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Correio Braziliense

Escritores contam como a literatura se coloca na contemporaneidade

Principal desafio continua sendo escrever algo que desperte interesse do público


postado em 02/10/2017 06:00 / atualizado em 03/10/2017 14:51

Luisa Geisler: prêmios e profissionalismo(foto: Conor McCabe/ Photography Ltd)
Luisa Geisler: prêmios e profissionalismo (foto: Conor McCabe/ Photography Ltd)
 
Entre o renome das grandes editoras, as possibilidades da internet, a tradição do impresso e a despretensão de jovens autores, a produção literária no Brasil se sustenta. Sejam eles escritores premiados ou estreantes que buscam um caminho firme na carreira, um objetivo é compartilhado: os projetos literários são criados pela parceria entre a realização própria e a empatia despertada no leitor. 

Luisa Geisler optou por dedicar-se inteiramente a um trabalho de qualidade, iniciando sua carreira na literatura aos 19 anos, quando ganhou um prêmio Sesc com o livro Contos de mentira. No ano seguinte, a autora emplacou seu primeiro romance, Quiça, que também saiu como premiado no Sesc. Para ela, o mais importante é  a empatia: "A empatia talvez seja do que mais precisamos para um diálogo, e gosto de ter isso no que escrevo. O leitor, confesso, é quem quiser ler. Tenho referências da  alta literatura e outras mais cultura pop e cada um pode ler como quiser", destaca a gaúcha.

Publicada pela Record, uma das grandes editoras do mercado atual, Luisa opta por escrever uma literatura que não seja panfletária. 

Para ela e para o também premiado autor Ricardo Lísias, mais do que se perguntar como fazer as relações públicas do seu trabalho, um autor tem que escrever algo que seja bom e cause interesse. Ricardo estreou na literatura em 1999, com o romance Cobertor de estrelas e se viu envolto em polêmicas com suas últimas publicações. A confusão entre realidade e ficção é marca de sua escrita e costuma despertar grande envolvimento com o público leitor, constantemente desafiado por Lísias. 

Projeto de criação


 
As manifestações que explodiram no país e a qualidade da literatura contemporânea brasileira são alguns dos temas que permeiam suas publicações, sucesso de crítica e de público. “Na hora de escrever penso exclusivamente no meu projeto de criação. Acho que no meu caso certo público compreendeu minha proposta e a está acompanhando”, destaca o autor.

Lísias busca, nesse momento, fazer uma literatura que recuse o conceito de representação e trabalhe com outro, o de intervenção. Assim, é uma exigência do seu projeto que ele pense na sociedade, já que os textos pretendem intervir nela. “Sem dúvida é possível: há um grupo de políticos por aí bastante incomodado com um trabalho que fiz, tanto que fez de tudo para neutralizá-lo”, destaca. Para ele, é preciso esquecer a produção que pense no mercado, escrevendo com dedicação de acordo com os interesses de cada projeto literário. “Acho que o escritor deve se preocupar exclusivamente com desenvolver o seu projeto. Já é coisa demais!”.



O olhar do editor

Eduardo Lacerda é criador e editor da Patuá, uma das editoras menores que se firma com qualidade na produção contemporânea e se coloca como opção para novos autores. O editor destaca que a divulgação da escrita, a comercialização do livro e a distribuição são também importantes para a obra e para o encontro do escritor com os leitores. A participação, mesmo que sutil, nas redes sociais, blogs e eventos literários ajuda na divulgação do livro e permite que mais leitores conheçam o que é produzido.

Para ele, o trabalho do editor é também um recorte de suas escolhas pessoais. “Em quase uma década editando literatura, vejo que os diálogos que estabelecemos são sempre além daquele que propomos, pois por mais que exista uma proposta editorial, dialogamos com o imprevisível, com a recepção de poesia, de literatura, de cultura e essa recepção é dinâmica, ela se altera com o tempo”, afirma.

