Publicidade

Correio Braziliense

Série documental do Canal Brasil mostra representação das mulheres

O projeto representa as mulheres no cinema em suas diversas instâncias, como um espelho da sociedade


postado em 21/10/2017 07:33 / atualizado em 20/10/2017 19:20

Convidadas como Fernanda Montenegro discutirão a mulher e o cinema, no Canal Brasil(foto: Ana Paula Amorim/Canal Brasil)
Convidadas como Fernanda Montenegro discutirão a mulher e o cinema, no Canal Brasil (foto: Ana Paula Amorim/Canal Brasil)
 
O cinema visto como um espelho da sociedade, ao final de cada ano, desponta em forma de série no Canal Brasil. “Sempre fazemos reuniões, elencando temas para o projeto anual. Mas, este ano, a questão a ser desenvolvida estava evidente. Foi unânime a ideia de representar o vigor da discussão da presença feminina no cinema”, conta a diretora e apresentadora da série (em seis episódios) A mulher no cinema, Simone Zuccolotto. Ela faz questão de sublinhar: “Não é uma série feminista ou panfletária; queremos provocar, na verdade, reflexão”.

A partir da próxima terça (e sempre às terças, às 21h), o canal de tevê a cabo exibirá o programa que elenca nomes como os das atrizes Leandra Leal, Nicole Puzzi; das diretoras Anna Muylaert e Laís Bodansky, além da escritora Mirian Schröeder. “Analisamos ciclos da produção nacional e ampliamos o leque de entrevistadas, para extrapolar o campo da experiência individual de cada profissional, entre atrizes, diretoras e produtoras”, explica Simone Zuccolotto.
 

Pesquisadora dedicada, ela conta que concilia a série com o dia a dia do trabalho, e molda um painel decantado, com muita informação. Entre dados, há registro de presença feminina ainda incipiente; ainda que crescente, ano a ano. “Entre 1961 e 1970, as cineastas eram 0,68% da força de trabalho; e, em 2006, a faixa era de 20,3%. Até hoje, foi Tizuka Yamasaki, com o longa Lua de cristal, que cravou a melhor marca, com mais de 4 milhões de espectadores. O aumento do poder das mulheres, com maiores orçamentos em campo, promete recriar resultados positivos”, explica a diretora e apresentadora.

Dogma do sexo

Questionada sobre feminismo, no programa, a atriz Fernanda Montenegro discorda de uma possível “ponte” entre o movimento estruturado no passado e a efervescência do tema, na atualidade. “É um movimento contínuo: ele nunca parou”, observa. Símbolo da presença da mulher, justamente na retomada, o longa de Carla Camurati Carlota Joaquina (1995) está entre os títulos elencados no programa. Estruturado por mulheres, mas com equipe técnica predominantemente masculina, A mulher no cinema coloca em primeiro plano profissionais pioneiras como as diretoras Carmem Santos e Gilda Abreu.
 
“Na série, a Glória Pires, por exemplo, conta que nunca foi preterida por ser mulher. Acho que as mulheres começaram a pagar contas, e isso mudou muito da dinâmica e dos pensamentos sociais”, comenta Simone Zuccolotto. Enquanto acredita na capacidade e na sensibilidade de diretores como Gabriel Mascaro, Kleber Mendonça Filho e Karim Aïnouz de exercerem a visão feminina, a diretora reitera o novo posicionamento das mulheres no mercado de trabalho. “Não se trata de substituição de mão de obra, ou vingança (risos). Há, na verdade, a ocupação natural de espaços”, diz.
 
A série do Canal Brasil trará debates sobre a propriedade das mulheres de esmiuçarem determinados assuntos. As atrizes Ingrid Guimarães e Helena Ignez são algumas que falam de aspectos do cinema novo, da fase marginal e das comédias contemporâneas. Em material de arquivo, as humoristas Dercy Gonçalves Zezé Macedo também despontam, em termos das chanchadas. “Houve certa hostilidade, a princípio, na acolhida delas. De Dercy, exigiram atitudes masculinas e o uso de palavrões. No caso da Zezé, ela mesma diz que as comédias lhe tacharam como a “empregadinha do Brasil”. Na série, tratamos dos estereótipos da feia engraçada e da bonita burra”, adianta Zuccolotto.
 
Ao lado da filósofa Márcia Tiburi, a escritora Nélida Piñon areja a perspectivas das mulheres na telona. “Todo o movimento (como o do feminismo) começa histriônico. Depois, vai para a cátedra (o tom professoral). Daí, é que se torna canônico (dogmático)”, observa a autora imortal. Entre as entrevistadas, Leandra Leal defende a existência de olhares diferenciados, masculinos e femininos, a exemplo da maioria. Símbolo do rearranjo social das mulheres, a autora Simone de Beauvoir é lembrada, pela leitura intercalada de trechos do ensaio O segundo sexo (1949), a cargo da atriz brasiliense Maeve Jinkings, que ainda concedeu entrevista ao programa.
 
Em A mulher no cinema, Maeve explica a importância do longa Amor, plástico e barulho, na trajetória. O filme foi espécie de marco para a libertação da sensualidade da personagem, uma vez que Maeve se descolou da questão autoimposta de não ter o corpo explorado, no contexto do audiovisual. A nudez ainda é discutida por atrizes representativas na pornochanchada: Nicole Puzzi e Monique Lafond. A primeira sempre defendeu uma atitude libertária, enquanto Lafond comenta da imposição da nudez em determinadas produções. Também falando de sexo, Fernanda Montenegro, em depoimento, conta da nulidade da nudez, que nunca trouxe impeditivo para que seus personagens dialogasse com o eros (a divindade do amor).

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade