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Correio Braziliense

Lulu Santos fala sobre relação com Rita Lee em entrevista ao Correio

O cantor e compositor acaba de lançar Baby baby, disco em homenagem a Rita Lee


postado em 28/10/2017 07:00

Lulu Santos fez uma releitura de 12 canções de Rita Lee que marcaram a sua vida(foto: Leo Aversa/Divulgação)
Lulu Santos fez uma releitura de 12 canções de Rita Lee que marcaram a sua vida (foto: Leo Aversa/Divulgação)

 
Lulu Santos sempre perseguiu Rita Lee. Ele ainda era chamado de Luiz Maurício (nome de batismo) e tinha 14 anos, quando foi ao estúdio da TV Globo, no Jardim Botânico (Rio de Janeiro), assistir à gravação do programa Som Livre Exportação, só para ver a cantora, que na época era vocalista de Os Mutantes. Mais tarde, trabalhando na gravadora Som Livre encontrava com frequência a futura mama do rock brasileiro e chegou a tocar baixo na gravação de Ôrra meu!, um dos sucessos do disco dela de 1980.

Segundo o pop star carioca, as canções de Rita (que em dezembro completa 70 anos) marcaram de forma profunda diferentes períodos da sua vida. Intuitivamente, desde 1997 desejava demonstrar publicamente a paixão pela “ídola”. Até que, em meados do ano passado, impactado com a leitura de Rita Lee: Uma autobiografia, decidiu levar seu projeto adiante.

Em Baby baby!, o álbum que está sendo lançado pela Universal Music, Lulu explicita sua admiração, ao fazer a releitura de 12 canções da compositora paulistana — a maioria feita em parceria com o marido dela e guitarrista Roberto Carvalho. O hitmaker que assina a produção teve como co-produtores os DJ Memê, Sany Pitbull, Hiroshi Mizutani e as equipes Tranquilo Soundz (Breno LT, Marcelinho da Lua e Márcio Menescal) e Fancy Inc (Adriano Dub e Matheus Rodrigues) .

O repertório é constituído por clássicos de diversas fases da trajetória de Rita, entre os quais Mamãe natureza (Atrás do porto tem uma cidade, 1974), Ovelha negra (Fruto proibido,1975), Mania de você (Rita Lee, 1979), Baila comigo (Rita Lee, 1980), Desculpe o auê (Bombom), Alô alô marciano (Bossa’n’roll, 1991). Mas há também os lados B Fuga nº 2 (Mutantes, 1969), Disco voador (Babilônia, 1978) e Paradise Brasil (Reza, 2012).

Entrevista / Lulu Santos

A ideia de gravar o Baby baby surgiu quando?
Outro dia, Nelsinho Motta lembrou que em 1986, num restaurante em Londres, eu havia falado que gostaria de gravar músicas da Rita Lee. Eu me esqueci daquilo, mesmo tendo uma grande atração pela obra dela, pois a Rita é a nave-mãe do pop brasileiro. A decisão de gravar o disco veio na primeira semana do que seria o meu ano sabático. Ao ler a biografia dela, atento ao avesso, ao carbono do livro, vi como cada uma daquelas canções marcou um tempo da minha vida. Ali estava a história da minha vida. Deixei as férias de lado e passei a me dedicar à pré-produção do álbum, totalmente sob o ponto de vista do fã.

Quando ela tomou conhecimento do projeto?
Desde o momento em que decidi gravar o Baby baby, me comuniquei com a família. Inicialmente, com o Beto Lee, de quem eu tinha o WhatsApp. Depois, recebi uma mensagem do Roberto Carvalho dizendo que se eu quisesse fazer o disco, a Rita adoraria. Durante os seis meses da pré-produção, estive sempre em contato com eles, passando informações. Já com o CD pronto, ela postou no Facebook impressões sobre o trabalho. Quis fazer algo que viesse a trazer alegria para eles e acredito que consegui.

Como profundo conhecedor da obra da Rita, a escolha do repertório foi fácil ou difícil?
Não tive dificuldade. Foram escolhas afetivas. Abri com Disco voador, uma canção que tanto ela quanto eu temos a mesma receita. É aquela levada do pop rock brasileiro clássico que nos aproxima. Abri de uma forma que conduzisse o repertório com leveza até chegar a Paradise Brasil. A segunda parte do disco é mais desafiadora.

