Oswald Aranha se destacou, ainda, nas funções de ministro da fazenda e de embaixador brasileiro nos Estados Unidos. Nos tempos de solteiro, ele teria sido escolhido pela dançarina norte-americana Isadora Duncan, de passagem pelo Rio de Janeiro, para um fugaz, mas rumoroso encontro com a diva.

 

A fotobiografia inclui múltiplas dimensões da vida do personagem: do filho de uma família rica até a amizade com os artistas, passando pelas paixões, a liderança nas revoluções, o gosto pela democracia, o compromisso com interesse público e as aventuras amorosas. “O contraste é imediato neste momento em que estamos conhecendo a pequenez, não direi de toda, mas de boa parte da classe política brasileira”, comenta Pedro Lago. “Ele pertencia a uma geração de políticos idealistas que pensam no interesse público e na construção do Brasil”.

 

Depoimentos

“Nada terá lisonjeado mais o líder acadêmico, afoito, ardente, bem posto, que a fortuna de haver apertado em seus braços, numa noite de aventura em Copacabana, uma das mulheres mais fulgurantes da época, Isadora Duncan”.

Moysés Vellinho, 1976

 

“A personalidade de Oswaldo Aranha era fabulosa.... Fisicamente irresistível, seu tipo popularizou-se rapidamente, identificável de longe em fotografia, desenhos ou caricaturas”.

Hélio Fernandes

 

“Na sequência da Revolução de 1930, bem me lembro de uma coisa de sua elegância meio blasée, de sua silhueta fina, do chapéu, do cigarro”.

Dinah Silveira de Queiroz

 

“Pelo menos um dos riograndenses que Getúlio levara para a equipe de trabalho no Catete lhe permaneceria fiel: Oswaldo Aranha. “Não serei nunca rato de naufrágio, vou até o sacrifício total”.

Lira neto, historiador

 

“A carreira de Aranha nos Estados Unidos foi espetacular. Ele foi provavelmente o mais popular embaixador latino-americano”.

John Gunther, 1941

 

“Aranha é mais em muitas coisas... Em primeiro lugar, é um herói, um herói verdadeiro saído da revolução moderna do Brasil. É do conhecimento geral que foi transportado por multidões ao longo das ruas do Rio de Janeiro”.

Orson Welles, 1942

 

SERVIÇO

Oswaldo Aranha – Uma fotobiografia

Pedro Lago/Ed. Capivara

411 páginas

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade