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Correio Braziliense

Festival Latinidades tem edição especial no Mês da Consciência Negra

Há uma década na programação brasiliense, o Festival Latinidades luta pela valorização da cultura negra


postado em 19/11/2017 07:00 / atualizado em 18/11/2017 12:49

De Moçambique, Zav se apresenta na sexta-feira, no Mané Garrincha(foto: Chairman/Divulgação)
De Moçambique, Zav se apresenta na sexta-feira, no Mané Garrincha (foto: Chairman/Divulgação)

Com mais de 50% do número de habitantes formado por negros, o Distrito Federal é o palco de um dos maiores eventos dedicados à memória da população negra. É o Festival da Mulher Afro-Latina-Americana e Caribenha (Latinidades), que, neste ano, completou 10 anos de existência com uma edição tradicional em julho. Aproveitando o ano de comemoração e também o período, o Mês da Consciência Negra, o festival terá uma versão menor, em parceria com o projeto Conexões Urbanas, que começa em 24 de novembro e segue até o dia 27.

A segunda edição deste ano será composta por atividades formativas, debates e shows. A principal programação será na sexta-feira, 24 de novembro, no Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha (Eixo Monumental), às 19h, com a abertura da Feira Latinidades. A partir das 20h, o evento recebe o desfile de Pinto Música, estilista moçambicano que esteve na edição de julho do Latinidades, e, a partir das 22h, começa o Show Latinidades.

A programação musical, que é um dos destaques do festival, reunirá um time de peso. Do Distrito Federal, foram convidadas as rappers Rosa Luz, conhecida também pelo canal no YouTube, Barraco da Rosa; e Rebeca Realeza. Diretamente da Bahia, o evento recebe Ifá Afrobeat, a banda instrumental que mistura ijexá, funk e afrobeat. De São Paulo, estão confirmadas Preta Rara, rapper e influenciadora digital, e Mara Santtana, pesquisadora e grafiteira que fará pinturas corporais no evento. De fora do Brasil, estarão a compositora e ativista norte-americana Sandra Izsadore e a cantora moçambicana ZAV.



“Foi pela internet que fiquei amiga de Vanessa Soares (dançarina do grupo Dança P. Afrobeat). Nos conhecemos na Nigéria, na Felabration em 2015, quando eu toquei com (a banda) Newen e Vanessa estava dançando com eles. Todos nos unimos, porque tínhamos uma história para contar. Nosso relacionamento continuou crescendo e foi por meio da Vanessa que recebi o convite (para participar do festival Latinidades)”, conta Sandra Izsadore em entrevista ao Correio.

Presenças internacionais

Essa será a primeira vez da artista no Brasil. Pelo mundo, Sandra é conhecida popularmente como a “mãe do afrobeat” e pela relação de proximidade com Fela Kuti, o multi-instrumentista pioneiro do afrobeat, que morreu em 1997. Nascida em Los Angeles, nos Estados Unidos, ela explica que, aos 6 anos, enxergava a diferença como era tratada, o que, no futuro, a motivou a participar de movimentos negros do país nos anos 1970, incluindo a aproximação com o partido Panteras Negras, do qual Angela Davis fez parte. “O que me fez gravitar para a África tão cedo é porque eu podia ver a diferença. Eu via como Hollywood retratava os negros e isso fazia eu me sentir mal. Eu me perguntava e pensava, aos 6 anos, quando estava cercada de crianças brancas e nunca vendo nenhuma imagem positiva de negros, que queria conhecer um africano de verdade. Assim conheci Fela e, sem saber, o ensinei”, lembra.

Essas vivências fizeram com que Sandra expressasse em suas composições questionamentos bastante politizados, como nas faixas Health care for profit (em parceria com Black Nature), em que critica a política estadunidense e a falta de investimento em saúde e educação no país; Greedy rulers, em que fala sobre as questões raciais presentes ainda hoje nos Estados Unidos e valoriza os líderes negros Martin Luther King e Malcolm X; e Family, música composta em homenagem às pessoas assassinadas na boate Pulse, em Orlando, na Florida.



