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Correio Braziliense

Débora Falabella: 'Sou feminista desde que me entendo por mulher'

Brilhante no desfecho da novela 'A força do querer', Débora Falabella comemora a chegada de novos projetos de cinema, e prevê descanso ao lado da filha e dos livros


postado em 22/10/2017 07:00

Débora Falabella acaba de sair do ar com a elogiada Irene, de A força do querer(foto: Jorge Bispo/Divulgação)
Débora Falabella acaba de sair do ar com a elogiada Irene, de A força do querer (foto: Jorge Bispo/Divulgação)

 
Há cinco dias, enquanto a odiada personagem Irene, na novela A força do querer, despencava no fosso de um elevador; números da popularidade da intérprete Débora Falabella seguiam percurso inverso, com ascensão absoluta, na forte repercussão do público, via internet. Perfeccionista, a atriz mineira coroava a carreira crivada de sucessos como os de Avenida Brasil (2012), Sinhá Moça (2006), Lisbela e o prisioneiro (2003) e O clone (2002), verdadeiro ponto de virada, com franca aprovação de todos.

A completa realização, integrada ao Grupo 3 de Teatro, na qual Débora se sente “mais criadora” dos próprios trabalhos, contrasta com o leve titubeio, ao assumir que se sente ainda “um pouco imatura para poder dirigir”. Sorte, portanto, dos espectadores e cinéfilos, cada vez mais estimulados pelas incursões da atriz que, em breve, poderá ser vista nos filmes O beijo (feito ao lado do marido Murilo Benício) e Todo clichê do amor, assinado por Rafael Primot. “Nesse filme, que é feito de várias histórias, eu trabalho numa lanchonete, e sou uma professora que dá aula de Libras. É um filme voltado para este universo, tendo tradução e audiodescrição”, adianta.

Moderna, sem perder de vista a tradição mineira, Débora Falabella é puro encanto, dando, a cada instante, lampejos de inteligência e de arejamento, quando fala do ideal de sociedade. “Sou feminista, sim, desde que me entendo por mulher — independentemente de polêmicas”, sublinha. Reflexo desta determinação e autonomia também transparece na relação com Murilo Benício. “Criamos nossa família, que se multiplica: a gente também escolhe nossa família”, observa, ao falar da harmônica experiência que já completou cinco anos.

Nova moradora do Rio de Janeiro, depois de 10 anos em São Paulo, Débora Falabella — dona de papéis memoráveis em produções como O filho eterno (2016), Senhora do destino (em reprise na Globo), 2 perdidos numa noite suja (2002) e Meu país (2011) — conta que, de férias, se dedicará à filha Nina e às leituras. “Estou relendo coisas que tinha lido, mais jovem. São coisas que, com o passar do tempo, temos outra compreensão. Leio, atualmente, Guimarães Rosa e O segundo sexo, de Simone de Beauvoir”, comenta.

Você acabou de viver um marco na tevê. Afinal, viu Irene (personagem de A força do querer) como vilã? Que sensação tinha, ao se ver na tela? 
Irene foi uma vilã, dentro de uma história. Até porque Irene virou uma mulher que rouba o marido (personagem de Dan Stulbach) da outra, no caso, a Joyce (Maria Fernanda Cândido), da forma mais sem caráter possível. Irene não me trouxe uma vilã clássica. Claro, ela foi vilã, dentro de uma história, sem fazer maldades a todo momento, mas, guardando seus segredos. Acho importante  ter assistido ao meu trabalho. Durante a novela, foi uma forma de pegar o tom, no todo da obra. Foi bom para se notar o tom dos colegas. Não é das coisas mais agradáveis, se ver em cena: tudo tem ônus e bônus. O barato do ator é fazer a cena, na hora. Mas, quando todos os profissionais estão empenhados, e tornam a experiência boa — é ótimo. Ver uma cena, bem montada, bem dirigida... Hoje em dia, sofro bem menos, ao me ver na tevê.

Que resultado colheu nas ruas com a novela?
Irene foi uma personagem interessante, que não pode ser definida de uma maneira só. É uma personagem muito divertida de fazer: você pode ir para qualquer lado — até longe do politicamente correto. Pela primeira vez, tive que lidar com a raiva do público. As pessoas queriam matá-la, e diziam abertamente isso. O público me falou isso, a todo momento, nas ruas, mas sempre de maneira carinhosa, sem ser agressivo. Vem tudo como um elogio; um elogio torto. É muito interessante ver as pessoas com muito ódio (risos). Com a Irene, fiquei emocionalmente distante, mas com muita liberdade para representar. Ela queria conquistar o amor, a qualquer preço. Pelo passado dela, também havia a questão do envolvimento com dinheiro dos outros. No final, acho que Irene realmente começou a enlouquecer. Por não ser correspondida, virou uma mulher obsessiva. Ela perdeu o rumo, com a loucura.

Vinda de tradicional família de Minas Gerais, que desafios teve ao lidar com as artes?
Fui criada com minha mãe, católica. A religião não impede as pessoas de serem artistas. Mas, vivo muito mais com os conceitos do que com a prática religiosa. Na infância, na adolescência, fui muito de acompanhar a Igreja. Meu pai, que é escritor, foi ator muitos anos (Rogério Falabella) e minha mãe (Maria Olympia) cantou no coral lírico por muitos anos. Minha família sempre foi muito ligada à arte, ao cinema, ao teatro. A tradição é realmente uma coisa que existe em Minas Gerais. Aprendi, em casa, que não tem como não viver a profissão o tempo todo. Não é aquela profissão em que você chega em casa e não quer falar do dia: eu trabalho com arte! Como trabalho com sensibilidade isso faz parte da minha vida o tempo todo.

