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Correio Braziliense

Contrariando estigmas, mulheres ocupam espaço em bandas de rock de Brasília

Conheças os grupos em que elas atuam como vocalistas, baixistas e bateristas


postado em 22/11/2017 07:30 / atualizado em 22/11/2017 14:22

Durante muito tempo, o rock ficou estigmatizado como algo ligado à figura masculina, muito por conta do estereótipo de rebeldia, que sempre foi mais associado ao homem. Isso se refletiu na falta de mulheres nas bandas predominantes do estilo musical no mainstream. No Brasil, os principais nomes femininos do gênero ainda são poucos, se comparados com os homens. “A gente percebe que 95% das bandas não têm mulher e as que têm, contam, no máximo, com uma ou duas. Não só aqui, mas no mundo. Passei por uma pesquisa árdua para encontrar referências de vocalistas mulheres em bandas de rock no Brasil e não temos muitos nomes. Pesquisei a fundo e, se achei 20 bandas, foi muito”, lembra Louise Boeger, vocalista da banda Matamoros.

Louise é uma das mulheres que têm ocupado espaço no cenário roqueiro de Brasília. Assim como ocorre mundialmente, os grupos mais conhecidos da cidade são formados apenas por homens. Mas isso não quer dizer que não existam mulheres fazendo parte do rock brasiliense. Em algumas bandas da cidade, elas são vocalistas, baixistas, bateristas e violonistas e influenciam o som e o discurso dos grupos. O Diversão & Arte apresenta a seguir algumas dessas mulheres, que, por meio de seus grupos, derrubam os estereótipos roqueiros.


(foto: Karina Santiago/Divulgação)
(foto: Karina Santiago/Divulgação)


Louise Boeger, vocalista da Matamoros
Ter uma vocalista mulher sempre foi uma questão para a banda Matamoros, criada em 2012 por iniciativa dos primos Ivan Sasha (guitarra) e Alysson Stemier (baixo). Para a dupla, esse seria um diferencial, além de uma forma de valorização às influências femininas. Em 2014, Louise Boeger se juntou ao grupo, que tem ainda Júnior Araújo na bateria.

A presença de Louise muitas vezes causa estranhamento no público, como conta o baixista Alysson: “O pessoal pensa que vai rolar um rock leve (por ser uma mulher no vocal), mas o nosso som é pesado, meio heavy metal”. Para Louise, isso ainda se deve ao fato do machismo presente no mundo. “Falta espaço para as mulheres se expressarem. É um problema da sociedade, não só do cenário da música ou do rock. No rock é um pouco maior, porque, durante muito tempo, foi entendido que não era um lugar de menina. Mas estamos aí para provar o contrário”, garante.



Com o som mais inclinado ao hard rock, mas também com influências da MPB e do rap, a banda Matamoros acaba sendo inspirada por Louise em seu discurso. “A gente preza muito em mostrar, pelo nosso som, nossa presença de palco e pelas redes sociais, para outras meninas que elas têm essa perspectiva. Se elas quiserem, podem estar à frente de uma banda e tocar rock’n roll”, afirma Louise. No começo do mês, o grupo lançou um álbum com 10 músicas autorais, além do clipe Coma poeira, produzido com ajuda de um financiamento coletivo no Catarse.

(foto: Sabrina Moura/Divulgação)
(foto: Sabrina Moura/Divulgação)


Maria Sabina, vocalista e cavaquinista da Maria Sabina & a Pêia
Desde 2010, a cantora Maria Sabina sonhava em criar uma banda de rock. O desejo virou realidade cinco anos depois com o primeiro show do grupo que leva o nome da vocalista e conta ainda com Bil (baixo), Bruno Sodré (guitarra), Éveri Sirac (percussão, backing vocal, rabeca e sintetizador) e Janari Coelho (bateria), formando “a Pêia”. O som é uma mistura de estilos, com influência da música brasileira, do rock e da psicodelia.

Mais conhecido no cenário underground, o grupo será a única banda de Brasília com uma mulher nos vocais a se apresentar na edição do Porão do Rock deste ano, que será realizada no sábado. “No underground há muitos grupos de rock de mulheres ou com mulheres integrantes, já no mainstream, não. A explicação (da ausência) é o machismo mesmo. Proporcionalmente há mais homens, pois as mulheres precisam superar muito mais obstáculos para terem tempo de se dedicar à música. É difícil estudar música e cuidar de um bebê, ensaiar e fazer shows à noite e voltar para casa em segurança sozinha, trabalhar muito e ganhar menos”, define.

Segundo Maria Sabina, as influências femininas e masculinas são equilibradas no grupo. “Entendo essa banda como o símbolo do ying-yang. Minha energia masculina se equilibra com a energia feminina dos rapazes”, completa. Com um EP lançado, o Tempo arruaceiro, que tem cinco faixas, a banda negocia com uma gravadora de São Paulo.

(foto: Isadora Godoy/Divulgação)
(foto: Isadora Godoy/Divulgação)


Taís Cardoso, vocalista e violonista da Banda Augusta
Inicialmente um trio, a Banda Augusta ganhou a presença de Taís Cardoso em 2016 para assumir o violão e os vocais, ao lado de Lucas Maranhão (guitarra). Participam do grupo ainda Gabriel Peres (bateria) e Davi Figueiredo (baixo). “Sinto que ter uma figura feminina na banda ajuda na sensação de empatia e identificação com o discurso musical por parte do público feminino, mas atribuo essa influência de forma mais indireta. Digo isso porque nas nossas letras, não fica muito claro quem é que está falando (um homem ou uma mulher). No fim, só queremos compartilhar com o público nossas histórias e sentimentos”, admite Taís.

