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Correio Braziliense

Exposição no CCBB brinca com os sentidos em obras de arte interativa

Mostra Disruptiva já foi vista por mais de 22 mil pessoas


postado em 22/10/2017 07:30

 
Gabriela Buzzi foi direto para a obra que embala o corpo a vácuo (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )
Gabriela Buzzi foi direto para a obra que embala o corpo a vácuo (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )
 
 
Imagine um mundo no qual você pode subir em um balanço e ver a Terra lá das estrelas, ser esmagado por dois enormes travesseiros de ar, desenhar com uma bola gigante, ser embalado a vácuo, brincar com as pinceladas de Van Gogh e até trocar de sexo para contemplar uma praia deserta. E quando estiver fazendo tudo isso, estará também em plena prática da fruição artística, uma expressão que críticos e curadores de arte gostam bastante para falar do ato de usufruir ou aproveitar uma obra de arte. Sim, porque tudo isso acontece em um contexto artístico, entre as quatro paredes de uma galeria.

Foi mais ou menos essa descrição meio fantasiosa que atraiu os amigos Gabriela Buzzi, 29 anos, Danilo Rocha, 29, e Artur Morbeck, 23, ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Eles ouviram falar de uma exposição interativa com obras que plastificavam o público a vácuo e foram direto para o pavilhão de vidro de Disruptiva, mostra que comemora os 18 anos do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (FILE). Inaugurada no dia 12 de outubro, a mostra tem provocado filas e foi vista por mais de 18 mil pessoas nos últimos 10 dias. “Fiquei sabendo que tinha interação e que essa parte do vácuo era a mais interessante, então vim num horário mais calminho”, explica a bióloga Gabriela, que não teve medo de ficar suspensa no vácuo entre duas folhas de plástico ao experimentar a obra Shrink, do belga Lawrence Malstaf. 

O advogado Danilo Rocha costuma frequentar exposições de arte porque enxerga nelas uma oportunidade de viver experiências que não conseguiria vivenciar em nenhum outro espaço. E para isso, não há necessidade de interação, mas Disruptiva, nesse sentido, surpreendeu. “É uma experiência única, que nenhuma outra exposição proporcionou”, garante. A alemã Inger Bornhorst, 74, não hesitou em se deixar espremer por dois travesseiros gigantes preenchidos com ar. “É formidável”, diz. “A experiência faz com que o corpo reaja ao equilíbrio.” Ela nunca havia visitado uma exposição tão interativa antes, mas garante que essa linguagem é uma tendência no mundo da arte.
 
Para o engenheiro Lemi Maranhão, a exposição é uma oportunidade de explorar os sentidos (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Para o engenheiro Lemi Maranhão, a exposição é uma oportunidade de explorar os sentidos (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 
Uma tendência que fez a artista plástica Karine de Lima, 42, e a curadora Liliane Magalhães, 56, refletirem sobre os rumos da arte contemporânea. “Estamos vivendo uma época em que as pessoas procuram integrar o corpo, a mente e o espírito”, acredita Liliane. “E essa arte interativa consegue dar conta de todos esses estímulos, você vive de forma integrada a experiência. O povo ortodoxo das artes visuais quer o cubo branco, mas esse cubo é a isenção diante de uma arte contemporânea intensa.”

Karine lembra que a enorme exposição da sociedade contemporânea às imagens faz com que os públicos de mostras de artes queiram algo a mais que o estímulo visual. “Vivemos uma experiência visual tão intensa e variada que as pessoas acabam se interessando pela experiência corporal que altera a percepção delas. E esses trabalhos (de Disruptiva) alteram as condições ambientais em que o corpo está.”
 
 

De fato, boa parte das obras trabalham os sentidos e sensações que o corpo pode experimentar. Algumas das tecnologias utilizadas pelos artistas já podem ser consideradas mais comuns ou convencionais. É o caso da realidade virtual, presente em muitas obras, e da interação com videogames. São linguagens com as quais boa parte do público tem alguma familiaridade. No entanto, as maneiras como são utilizadas pelos artistas podem ser provocativas. Disruptiva está dividida em quatro seções intituladas Corpo vivencial, Corpo cinético, Corpo virtual e Corpo lúdico.
 
A alemã Inger Bornhorst nunca havia estado em uma exposição tão interativa(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
A alemã Inger Bornhorst nunca havia estado em uma exposição tão interativa (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 
O foco é diferente em cada uma. Experiências que envolvem o corpo inteiro foram reunidas na seção vivencial, no Pavilhão de Vidro. Ali estão obras como Shrink, Physical mind, o par de travesseiros gigantes do holandês Teun Vonk, que consiste numa tentativa de alinhar corpo e mente por meio da pressão, e o tapete de onda Piso, dos brasileiros Rejane Cantoni e Leonardo Crescenti. Na seção Corpo Cinético, cuja estrela é o movimento, o destaque fica por conta de Swing. A obra dos alemães Thi Binh Minh e Christin Marczinzik é formada por um balanço e um óculos de realidade virtual que levam o espectador a se afastar da Terra na medida em que se balança. O contraste e a confusão entre o que existe e o que não existe fazem parte de Corpo virtual. Ali, é possível alterar as pinceladas de Van Gogh em A noite estrelada, do grego Petros Vrellis, e até encontrar o mestre em The night café, do americano Mac Cauley.

Com uma perspectiva das ciências exatas, o engenheiro Lemi Maranhão, 33, encara Disruptiva como uma oportunidade de compreender certas situações a partir das sensações. “É uma exposição muito interessante, principalmente para adolescentes, para eles aprenderem a trabalhar os sentidos”, diz. Quando você fica no abstrato, perde o interesse por certas questões, mas, quando você vê acontecendo, é mais interessante”, garante.



Disruptiva – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (FILE)
Visitação até 10 de dezembro, de terça a domingo, das 9h30 às 20h30, no Centro Cultural Banco do Brasil (SCES, Trecho 02, lote 22, Brasília)


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