Quem são os colegas que admira e que parcerias foram importantes?
Tem a Yara de Novaes, minha sócia no Grupo 3 de Teatro, a Grace Passô (recém-premiada, no Festival do Rio, por Praça Paris). Na televisão, ainda jovem, tive oportunidade de trabalhar com grandes atores como Paulo José, logo na minha primeira minissérie (Um só coração). É um aprendizado que se ganha, até pela observação. Trabalhei com o Raul Cortez, com a Marília Pêra. Tive contato muito próximo com eles. Sou uma pessoa quieta, que gosta mais de observar do que de falar.

Você vai muito ao cinema? É uma arte pulsante? O que achou do polêmico Mãe!?
Fui ver o longa do Darren Aronofsky, sem saber nada do filme. Ele deixa aberto para muitas interpretações. Fui ler muitas coisas, depois. Acho que o cinema tem perdido muito, por dar tudo bastante mastigado para o público. Por trabalhar com o teatro, sempre inclinado a refletir metáforas, vejo o filme como algo enriquecedor, ao gerar discussões. Não é um filme fácil de ver: você sai tenso, as coisas ficam na cabeça por muito tempo. Viajamos na interpretação do filme Mãe!, com muitos sentimentos aflorados. A gente não tem visto muitos filmes assim. A arte está aí, para contestar. No teatro, fiz Contrações (do inglês Mike Bartlett), e as pessoas saem com sensações angustiadas, como as de um soco no estômago; pensando.

Falando em maternidade... Na relação de cinco anos com o ator Murilo Benício, você chega a se considerar mãe dos filhos dele?
Mãe, não! Os filhos do Murilo tem mães maravilhosas, assim como minha filha tem um pai maravilhoso. Hoje em dia, temos novas famílias, né? Antes, existia o modelo tradicional do qual meus pais fizeram parte. Isso se abriu pela convivência. Há uma diferença na família. Por enquanto, ninguém (nenhum dos filhos) mora junto (risos). Daqui a um tempo, uma parte vai morar junta, sim. Temos guardas compartilhadas, dos dois lados. O importante sempre estará em compreender e acolher a família, como um todo. Saber como ela funciona é uma coisa muito bonita. Tenho a família, por parte dos meus pais; tenho minha família, pela relação estabelecida com o Murilo e ainda tenho a minha família de amigos. Criamos nossa família, que se multiplica: a gente também escolhe a família da gente.

O que você acha do feminismo?
Na verdade, não vejo como “vibe”. Vejo as meninas, jovens, bem mais engajadas, e fico muito feliz. Tenho tentado, nestes últimos anos, repassar isso para a minha filha. A maneira que ela vai passar isso para a minha neta já será diferente. As mulheres já nascem feministas por si só. A gente, claro, quer os mesmos direitos. Pelos nossos discursos, percebemos que a realidade vai se tornando mais combativa — ou não. Num sentido, sou feminista, sim, com orgulho da palavra. Sou ligada a esta causa pelo que eu sou e pelo que minha filha será. A gente põe filho no mundo para que todos sejam vistos como iguais. Sou feminista, sim, desde que me entendo por mulher, independentemente de polêmicas.

Como estão suas investidas no cinema?
Na Mostra de São Paulo, acabamos de ter o lançamento de O beijo, que tem a primeira direção do Murilo Benício. O filme retrata a história original do Nelson Rodrigues (O beijo no asfalto), mas injetando o ponto de vista dos atores. Eu sou suspeita para falar, por causa do intenso envolvimento com o projeto (risos). Acho que, pelos quase dois anos com o filme, fiquei tão nervosa quanto o diretor pelo lançamento (risos). Na trama, eu interpreto a Selminha (que sofre enorme preconceito, pelo beijo dado pelo marido num moribundo estranho). Acho que Nelson Rodrigues é um ouro nosso, digo, dos brasileiros. Então o filme avança a questão da história, e fala da obra do Nelson, com discussões em mesa, e comentários sobre teatro. Tem metalinguagem. Mas, não posso ficar elogiando, por fazer parte de tudo (risos).

Dos elogios à crítica: como vê o Brasil de hoje?
A gente está vivendo num momento horroroso, né? Mas, ao mesmo tempo, estamos muito mais ligados ao que está acontecendo. Quando eu era adolescente, me interessava pouco por política, e fui morar na Argentina. Por um ano, fiquei muito impressionada de como os argentinos eram politizados. Agora, finalmente, as pessoas no Brasil estão tentando entender o que se passou no país. Acho que, com toda esta ebulição em torno da corrupção, algo de bom há de acontecer. Tenho que ser otimista: tenho uma filha para criar! A gente olha para o lado, e é assustador. Mas, há uma força contrária, com pessoas que querem lutar, com engajamento a favor do feminismo, dos negros, da comunidade LGBT. Os próprios artistas vêm na força contrária: nós ajudamos a criar a resistência!

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