A vocalista percebe que a falta de presença das mulheres no rock vai muito além do que é visto nos palcos. “É importante ressaltar que isso vem de um cenário predominantemente masculino, não só nas bandas, como na parte técnica, de som, luz e produção, por exemplo. Isso faz bastante diferença. Acaba sendo um reflexo do que está mais invisível ao público. É um ciclo de falta de representatividade”, analisa. Mesmo assim, Taís percebe um cenário mais positivo nos últimos anos. “Essa diferença vem diminuindo aos poucos. É importante valorizar e incentivar o trabalho das que estão surgindo e fazendo acontecer, não só nesse como nos outros estilos”, acrescenta. Em dezembro deste ano, a banda, que tem uma sonoridade de indie, rock, folk e MPB, entra em estúdio para gravar o primeiro EP, que terá seis músicas e será lançado em 2018.

(foto: Lai Victoria/Divulgação)
(foto: Lai Victoria/Divulgação)


Lorena Lima, baixista da Humbold
Criada como um projeto em 2015 por iniciativa de Lorena Lima (baixo) e Guilherme de Paula (voz e guitarra), a Humbold, composta ainda por Guilherme Breda (guitarra, teclado e voz) e Anderson Freitas (bateria e voz), surgiu com a ideia de lançar 3 EPs de rock alternativo — o terceiro será lançado em breve e o primeiro álbum está em processo de composição. Desde o início, Lorena revela que sentiu dificuldade no meio roqueiro. “Mesmo já inserida no cenário do rock demorei anos para conseguir me consolidar em uma banda. Ou não me queriam porque achavam estranho uma menina tocando baixo no meio de homens ou queriam só por acharem legal o visual de uma mina na banda”, lembra.

Para Lorena, fazer parte do grupo tem influência na banda como um todo: “Isso é ótimo porque mostra que também somos capazes de tocar guitarras, baixos e baterias e que o rock não é só ‘coisa de homem’”. A baixista ainda observa que a pouca representatividade feminina está ligada a um problema maior do que o rock. “Acredito que a raiz desse problema está na sociedade como um todo mesmo. Desde os primórdios, as mulheres são associadas com coisas delicadas, e o rock, por ser de certa forma um gênero de música mais agressivo, acaba sendo visto como ‘coisa de homem’. Acho que falta um incentivo para as mulheres também subirem no palco e fazerem música da mesma maneira que os homens”, diz.

(foto: Arquivo pessoal/Divulgação)
(foto: Arquivo pessoal/Divulgação)


Alicia Pilar, vocalista da Navan
A cantora Alicia Pilar é a única mulher no quinteto que forma a banda Navan, criada no ano passado. Ao lado de Gustavo de Bem (bateria), Harry Matos (baixo), Matheus Machado (guitarra e voz) e Pedro Gonçalves (guitarra), Alicia luta por espaço no cenário roqueiro autoral da cidade. “Acho que o discurso da banda é participar do atual cenário do rock, incentivando a criação de músicas autorais e diferentes. A figura feminina ajuda no discurso para mostrar que não é preciso ser homem para fazer um rock bom”, define.

Ela revela que, apesar das mulheres terem ocupado espaços nos últimos anos, no início se sentiu desconfortável e até com receio de a banda ser vista de forma negativa com a sua presença. “Felizmente nada disso chegou a acontecer. Fico muito feliz em fazer parte do rock brasiliense e até inspirar mulheres a fazerem parte também”, avalia. Atualmente, a banda Navan, que se define como indie pop rock, grava o primeiro álbum.

(foto: Philipi Lisboa/Divulgação)
(foto: Philipi Lisboa/Divulgação)


Sand Lêycia, baterista da Supervibe
Formada em 2013 como um duo, atualmente a composição da Supervibe é uma reformulação da formação inicial com João Ramalho, Deivison Alves e Sand Lêycia. A baterista explica que, ao se inserir no cenário, sentiu mais dificuldade de conseguir espaço para tocar como banda, não necessariamente por ser mulher. “Até mostrar nosso som e conseguir tocar por Brasília foram vários percalços. Não sei se essa dificuldade gerada foi porque a banda tem uma menina que segura a bateria”, afirma.

Apesar dos problemas, ela diz que, em 2017, a banda conseguiu se firmar no cenário, num mesmo momento em que as mulheres entraram na cena. “Acho que (o problema) não é nem a falta de meninas, mas, sim, a masculinidade forte — em seu antigo discurso — que persiste nessa cena. O rock, se pegarmos as letras, falavam de algo do tipo: ‘Escondam suas filhas que eu estou chegando na cidade’. E isso afasta as minas”, analisa. Para Sand, atuar como baterista na Humbold serve como incentivo a outras meninas. “Acho que no momento da apresentação represento a música, expresso minha arte e acho que isso também desperta a chama dentro das garotas”, avalia. Com dois EPs, a Supervibe trabalha em um álbum para 2018 e em dezembro deste ano lançará o clipe da faixa Desfaz, do EP Autóctone.

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