Você quis a participação do Memê e dos outros DJs desde que idealizou o projeto?
Isso foi mais ou menos natural. Trabalho com o Memê há 30 anos. Um pouco antes de começar a pré-produção do Baby Baby, fiz uma colaboração no disco dele. Coloquei letra numa música de Celso Fonseca e Marcos Valle e cantamos. Numa reunião na minha casa, com eles e um amigo dos Estados Unidos, em que comemos pizza e bebemos champanhe, conversando com o Memê veio a ideia de chamarmos Marcelinho da Lua e outros DJs para participar. A sugestão foi boa, pois eu estava indo para um outro lado, que possivelmente não daria certo. Nos três últimos anos, o Sanny Pitbull, mestre do funk, esteve comigo nos shows. Nos dois primeiros, tocou na banda e, no ano seguinte, abriu as apresentações como DJ residente. Foi importante também a participação do Márcio Menescal, do Tranquilo Soundz, que fizeram as bases.

Na sua avaliação como técnico do The voice Brasil , que contribuição o programa tem dado à música popular brasileira?
A contribuição tem sido dada nem que seja um pouco às avessas. Pode não ser por quem é escolhido como vencedor, por quem é premiado. Mas vem, por exemplo, com o excelente CD de Ayrton Montarroyos (cantor pernambucano que participou com destaque da quarta edição, em 2015). Este ano a gente está muito embalado e confiante no que vem sendo apresentado. No meu time tenho uma aposta muito forte. Esse candidato pode também dar uma boa contribuição à música brasileira.

Neste momento tão turbulento e complicado da vida nacional, a música de Rita Lee pode trazer uma leveza ao ambiente?
Se isso acontecer, melhor. Dia desses, ouvi alguém dizer que ultimamente só o que avança é o retrocesso. Mas, por conta disso, não vou atrasar meu relógio biológico. Eu toco meu barco, fugindo da dança dos vampiros.
 
Crítica

Baby baby, Lulu Santos

Rock diluído em maracas
Paulo Pestana (Especial para o Correio) 
 
Foi a própria Rita Lee quem escreveu que roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido, mas isso faz tempo. Os bandidos de hoje usam botons do parlamento e não têm a menor pinta de rock’n roll; e os roqueiros andam meio comportados demais, como mostra o disco Baby Baby!, que Lulu Santos está lançando, só com músicas de Rita Lee.

Nada mais justo que um tributo a ela; pena que não veio na forma de rock. Lulu Santos mostra a preocupação de ser moderninho, faz parcerias com DJs, emula sons latinos, exagera nos bolerinhos, dá uma passadinha na comunidade para buscar uma levada meio funk. Tem até um bocadinho de rock, mas bem pouquinho.

O bom e velho Lulu Santos aparece na forma de alguns solos muito bem construídos, uma concessão que fica evidente na gravação de Mamãe natureza, de puxada blues, mas que não mereceu uma guitarrinha sequer. Uma pesquisa mais cuidadosa no repertório de Rita Lee também ajudaria a ser menos óbvio.

Há pistas de um verdadeiro tributo na ótima recuperação de Fuga n° 2, ainda do tempo dos Mutantes, e que virou uma bossa progressiva, no espírito libertário de Disco voador, que ganhou um arranjo simplesinho, mas que resgata o espírito moleque de boa parte da produção da homenageada.

Mas quem dá o tom de Baby Baby! é o ritmo solar do caribe. Em Baila comigo, Desculpe o auê, Caso sério, Mania de você, Nem luxo, nem lixo e até em Ovelha negra fica clara a opção por fazer um disco em que a música de Rita Lee seja diluída em congas e maracas.

Estranha opção: Quando fez uma homenagem a Roberto e Erasmo Carlos, há quatro anos, o mesmo Lulu Santos usou a linguagem do rock. Agora, diante de um repertório de rock, ele troca a guitarra por chocalhos.

Para fazer um disco de rock é preciso ter uma banda de rock. Não é o caso.
 
SERVIÇO 
Baby baby
CD de Lulu Santos com 12 faixas. Lançamento da Universal Music. Preço sugerido: R$ 21,90.

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