Canções que devem estar na apresentação da artista durante o festival Latinidades. Além de apresentar o trabalho musical, Sandra adiantou que pretende fazer um intercâmbio cultural no festival: “As pessoas podem esperar puro prazer e compartilhamento de conhecimento. O que espero é a boa comida brasileira, a música e experiência cultural. Quero absorver tudo”, admite a artista.

(foto: Latinidades/Divulgação)
(foto: Latinidades/Divulgação)
 
Quatro perguntas/ Sandra Izsadore

Sua trajetória é bastante ligada às questões políticas e raciais. O que te motivou a estudar esses assuntos e a se tornar uma militante?
Minha trajetória está intimamente relacionada com a realidade que está bem na nossa frente. Os povos politicamente e racialmente negros em toda a diáspora foram deliberadamente privados de direitos. Eu não sou militante, sou realista. Vejo o desequilíbrio e a desigualdade que foi implementada por um grupo de ladrões de supremacia branca de motivação racial.

Você integrou o partido Panteras Negras e o Movimento Negro. Como foi essa experiência e o que te influenciou a participar desses movimentos?
Não me juntei a nenhuma organização, mas participei de sua reunião para me educar e tomar consciência da “não história”. O que me motivou a fazer isso foi conhecer a verdade. A experiência foi gratificante para aprender a verdade sobre os negros e para me conscientizar das mentiras que foram ensinadas nas escolas.

Como é sua relação com o Brasil e como vê as questões raciais no país?
Esta será a minha primeira vez no Brasil. Estou chegando com uma mente aberta, pronta para aprender e ser influenciada (por essa experiência). Quero ver a beleza tangível das pessoas. Eu realmente não sei sobre questões raciais no Brasil, mas, se eles são como outros lugares que visitei na diáspora, as pessoas terão de aprender e aceitar a verdade, bem como tomar consciência das mentiras que foram ensinadas.

Pela sua experiência, como você vê a questão racial nos dias de hoje no mundo? Você enxerga progressos ou acha que estamos regredindo?
Da experiência da minha vida, vejo progressos raciais no mundo. Do meu ponto de vista e sentimentos pessoais, as mulheres estão conseguindo superar. Nós, eu e minhas irmãs de todas as cores, não apenas minhas irmãs negras, falhamos (ao longo dos anos) em reconhecer nosso poder. Mas quando as mulheres se juntam em todas as nações, há mudanças positivas no mundo, porque nós mostramos poder.
 
Latinidades
De 24 a 27 de novembro. Em vários espaços de Brasília. Entrada franca. Verifique a classificação indicativa de cada atividade.

Programe-se

24/11 (sexta-feira)

10h e 15h — Atividade formativa e debate: Cultura negra e arte urbana, na Unidade de Internação Santa Maria (UISM). Entrada franca. Classificação indicativa livre.

19h — Abertura da Feira Latinidades, no Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha (Eixo Monumental). Entrada franca. Classificação indicativa livre.

20h — Shows Latinidades, na Areninha no Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha (Eixo Monumental). Com Desfile de Pinto Música e Afrikanus, Rebeca Realeza, Rosa Luz, Preta Rara, Ifá Afrobeat, Sandra Izsadore, ZAC e Mara Santtana, com pinturas corporais. Entrada franca. Não recomendado para menores de 16 anos.

25/11 (sábado)

14h — Atividade formativa: Encontro de negras jovens feministas do Centro-Oeste; Cine clube e roda de conversa, no Mercado Sul (Taguatinga). Entrada franca. Classificação indicativa livre.

27/11 (segunda-feira)

14h — Atividade formativa: Histórias afrocentradas com Jonathan Dutra, no Centro de Ensino Fundamental 4 (Taguatinga). Entrada franca. Classificação indicativa livre.

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