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Correio Braziliense

Cultura negra é preservada e difundida no Agô - Samba e ancestralidade

Evento na Caixa traz o cantor e compositor Nei Lopes e artistas como Mateus Aleluia


postado em 15/11/2017 07:30 / atualizado em 15/11/2017 10:26

Mateus Aleluia(foto: Vinicius Xavier/Divulgação)
Mateus Aleluia (foto: Vinicius Xavier/Divulgação)
 
Em tempos de tanta intolerância nos mais diferentes setores da sociedade, a celebração do universo da cultura afro-brasileira não é apenas bem-vinda, como também valores ligados a ela devem ser preservados e difundidos. Essa é a proposta de Agô – Samba e ancestralidade, projeto que ocupa o Teatro da Caixa desta quarta-feira (15/11) até o próximo dia 20.

A temática está presente nos shows dos sambistas convidados e na palestra que Nei Lopes faz na abertura da programação sob o título Samba: Histórias de terreiros. Cantor e compositor, ele é também pesquisador e autor do livro Rio Negro, 50, que versa sobre a afirmação do negro na sociedade brasileira na década de 1950.

Nome consagrado do samba carioca, Nei é coautor de clássicos como Baile do Elite, Goiabada cascão, Gostoso veneno e No tempo de Dondom. Outro título importante de sua obra literária é O samba na realidade: A utopia e a ascensão social do sambista. Após a palestra desta quarta, às 18h, ele faz um show em que passa em revista seu repertório.

Quem se apresenta na quinta-feira (16), às 20h, é o grupo Filhos de Dona Maria, formado por Amilcar Paré (voz e violão), Artur Senna (percussão), Khalil Santarém (voz e cavacolim) e Vinicius de Oliveira (voz, banjo e percussão). “Vamos mostrar o nosso trabalho, pautado na mesma premissa do festival, e que une samba, chula, afoxé, jongo e a musicalidade da capoeira”, antecipa Khalil. “O samba é um grande monumento da nossa ancestralidade negro-africana”, acrescenta.

Na sequência vem Mateus Aleluia, baiano de Cachoeira, no Recôncavo, único remanescente vivo de Os Ticoãs, grupo até hoje reverenciado. Na sua música, ele mescla as tradições daquela região com samba-canção e bolero, e influências de Angola, país africano onde morou por 20 anos.

Glória Bomfim, sambista baiana radicada no Rio de Janeiro, foi vencedora do festival Novos Bambas do Velho Samba, promovido pelo Carioca da Gema em 2013. Naquele mesmo ano ela lançou o CD Anel de aço (Santo e Orixá), com canções de Paulo César Pinheiro, que remetem ao universo do candomblé. Ela já veio à cidade anteriormente para tomar parte nos projetos Samba de Bamba, Terreirada e do festival Abre caminhos.

Filha de cariocas, a brasiliense Teresa Lopes é outra participante do Samba e Ancestralidade. A cantora já dividiu o palco com Almir Guineto e Dona Ivone Lara e, em breve, lança o CD Clara essência. “Só podemos pensar para onde vamos e o que queremos se olharmos para o nosso passado. Quem nós somos e o samba que fazemos hoje vêm da nossa ancestralidade”, frisa.

Para o encerramento do projeto, estão programados o cortejo do Grupo de Percussão Afro Omô Ayo e show de Fabiana Cozza. Nome destacado do samba paulistano, com carreira internacional, ela tem seis discos lançados. O mais recente é Ay, amor, lançado no primeiro semestre deste ano. “Estarei acompanhada por três músicos com quem trabalho há bastante tempo: Douglas Alonso (percussionista e baterista), Henrique Araújo (bandolinista e cavaquinista) e Leo Mendes (violonista). Farei canções que me remetem à ideia do sagrado, que não é sinônimo de religioso”, anuncia.
 

(foto: Bruno Veiga/Divulgação)
(foto: Bruno Veiga/Divulgação)

Quatro perguntas para Nei Lopes

 

Que importância você atribui a projetos como o Agô – Samba e ancestralidade para a disseminação da cultura afro-brasileira no país? 
É sempre bom chamar atenção para este componente fundamental da brasilidade que é a cultura desenvolvida, em todos os quadrantes do País, pelo segmento afrodescendente. E sobretudo neste momento em que o Brasil anda regredindo em termos de políticas sociais, no que desfavorece a inclusão do povo negro que, lamentavelmente, ainda carece de cidadania completa. Eu reflito muito sobre isso, tanto nas minhas músicas quanto nos meus livros. Por isso, a ocupação Agô – Samba e ancestralidade é importante.

O que você vai abordar na palestra e no show Sambas: histórias de terreiros?
Vou falar, a pedidos, sobre o Centenário do Samba, mostrando o quanto o gênero-mãe da nacionalidade brasileira é vítima de toda sorte de preconceitos, principalmente pelos que confundem samba com carnaval. Hoje, a música brasileira vem se empobrecendo também. Enquanto que o samba continua forte e vigoroso, apesar de a grande mídia só dar visibilidade total a outro tipo de música. Também penso muito nisso; e felizmente tem gente concordando comigo, pois em 2015 o meu Dicionário da história social do samba ganhou o Prêmio Jabuti como o livro do ano. Então, eu falo porque estudo e sei; não é por dor de cotovelo.

Qual a sua opinião sobre o Brasil num momento de tanta turbulência e intolerância, nos diferentes setores da sociedade?
Turbulência é pouco. Não sei onde vamos parar com toda essa falta de ética e civilidade.

Que relação tem com Brasília, cidade para onde, por diversas vezes, trouxe seu trabalho?
Brasília tem o seu destaque, na arte, na beleza e arquitetura, como disse Silas de Oliveira naquele belo samba-enredo do Império Serrano, no inesquecível ano de 1964.
 
Agô – Samba e Ancestralidade 
Abertura hoje, às 18h, no Teatro da Caixa (Setor Bancário Sul), com palestra de Nei Lopes, seguida de show. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia). Não recomendado para menores de 12 anos. Informações: 3206-6456.

Programação

15/11 
Às 18h, palestra com Nei Lopes; às 20h, show com Nei Lopes

16/11 
Ás 20h, show com Filhos de Dona Maria

17/11 
Às 20h, show com Mateus Aleluia

18/11 
Às 20h, show com Teresa Lopes

19/11 
Às 19h, show com Glória Bomfim

20/11 
Às 19h, cortejo com Grupo de Percussão Afro Omô Ayo; às 20h, show com Fabiana Cozza

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