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Correio Braziliense

Museu da República faz homenagem a Chico Alvim

O evento antecipa a comemoração de 80 anos de um dos poetas mais importantes do país, autor de uma obra perpassada de ironia


postado em 18/11/2017 07:30

Chico Alvim diz que os tremores do país alimentam sua poesia (foto: Wanderlei Pozzembom/CB/D.A Press-4/5/10)
Chico Alvim diz que os tremores do país alimentam sua poesia (foto: Wanderlei Pozzembom/CB/D.A Press-4/5/10)



Quando Maria Lúcia Verdi deu início ao projeto Poesia do mundo, há quatro anos, queria criar um evento no qual os leitores tivessem a oportunidade de ouvir os versos de poetas estrangeiros no idioma original. Fez então uma edição dedicada à poesia argentina, outra à chinesa e outra à alemã, com convidados nativos dessas línguas que recitavam poemas de grandes autores. Agora, chegou a vez do Brasil e Maria Lúcia não teve dúvida: escolheu homenagear Chico Alvim. A amizade – Maria Lúcia e o poeta são amigos há quatro décadas e ambos aposentados do Ministério das Relações Exteriores – falou alto, mas o caráter social da poesia do amigo foi determinante. “Se você pegar os anos 1930 e tudo que foi teorizado sobre o que é ser brasileiro, tudo isso está na poesia do Chico Alvim. Ele traz questões centrais da brasilidade, questões mal resolvidas da sociedade brasileira”, diz Maria Lúcia.

Poeta, diplomata, autor de seis livros e laureado com dois Jabutis, o escritor radicado em Brasília é dono de uma obra que Maria Lúcia divide em três partes: o social, o lírico e o burocrático. Durante a homenagem, na segunda-feira, no Museu da República, o poeta Nicolas Behr, o professor João Lanari e a própria Maria Lúcia vão ler poemas de Chico Alvim. Um total de 50 livros com os versos impressos serão distribuídos ao público para que acompanhe a leitura.

O aspecto social da poesia de Chico Alvim é, segundo Maria Lúcia, o mais conhecido e reconhecido. “Por causa dessa capacidade notável de colocar na poesia vozes que vêm de todos os lados da sociedade e que representam o que é ser brasileiro”, explica. Mas o lado lírico também é grande e encontra âncoras na obra de nomes como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.

Diplomata

O lado burocrático está ligado ao conflito. “Tem a ver com o fato de ele ter sido, ao mesmo tempo, um intelectual crítico da situação brasileira e representante do Brasil no exterior”, diz Maria Lúcia. Chico Alvim estava em Paris em maio de 1968 e foi afastado do posto dois anos depois por ter assumido postura simpática aos protestos que propunham uma revolução de esquerda no país. “Era o governo Médici e fiquei envolvido com aquelas coisas do período. Não deu em nada, mas com o envolvimento, me afastaram do posto. Me licenciei do Itamaraty e só voltei no governo Geisel”, conta. A visão do poeta aparece em muitos versos da época.

Após as leituras, o próprio Chico Alvim estará à frente de um bate papo com o público para conversar um pouco sobre como a poesia se faz na cabeça do poeta. “Nem sei se tenho esse lugar na poesia, mas a cortejo muito. Ela aceita minha companhia quando quer, não me iludo”, diz. A veia social que caracteriza parte da poesia de Alvim também chama a atenção do poeta. “Acho que existe sim, mas não por uma opção ou destino político”, explica. “Não me considero um ser político. O social me veio quando nasci. São os tremores desse país que me fazem tremer. Vivemos no fio da navalha. E isso não me deixa fazer outro tipo de escrita. Me toma por completo. Faço aquilo que me chega, sou um poeta mais reativo.” Chico Alvim classifica a própria poesia como realista e, por ser inteiramente tocada pela observação social, acaba por resvalar no que ele chama de “todas as faixas da existência”.


Homenagem a Chico Alvim
Com Nicolas Behr, João Lanari e Maria Lúcia Verdi. Segunda-feira, às 19h30, no Museu Nacional da República



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