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Correio Braziliense

Ney Matogrosso faz show com pegada roqueira e temática diversificada

Aos 76 anos de idade e 45 de carreira, o artista está a bordo da mais longa turnê já feita por um artista nacional


postado em 29/10/2017 07:33 / atualizado em 29/10/2017 09:58

Entre os clássicos do show estão Rua da passagem (Arnaldo Antunes e Lenine) e Incêndio (Pedro Luís)(foto: Rita Vicente/Divulgação)
Entre os clássicos do show estão Rua da passagem (Arnaldo Antunes e Lenine) e Incêndio (Pedro Luís) (foto: Rita Vicente/Divulgação)

 
“Estou chocado com a situação a que o Brasil chegou. Há um retrocesso generalizado e voltamos a ser um paisinho de terceiro mundo, em que educação, saúde e segurança pública, itens básicos para as pessoas viverem minimamente com dignidade, foram relegados a um plano secundaríssimo”. O desabafo do cidadão Ney de Souza Pereira, ganha ainda mais força quando externado por um dos nomes de maior representatividade da música popular brasileira, Ney Matogrosso.

Aos 76 anos de idade e 45 de carreira, o artista está a bordo da mais longa turnê já feita por um artista nacional. Atento aos sinais, o espetáculo que o mantém na estrada desde novembro de 2012, retorna a Brasília pela quarta vez. Neste domingo, às 19h, volta a ocupar o palco do auditório master do Centro de Convenções Ulysses Guimarães.

Mesmo sendo um show conceitual, de temática que se conecta com a realidade dos tempos de agora, Atento aos sinais, na visão de Ney, traz uma pegada roqueira. Do repertório à iluminação, passando pela banda que o acompanha, toda a estrutura é de superprodução.
 

Ney já perdeu o número de apresentações que fez com essa excursão. “Sei que já estive em quase todas as regiões do país. Cantei em teatros, ginásios e praças públicas, sempre para plateias numerosas. Mesmo tendo no repertório canções de compositores pouco conhecidos, em sua maioria, o público acolhe com muito entusiasmo e, calorosamente”, comemora. “Curiosamente, ainda não fiz o show em Belém, para aonde vou em novembro”, acrescenta.

Entre os clássicos do show estão Rua da passagem (Arnaldo Antunes e Lenine) e Incêndio (Pedro Luís), que abrem o repertório e que são músicas com letras que remetem à temática de Atento aos sinais. Entre as mais conhecidas do público estão Vida louca (Lobão), Two naira fifty kobo (Caetano Veloso), Amor (João Ricardo e João Apolinário) e Poema (Cazuza e Roberto Frejat). Outras que proporcionam instigantes performances de Ney Matogrosso são Freguês da meia noite (Criolo) e Beijos de imã (Jerry Espíndola, Alzira E e Arruda).

Desde a estreia em Juiz de Fora (MG), em novembro de 2012, Ney tem a companhia  praticamente da mesma banda, formada por Sacha Ambach (teclado e direção musical), Marcos Suzano e Felipe Roseno (percussão), Dunga (baixo), Aquiles Moraes (trompete) e  Everson Moraes (trombone). A novidade é o guitarrista André Valle, que substituiu Maurício Almeida. O cenário tem a assinatura de Luis Stein e Milton Cunha; e o figurino é uma criação de Ocimar Versolato, que trabalha com o cantor há 23 anos.

Entrevista/Ney Matogrosso
(foto: Rita Vicente/Divulgação)
(foto: Rita Vicente/Divulgação)
 
No show do Rock in Rio, com a Nação Zumbi, você cantou oito músicas do repertório do Secos & Molhados. Que importância teve integrar aquele mítico grupo?
Para mim foi um privilégio ter feito parte de uma banda que, sobre vários aspectos, deixou importantíssimo legado para a música popular brasileira, em plena ditadura militar. Fomos ousados e revolucionários e subvertemos a ordem vigente em plena ditadura militar. Não por acaso, Secos & Molhados é reverenciada até hoje. Ter cantado canções como Delírio, Mulher barriguda, Rosa de Iroshima e Sangue latino no Rock in Rio me trouxe doces recordações.

O violonista Raphael Rabello, o clarinetista Paulo Moura e o pianista Cristovão Bastos, todos ligados à MPB, já tocaram em outras formações de bandas que o acompanharam. O que é determinante para a escolha dos músicos?
O repertório que vou interpretar é o que determina a escolha dos músicos. Já fui acompanhado por violinista, violoncelista, pianista. Mas como o Atento aos sinais é o show mais rock que já fiz, quis comigo uma banda com essa característica.

A integração com a plateia é algo incorporado a seus shows. No Atento aos sinais, ocorre na interpretação de Isso não vai ficar assim, de Itamar Assumpção. Ter o corpo tocado pelas pessoas não o incomoda?
Eu estou ali sentado na escada, exposto, cantando uma música em que um dos versos diz “Me beije, me beije, me beije”. Então não tem por que me incomodar se pessoas da plateia venham me tocar. Só não gosto é que me segurem. Se sou liberado, por que quem me assiste não pode ser?

Muita gente se surpreende com a sua invejável forma física. Que tipo de cuidados você tem para mantê-la?
Faço exercícios aeróbicos e puxo peso com regularidade, durante 45 minutos, mas é para manter o tônus muscular ágil e flexível, para ter disposição e saúde; e também estar bem em cena. Faço quatro refeições diárias, como de tudo o que gosto, inclusive sorvete, mas com parcimônia. Sou disciplinado. Há quem diga que esse é o segredo da longevidade.

Vanguardista no aspecto comportamental, como convive com preconceitos em relação à questão da sexualidade e manifestações de homofobia?
O que mais me incomoda é falta de respeito quase que generalizada nessa área. Mas, paradoxalmente, há um movimento de liberação irrefreável se ampliando; e percebo, cada vez mais, a aceitação de quem assume sua sexualidade, independentemente de qual seja.

Na Brasília em que você viveu nos anos 1960, as pessoas eram preconceituosas?
Muito pelo contrário. A cidade tinha uma população reduzida. Todo mundo convivia harmoniosamente. Nas casas da W3 Sul, as pessoas regavam o jardim fumando maconha e ninguém via aquilo como uma coisa de marginal. Aliás, a W3 Sul era onde tudo acontecia. Depois das 22h, só havia homens ali. A W3 e a Rodoviária ferviam.

Que importância Brasília teve em sua vida?
Quando cheguei a Brasília, aos 19 anos, tinha acabado de deixar a Aeronáutica. Brasília me proporcionou a liberação dos meus anseios relacionados com a sexualidade. Foi na capital também que me iniciei artisticamente, estudando teatro, frequentando a UnB e cantando no Madrigal e em casas noturnas. Usufruí muito daquela Brasília que hoje não existe mais, pois passou por grandes transformações, para melhor e para pior.
 
Atento aos sinais
Show de Ney Matogrosso e banda, neste domingo, às 19h, no auditório master do Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Ingressos: R$ 270 (poltrona vip), R$ 200 (poltrona lateral), R$ 170 (poltrona especial), R$ 140 (poltrona especial B), R$ 100 (poltrona superior) — valores referentes a meia entrada. Observação: Os 200 primeiros assinantes do Correio têm 55% de desconto no ingresso de inteira. Pontos de venda: G2 do Brasília Shopping e térreo do Conjunto Nacional. Não recomendado para menores de 14 anos. 

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