Eduardo destaca que a forma como os leitores recebem a publicação de um livro de poemas e a forma como os leem pode mudar em pouco tempo, então, por mais que existam planos preestabelecidos, como os leitores receberão e como esses leitores vão responder, isso é sempre imprevisível. “É quase sempre a construção de uma nova literatura, cada leitor reconstrói a literatura, isso é fascinante”. 

Para ele, o encontro com novos leitores, que ainda não têm o hábito da leitura, está entre as experiências mais fascinantes. São esses leitores que trazem experiências novas e inusitadas, motivando seu processo de trabalho e criando a percepção de que é sim possível atrair e criar constantemente novos leitores.


Outras possibilidades

 

O jovem João Doederlein publicou recentemente sua primeira obra pela Companhia das letras, O livro dos ressignificados, que dialoga com o público jovem. O autor é parte de uma nova geração de escritores que busca se firmar através de novas plataformas e se insere na produção literária a partir de outros caminhos e alcança grandes números de leitores com sua forte presença na internet. João quer expressar uma escrita aberta e simples, que consiga conversar com um grande público.

Seus textos são regados de experiências pessoais e podem ser lidos por crianças, adolescentes e adultos. “Acho que meu conteúdo é democrático e eu fico feliz com isso. Por postar em plataformas digitais, acabei atingindo muitos jovens, e isso me deu a oportunidade de lançar um livro físico que consegue conversar com um público mais tradicional”, conta. Para o escritor, as redes sociais conversam com o leitor em sua rotina diária, como um lembrete constante de sua produção literária.

O que se destaca entre ele e outros autores de sucesso na produção contemporânea é a originalidade do trabalho e a ausência de preconceitos com gêneros literários. Escrever sempre, de maneira constante e cotidiana, é a prática essencial, além da própria leitura e busca por referências. O mercado é amplo e para encontrar um lugar entre as obras que circulam com eficiência, é preciso encontrar um projeto literário próprio, original, com qualidade e boas histórias, atraindo diretamente o leitor.


Três perguntas/Eduardo Lacerda



Como é possível acessar de maneira eficaz os novos leitores?
Penso muito em como podemos atingir novos leitores. Acho que o escritor não necessariamente precisa pensar no público quando escreve, você não escreve para um leitor ideal esperando aquele texto, aquele livro, isso limitaria muito o que pode ser a literatura. O trabalho de formar novos leitores passa por outros profissionais, passa pela educação, pela criação de bibliotecas, pela valorização dos profissionais envolvidos com o livro, como revisores, ilustradores, passa pela democratização do acesso ao livro, pelo incentivo à criação de livrarias de rua, pela diminuição do preço do frete, pela valorização do escritor e sua profissionalização.

Qual é o lugar do escritor?
É muito ingênuo, é perverso, pensarmos que a responsabilidade de formar o público é exclusivamente do escritor. Mas, se não é uma responsabilidade exclusiva, acredito que vivemos um tempo em que escritores com boa vontade de acessar o público podem encontrar mais leitores do que aqueles que se isolam (e não estou afirmando que nenhum dos dois perfis é melhor do que o outro, apenas que quem procura o público, frequenta eventos, bate-papos, palestras, feiras, festas, tem uma chance maior de ter seu livro, agora, para a literatura que cada um escreve, isso é somente acessório descartável).

O que é preciso para ser um bom escritor  e  se manter no mercado? 
Para a literatura, eu acho que é importante esquecer o mercado e o meio literário, isso não é literatura. O mercado serve a interesses comerciais, o meio literário a interesses corporativistas, é só meio mesmo, não é início e nem um fim. Claro, vivemos nesse mercado e nesse meio, precisamos pagar as contas, formamos naturalmente grupos de interesses comuns, tudo isso é natural e acontece, mas a literatura deveria mesmo ser algo além de tudo isso. Então, se isso é um conselho, eu aconselho ao escritor apenas escrever, procurar escrever bem, mas isso também é tão imprevisível. Pode-se perfeitamente escrever bem e não ser um bom escritor.





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